3 - Introdução ao Estudo da História de Angola

Name:
Location: Cranbrook, Colômbia Britânica, Canada

Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Xinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola, nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra da Canda) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) do Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1977, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. É gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas. Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.

Monday, May 29, 2006

3.9 Angola na História do Mundo



Mencionei já nesta Viagem que o estudo da História de Angola não ocorre num vácuo, ou numa proveta de laboratório, nem se limita ao que aconteceu em Angola sómente. O seu estudo tem que ter em atenção o que se passou ou passava nos estados ou povos mais chegados a Angola ao longo dos tempos. Precisamos assim de relacionar Angola com o resto do mundo, e investigar as influências que recebeu do exterior e a influência que exerceu nos povos da África Central, no Atlântico Sul, nas Américas, na Europa, e mesmo no mundo; em poucas palavras, é necessário enquadrar a História de Angola na História Universal.

Assim é importante relacionar a História de Angola com a história dos povos Bantos que cedo se estabeleceram no que hoje chamamos território de Angola; com a história de Portugal como potência colonial de cinco séculos; com a história do Brasil, nação irmã e cliente mais importante na parceria do tráfico de escravos - onde hoje há mais descendentes de africanos do que africanos em Angola; e com a própria história geral de África - seja de povos próximo como os do Congo ou de São Tomé, ou de sociedades ou culturas mais distantes no espaço e no tempo, como o a civilização Suahili na costa oriental de África ou mesmo da República da África do Sul nos tempos mais recentes.

É ainda necessário relacionar a História de Angola com a história atlântica e de todos os seus povos ribeirinhos, como a América Latina (antigas colónias de Espanha e Portugal), as Antilhas, a Holanda, a Inglaterra, a França, e até os Estados Unidos da América; de realçar o papel do tráfico de escravos angolanos na economia mundial do século XVI ao século XIX.

É bom lembrar que desde a sua imersão na economia e história mundiais nos finais do Século XV, os povos de Angola, embora hoje um pouco arredados dos centros de decisão mundial, estiveram no cerne de três grandes desenvolvimentos da história da humanidade nos últimos quinhentos anos. A saber,

a) Os escravos levados de Angola e da bacia do Congo aguentaram durante mais de 350 anos a carga mais difícil na construção do Novo Mundo (Brasil, Antilhas e Estados Unidos) e alimentaram a riqueza económica e preponderância política da Europa durante o mesmo período;

b) As disputas territoriais em Angola entre Portugal (Lunda, Foz do Zaire, costa da região do Ambriz, e bacia dos rios Lungué Bungo e Zambeze no Moxico) e Leopoldo II da Bélgica (Lunda e Katanga, Estado Livre do Congo) foram o pomo de discórdia que levou à realização da Conferência de Berlim onde a consequente partilha de África teve lugar e onde nasceram os impérios coloniais europeus que haviam de perdurar cerca de um século; e,

c) Foi nas chanas das Terras do Fim-do-Mundo em Angola (Cuito Cuanavale) que se travaram as batalhas finais mais decisivas da Guerra Fria , o que eventualmente resultou no desmoronar dos bastiões brancos em África (Rodésia, Sudoeste Africano e o regime de apartheid na República da África do Sul), e na queda final da experência marxista-leninista de 70 anos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) na Europa Oriental e Ásia Central.

Assim, vamos rever em mais detalhe nos próximos três capítulos cada um destes três i,portantes desenvolvimentos históricos de forma a podermos compreender melhor o papel de Angola na história da humanidade.



Nota ao Leitor:

Encontrarás nesta Viagem algumas vinhetas cujos temas não aparentam uma ligação directa ou imediata com a História de Angola; contudo elas são importantes para uma melhor compreensão do que pretendo expôr. Estas vinhetas expõem o contexto regional, global e temporal em que a História de Angola se desenrolou, ajudando assim a enriquecer a nossa compreensão dos factores externos mais relevantes que a moldaram.

3.8 Tanta História Ainda por Contar...



1. Muito Ainda Está por Estudar e Escrever

Apesar do grande esforço de um bom número de investigadores de história, o conhecimento da História de Angola é ainda hoje muito incompleto. Com efeito, podemos dizer que a história completa de Angola está ainda por escrever, pois existem muitas lacunas muito extensas no seu corpo de conhecimento. Há períodos completos ou grupos étnicos inteiros sobre os quais pouco ou nada se sabe da sua história. Como exemplos citamos apenas a história de alguns povos bantos que vieram ocupar Angola, e ainda menos o que se sabe sobre a história pré-Banta de Angola.

No caso específico desta Viagem Pela História de Angola, menciono o exemplo das migrações dos povos Bantos e o seu impacto nas populações que até aí ocupavam o território de Angola, que desconhecemos quase completamente. De facto, com a excepção do corpo magro de conhecimento arqueológico muito escasso de estudos sobre o Antigo Reino do Congo e de alguns povos do planalto e da savana, e da pesquisa sobre o tráfico de escravos e sobre as Campanhas Militares de Ocupação, pouco mais se sabe, pois não existe ainda um corpo de conhecimento histórico organizado estabelecido para os outros povos de Angola.

Para o Português dos Séculos XVI ou XVII interessado na história dos Antigo Reino do Congo e do Reino de Ndongo (Angola), o estudo da história (ou melhor, da pré-história) destes povos e os seus percursores na região representava um desafio considerável, já que o modelo de criação com base na Bíblia Judeo-Cristã que explicava a história dos povos da Europa e do Próximo-Oriente do seu tempo, o não podia acomodar e muito menos explicar, e a ausência de fontes escritas revelavam-se como uma parede intransponível para o estudo efectivo da sua história. Desde cedo ele reconheceu a utilidade e limitações da história oral, e a dificuldade (quase impossibilidade) em estudar os povos que habitaram a região antes da chegada dos povos de língua Banta.

Em termos de cobertura historiográfica para todos os povos de Angola, os Antigos Reinos do Congo e de Ndongo são decerto os que receberam mais atenção dos historiadores. De facto, as fontes de história para estes reinos desde o início do contacto com os Portugueses até ao final do Século XVII são relativamente abundantes, comparando com outras regiões e povos de África a sul do Sahara. Após a abolição da escravatura e do tráfico houve um ressurgimento de estudos e fontes para as regiões de Luanda, Ambaca, Congo, Cabinda, Benguela, Lundas e Moçâmedes, e após a Conferência de Berlim as fontes são melhores na cobertura das Campanhas Militares de Ocupação, embora essas fontes realcem a perspetiva portuguesa e não cubram a angolana.

Contudo, quase não existem fontes primárias para a história dos povos Ovimbundo, Nganguela, Nhaneca-Humbe, Ambó, Herero, Xindonga e os povos pré-Bantos (Khoisan, Cuepes e Cuíssis) desde a sua chegada ao que é hoje o território de Angola até a um passado muito recente (meados do Século XX).

Na verdade, para a maioria dos povos de Angola, não sabemos exactamente quem eram, como e quando chegaram, como se formaram, e quanto mudaram desde o tempo do seu relacionamento inicial com outros povos que já lá viviam.

Para colmatar algumas destas lacunas é importante que estudemos a extensa documentação existente nos arquivos históricos em Angola, em Portugal e no Brasil.


2. Trabalhos de Estudiosos Estrangeiros

É também necessário traduzir e divulgar em língua portuguesa algumas obras de importância extraordinária para o estudo da História de Angola publicadas no estrangeiro, como os trabalhos de E. G. Ravenstein, Heli Chatelain, Monsenhor Cuvelier e Louis Jadin, Edgar Prestage, C.R. Boxer, J.D.Fage, R.A. Oliver, Jan Vansina, Desmond Clark, Douglas Wheeler, Georges Balandier, James Duffy, Merlin Ennis, Basil Davidson, David Birmingham, Gerald Bender, John Thornton, Phyllis Martin, Joseph Miller, Lawrence Henderson, Gladwin Childs, Philip Curtin, Eugene Genovese, Herbert Klein, Patrick Manning, Paul Lovejoy, Gervase Clarence-Smith, René Pelissier, David Eltis, Franz-Wilheim Heimer, Beatrix Heintz, Linda Heywood, Robert Blackburn, A.J. Russell Wood, Marc Ferro, Susan Broadhead, Anne Hilton, John Reader, Marq de Villiers, e José Curto, e outros estudiosos tornando-as assim mais disponíveis ao estudioso lusófono da História de Angola.


3. Trabalhos de Historiadores Brasileiros

É ainda essencial a divulgação das obras de estudiosos brasileiros como Gilberto Freire, Celso Furtado, Caio Prado Júnior, Josué de Castro, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque da Holanda, Luís Pereira, Henrique Fernando Cardoso, Maria Beatriz Nizza da Silva, Kátia de Queiroz Mattoso, Décio Freitas, Jaime Rodrigues, Luis Felipe de Alencastro, Marina de Mello e Souza, e Eduardo Bueno, que apesar de incidirem sobre o estudo da história do Brasil, abriram novos caminhos para uma compreensão mais completa da História de Angola.


4. História da África Central

Angola está inserida a África Central, pelo que se torna importante ao estudioso da sua História saber relacionar acontecimentos e tendências em Angola com os ocorridos na África Central e vice-versa, relacionar acontecimentos e desenvolvimentos na África Central e como estes influenciaram a História de Angola.

Assim, penso que é útil referir a obra de alguns estudiosos que se salientam neste campo especial da História. Em primeiro lugar cabe-me citar o nome de Jan Vansina que desde a década de cinquenta do século passado produziu talvez a obra mais abundante e fecunda sobre a África Central. Eu penso que a leitura da sua obra é imprescindível não só ao estudo da África Central, como também ao estudo da História de Angola. Torna-se assim obrigatória a leitura da sua obra "Kingdoms of the Savanna" para quem quiser aprofundar conhecimentos sobre a pré-história dos antigos estados do Congo, Luba, Lunda, Cazembe, e Lozi. Se quisermos aprofundar o conhecimento sobre a história do Antigo Imério Kuba, a leste do Rio Cuango e vizinho de Angola, sugiro a leitura da sua obra "The Children of the Woot". A sua obra "Paths in the Rainforest" é por muitos considerada o melhor estudo de pré-história dos povos antigos que habitavam o território hoje designado com África Equatorial, que compreende os territórios do sul dos Camarões, Gabão, Guiné Equatorial, Congo (Brazzaville), Burkina Fasso (República Centro Africana), Zaire, e até Cabinda. De capital importância para o estudo da pré-história do Antigo Reino do Congo e dos povos ao longo do Quanza é a obra (já clássica) de Vansina "How Societies Are Born - Governance in West Central Africa Before 1600", em que Vansina combina evidência arqueológica com linguística histórica para explicar a evolução de pequenos núcleos de população espalhados pelo território, em sociedades que partilhando a mesma raíz linguística, deram origem aos estados organizados que os Portugueses lá encontraram no Séc. XVI. Assim, em termos do estudo da História de Angola, a sua obra "How Societies Are Born" é essencial, pois nesta obra Jan Vansina oferece o melhor estudo sobre a pré-história dos povos que viveram na região a que hoje chamamos Angola.

A obra de Jan Vansina não é só importante no estudos dos povos da África Central, pois a sua obra é também por muitos considerada como a que abriu caminho ao estudo da etno-história, às relações entre a linguística e a história, e à aceitação da história oral como um instrumento efectivo e válido no método do estudo da história.

Duas obras de grande relevo para uma melhor compreensão da História de Angola, especialmente da sua paleo-história e proto-história, são as obras de Desmond Clark "The Pre-History of Africa" e "The Pre-History of Southern Africa". Não posso de modo algum deixar de mencionar aqui a importante obra do saudoso Dr. Carlos Ervedosa "Arqueologia de Angola", que é sem dúvida a melhor introdução em português à arqueologia do território a que mais tarde se veio a chamar Angola.

Outras obras importantes que se torna necessário consultar incluem a "General History of Africa" , em oito volumes, publicada pela UNESCO, a "History of Central Africa" editada por David Birmingham e Phillys Martin, a obra "A History of Africa" (História de África", em português, em colaboração com William Tordoff) da autoria de J.D. Fage, a "A History of South and Central Africa" de Derek Wilson, e a obra de A.J. Wills "An introduction to the History of Central Africa - Zambia, Malawi and Zimbabwe", e a obra de Robert Collins e James Burns "A History of Sub-Saharan Africa".

Para uma melhor compreensão da génese e evolução histórica dos estados Umbundos é útil a leitura da obra "Kings and Kinsmen - Early Mbundu States in Angola" da autoria do Prof. Joseph Miller, e da obra "Trade and Conflict in Angola - The Mbundu and their Neighbours under the influence of the Portuguese 1483 - 1790" , da autoria do Prof. David Birmingham, que também editou em associação com Richard Gray "Pre-Colonial African Trade - Essays on Trade in Central and Eastern Africa before 1900" que nos oferece uma perspectiva muito boa sobre o papel do comércio na África Central e Oriental antes da chegada dos Europeus à região.

No campo do tráfico de escravos e o papel que os povos da região ao que chamamos hoje Angola, bem como o impacto do tráfico nesses povos, também é essencial a leitura da obra de Joseph Miller "Way of Death", e de toda a obra de Basil Davidson, um pioneiro do estudo da influência do tráfico de escravos do Atlântico nas sociedades africanas entre os séculos XVI e XIX. Como introdução geral à demografia do tráfico de escravos do Atântico é fundamental a obra de Phillip Curtin "The Atlantic Slave Trade - A Census". Como obra de referência, recomendo também a consulta de "The Trans-Atlantic Slave Trade Database on CD-Rom" compilada por David Eltis, Stephen D. Behrendt, David Richardson, e Herbert Klein, que nos fornece informação sobre 27.233 viagens de navios negreiros entre 1585 e 1866. Ainda essencial é o "Atlas of the Transatlantic Slave Trade" organizado por David Eltis e David Richardson, que nos oferecea melhor série estatística sobre o movimento de escravos através do Atlântico sob as perspectivas de porto de saída em África e porto de chegada no Novo Mundo.


5. Estudos Sobre a História do Atlântico Sul


Não é possível estudar a História de Angola entre os Séculos XVI e XIX sem estudar também a História do Brasil, pois durante mais de 350 era de Angola de onde vinha a mão-de-obra escrava para trabalhar os engenhos de açucar, minas de ouro ou fazendas de café do Brasil. Assim, torna-se imprescindível a leitura das obras clássicas de Celso Furtado "Economia Colonial do Brasil nos Séculos XVI e XVII" e "Formação Económica do Brasil", a "História Económica do Brasil" de Caio Prado Júnior, e "The Golden Age of Brazil", de C.R. Boxer, bem como "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freire. No que respeita às relações entre a costa de Angola e o Brasil é essencial a consulta da obra de Luiz Felipe de Alencastro "O Tratado dos Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul".

Mais numa perspectiva mais global da história e economia do Atlântico Sul e do sistema económico mundial, é essencial o estudo dos trabalhos de João Lúcio de Azevedo, Fernand Braudel, Vitorino Magalhães Godinho e Armando de Castro no domínio da história económica, as obras extensas de Jaime Cortesão e de Damião Peres no domínio da expansão portuguesa, e a obra de Luís de Albuquerque nos domínios dos Descobrimentos Portugueses e da cartografia antiga.

Se bem que mais contemporânea e com focus no processo histórico da descolonização africana é ainda importante estudar as obras de Frantz Fanon "Os Condenados da Terra" e "Peles Negras, Máscaras Brancas" para melhor compreender o enquadramento do colonialismo como sistema económico e político e o seu impacto na psicologia dos povos colonizados.

Para uma melhor compreensão deste tema tão importante é útil a leitura da obra de Jaime Rodrigues "De Costa a Costa - Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780 - 1860)". Ainda de muito interesse é a obra "Enslaving Connections - Changing cultures of Africa and Brazil during the era of slavery" editada pelos Profs. José Curto e Paul Lovejoy. Embora sob a capa de leitura mais ligeira e muito bem ilustrada, e por isso mesmo uma importante obra de divulgação, é muito útil a leitura da obra "África e o Brasil Africano" de Marina de Mello e Souza.


6. Cronistas e Historiadores Portugueses

Mais próximo de Angola, sugiro uma "re-leitura" dos textos históricos de Gomes Eannes de Azurara, Rui de Pina, Garcia de Resende, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Damião de Gois, Duarte Lopez e Felippo Pigafetta, Domingos de Abreu e Brito, António de Oliveira Cadornega, Alexandre Elias da Silva Corrêa, Joaquim Lopes de Lima, Oliveira Martins, Luciano Cordeiro, João de Mattos e Silva à luz de um estudo mais crítico e profundo dos seus testemunhos.


7. Trabalhos Importantes Sobre a História de Angola


Outros estudiosos da História de Angola mais recentes que são leitura obrigatória para uma melhor compreensão incluem Alfredo Trony, Visconde Paiva Manso, Alberto de Almeida Teixeira, Monsenhor Alves da Cunha, Alfredo de Albuquerque Felner, Padre Ruela Pombo, Francisco Castelbranco, Gastão Sousa Dias, Alberto Ferreira de Lemos, Henrique Galvão, Ralph Delgado, Marcello Caetano, António Brásio, Fernando Batalha, António da Silva Rego, José Gonçalo Santa-Rita, Hélio Felgas, Walter Marques, Manuel da Silva Cunha, Eduardo dos Santos, Martins dos Santos, Júlio de Castro Lopo, Carlos Alberto Garcia, Carlos Couto, José de Almeida Santos, Manuel da Costa Lobo, Norberto Gonzaga, Mário António Fernades de Oliveira, Manuel Nunes Gabriel, Ilídio Amaral, Cerviño Padrão, Roberto Correia, Aida Freudenthal, e Maria Emília Madeira dos Santos, alguns dos quais requerendo um esforço de tradução mais acentuado para balançar a perspectiva um tanto euro-cêntrica e colonial das suas obras.


8. Estudos de Etno-História

Na área da etno-história é essencial o estudo das obras de Henrique Dias de Carvalho, Padre Carlos Estermann, Óscar Ribas, José Redinha, João Vicente Martins, Mário Milheiros, Mesquitela Lima, Manuel Alfredo de Morais Martins, Jorge e Jill Dias, Abílio Lima de Carvalho, Manuel Guerreiro, José Pereira Neto, Padre José Martins Vaz, Padre Joaquim Martins, Ilídio do Amaral (mais no domínio da geografia humana do que etnografia ou história), Herman Possinger, Franz-Wilhelm Heimer e Ramiro Ladeiro Monteiro mais na área de sociologia.


9. Estudos Sobre o Tráfico de Escravos em Angola


Com mais foco no tráfico de escravos, é ainda essencial a leitura das obras de Alfredo Diogo Júnior, António Carreira, e Adriano Parreira, que primeiro estudaram o papel de Angola no tráfico de escravos do Atlântico, pois elas revelam um sem-fim de matéria-prima para uma melhor compreensão dos povos de Angola e da sua história.

Cabe-me aqui declarar agora a minha relativa ignorância quanto aos esforços de estudar e publicar história que com certo vigor se publicaram já depois da independência. Longe da acção, tem sido difícil para mim encontrar bibliografia tão recente. Contudo, cumpre-me citar o trabalho fecundo de Henrique Abranches ("Reflexões Sobre a Cultura Nacional") que decerto necessita de alcançar um público muito mais vasto, e da grande obra de difusão do romance histórico angolano levada a cabo pela excelente pena de Pepetela (Artur Pestana).

Finalmente, tomo aqui a oportunidade de guiar o leitor para as minhas notas sobre a bibliografia da História de Angola que apresento no fim deste trabalho. Elas não são decerto completas, pois incluem apenas algumas notas pessoais sobre textos que conheço, organizadas de acordo com temas e épocas; apenas um achego simples a tão importante veículo do estudo da História de Angola.

3.7 Fontes da História de Angola



De uma forma geral, as fontes de estudo da História de Angola são muito escassas e de frágil objectividade. Mas antes de discutir as fontes da história de Angola é útil cobrir dois conceitos-chave de fontes escritas de história. As fontes de história classificam-se em geral em dois tipos: fontes primárias e fontes secundárias.

1. Fontes Primárias

Fontes primárias referem-se a qualquer trabalho que tenha sido escrito durante a época (ou pouco tempo depois) em que o objecto de estudo aconteceu. As fontes primárias são a matéria prima básica para o estudo da história. Um exemplo de uma fonte primária no estudo da história de Angola é a Relatione del Reame di Congo et delle Circuonvicine Contrade Tratta dalli Scritti & Ragionamenti di Odoardo Lopez Portoghese per Filippo Pigafetta com disiegni vari di Geografia, di piante, d'abiti, d'animali, & altro - Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas - Tirada dos escritos e discursos de Duarte Lopez, Português - Por Filippo Pigafetta - Com Desenhos vários de Geografia, de Plantas, de trajos, de animais, etc., publicado em Roma em 1591 e traduzido em português por Rosa Capeans, publicado pela Agência Geral do Ultramar, em Lisboa em 1951. Nesta importante fonte da história de Angola encontramos uma descrição em primeira mão do Antigo Reino do Congo durante a época logo a seguir à chegada dos Portugueses e da sua consequente expansão para o Antigo Reino de Ndongo.

2. Fontes Secundárias

Por outro lado, fontes secundárias são aquelas que estudam as fontes primárias de um tópico em história depois do tempo do tópico a que o estudo se refere. Fontes secundárias são em geral estudos posteriores que cobrem a descrição, análise e explicação de fontes primárias. A obra do Professor Joseph Miller "Way of Death - Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade 1730 - 1830", publicada em 1988 pela University of Wisconsin Press é um exemplo de uma fonte secundária pois é um estudo extenso e profundo de fontes primárias sobre a prática do tráfico de escravos da região de Angola durante o século que vai de 1730 a 1830, escrita no último quartel do Séc. XX.

Em termos de documentação escrita, no estudo da História de Angola só temos acesso a documentos escritos depois da chegada dos Portugueses à foz do Zaire em 1481. Estas fontes escritas se bem que escassas são valiosas, pois dão-nos uma descrição em primeira mão de como ocorreu o processo de contacto entre duas culturas; contudo, devemos sempre notar que os escritos dos Portugueses e dos missionários reflectem necessáriamente as perspectivas portuguesa e cristã ao longo dos tempos, e não necessáriamente a objectividade dos factos históricos.

A bibliografia colonial portuguesa sobre Angola é de certa forma extensa, comparada com a bibliografia de outras regiões africanas a sul do Sahara. Contudo, esta precisa de ser "traduzida" antes que se possa usar com propriedade na formulação da História de Angola. É assim difícil discernir nas diferentes "Histórias de Angola" publicadas ao longo dos tempos, as diferentes interpretações que os seus autores lhes deram.

De particular importância para o estudo da História de Angola é ainda o estudo das descrições e memórias, autobiografias, relatos de viagens, diários e correspondência privada existentes. Contudo, apenas podemos usar estas fontes depois de as despir-mos de opiniões pessoais e juízos de valor que as acompanham, enquadradas no espaço e no tempo. É de facto muito interessante ler, por exemplo, as opiniões e comentários do Padre João António Cavazzi de Montecúccolo, na sua Descrição Histórica dos Três Reinos do Congo, Matamba e Angola, onde a evidência da sua formação europeia e cristã do seu tempo está sempre tão presente.

3. Tradição Oral

Não temos também acesso a informantes, entrevistas e narrativas de tradição oral, pois escasso é o trabalho neste campo de investigação histórica, e mais escassas ainda são as suas fontes para uma melhor compreensão da História de Angola.

Cabe ainda referir o papel importante que a mitologia, as lendas, contos, advinhas, canções, danças, festejos e jogos podem desempenhar na interpretação de factos ou personagens históricas passadas. A cultura popular e o folclore dão uma visão não oficial dos factos, personagens e acontecimentos importantes, muitas vezes mais ricas e mais verdadeiras, e pouco mencionados nas fontes mais convencionais. Por exemplo, a obra de Óscar Ribas, pelo seu esforço em transcrever um grande número de elementos de cultura popular luandense, é hoje uma fonte imprescindível, na verdade um tesouro valioso, para se compreender o quotidiano de Luanda antiga.

4. Evidência Arqueológica

A evidência arqueológica é também muito escassa e ainda não está organizada numa forma sistemática. Apesar dos trabalhos de Desmond Clark, Camarate França, Santos Júnior, Carlos Ervedosa, e outros, na segunda metade do Séc. XX, muito ainda está por estudar no que diz respeito à cobertura arqueológica de Angola.

5. Antropologia e Etno-História

Cabe aqui realçar o papel especial da antropologia (por alguns estudiosos designada por etnologia ou etnografia) e da etno-história no estudo e compreensão das sociedades angolanas tradicionais, e a contribuição que estas podem dar a uma formulação mais correcta e abrangente da História de Angola. Sabemos assim das contribuições valiosas que um número restrito de etnólogos (ou antropólogos, a saber, Henrique de Carvalho, José Redinha, Carlos Estermann, João Vicente Martins, Mário Milheiros, Manuel Alfredo Morais Martins, e Mesquitela Lima) deram para o conhecimento mais profundo da história de alguns povos de Angola.

É ainda importante referir que para esta Viagem Pela História de Angola recorri somente a fontes secundárias (bibliografia) e que não conduzi qualquer investigação original baseada em fontes primárias. Assim, filtrei e extrapolei a informação que tive disponível e recorri sempre que necessário à economia política, à sociologia, à antropologia, à demografia e a outras disciplinas sociais para tentar colmatar as lacunas da desejada evidência histórica.

Foi pois difícil para mim escrever sobre um tópico em que as fontes sejam tão limitadas e esparsas. Contudo, e apesar das grandes lacunas que reconheço, é importante que o faça com o maior rigor e objectividade possível. Recorri assim a numerosas obras em inglês, francês e espanhol, em que alguns autores tentaram com alguma frequência denegrir o esforço português e a sua obra, o que me senti obrigado de vez em quando a abrandar ou corrigir.

No meu caso pessoal, não tive o benefício do diálogo ou da troca de ideias com outros amantes da História de Angola, pois estou longe de qualquer grupo que se interessa por este tópico tão exótico. Esta foi assim uma empresa solitária, e por isso mesmo mais sujeita ainda a maior risco de subjectividade.

3.6 Porquê Estudar a História de Angola?


O passado condiciona necessáriamente não só o que somos hoje, mas também o que fomos ontem, e mesmo o que seremos amanhã. Assim, o estudo da História de Angola ajuda-nos a compreender melhor o processo de mudança ao longo do tempo e assim entender melhor o que é hoje Angola.


1. Ir à Raíz das Questões

Com frequência, o estudo de acontecimentos recentes não é suficiente para explicar uma determinada realidade social ou política, havendo necessidade de se "voltar mais atrás no tempo" a fim de podermos entender melhor as raízes e os agentes-chaves de mudança e a sua evolução, prestando não só atenção a factores conjunturais mas também aos estruturais. Por outro lado, sabemos também que o conhecimento do momento presente ajuda-nos a melhor compreender o passado. O estudo da história é quem nos ajuda a aprender as relações causais entre os factos históricos e a ordená-los de acordo com um padrão ou lógica.

Só através do estudo da História de Angola podemos compreender não só o que mudou como também o "porquê" que as "coisas" mudaram, e quais os agentes da dinâmica social angolana que persistiram ao longo dos tempos, não obstante mudanças radicais noutros campos, pois como Leibnitz disse, "a melhor maneira de compreender uma realidade é conhecer-lhe as suas causas".


2. Melhor Entendimento Social

A história é a memória comum de uma sociedade. A História de Angola relembra-nos não somente os seus heróis e grandes feitos do passado, ou o sincretismo do contacto entre vários mundos, mas também nos revela a crueldade e violência do tráfico de escravos, a exploração colonial e a destruição da Guerra Civil; o seu conhecimento é essencial para uma melhor cidadania, ajudando assim na promoção e realização de uma identidade nacional mais sã e mais completa. O estudo da História de Angola ajuda também o melhor entendimento entre os homens, contribui para a construção de uma sociedade democrática mais esclarecida e actuante dos seus cidadãos.


3. Padrões de Evolução

O conhecimento da História de Angola mostra-nos como indivíduos, grupos, instituições, classes, povos e sociedades evoluiram ao longo do tempo, enquanto contribuiram para a coesão do todo a que hoje chamamos Angola. O seu estudo dá-nos uma preciosa lição acerca da evolução e tendências a longo prazo das relações económicas, estruturas políticas e religiosas, instituições sociais nacionais, e desafios e valores, ao mesmo tempo que nos mostra como é que os agentes se articulavam entre si, e como é que Angola se relacionava com o resto do mundo. É certo que o passado não se pode mudar, pois os factos históricos em si não se repetem, mas o nosso conhecimento deles é um processo que evolui e se aperfeiçoa continuamente ao longo dos tempos.


4. Pedagogia da História de Angola

Quanto aos erros e tragédias do passado, a sabedoria popular diz-nos que quando um povo esquece a sua história, esse povo está condenado a repetir os mesmos erros e tragédias do passado. É assim importante para uma sociedade estar bem informada acerca das grandes tragédias da humanidade ocorridas no passado, de forma a cedo poder detectar, perceber e resolver os primeiros indícios ou tendências que possam levar a novas tragédias. O conhecimento e a divulgação da história facilitam a vigilância e o activismo político, pois todos aprendemos com os erros do passado, e como o historiador Marc Bloch bem notou, sabemos que "a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado". Por outro lado, é também importante saber quais os sucessos do passado para os compreender e adaptar ao presente.


5. Métodos de Pensamento e Pesquisa


Num plano mais pessoal, a aprendizagem da História de Angola, como laboratório infinito do seu passado, ajuda-nos a identificar melhor o continuum da sua evolução e avaliar os conflitos ao longo dos tempos, ajudando-nos assim pessoalmente a discernir melhor quais os agentes principais de mudança em situações complexas, cuja compreensão nos ajuda a enfrentar alguns problemas e dilemas que, como pessoas comuns enfrentamos no nosso dia-a-dia.

O estudo da história facilita ainda a aquisição de melhores hábitos pessoais de pesquisa, de avaliação de conhecimentos e de escolha, e o despertar da mente para compreender com mais rigor a realidade social e política que nos rodeia. O estudo da história ajuda-nos ainda a desenvolver bons hábitos de pensar e agir, predicado essencial para um melhor desempenho social e político, seja para uma classe política, comunidade, grupo, ou simplesmente para um eleitorado mais educado e eficaz.


6. Identidade Angolana


A História de Angola é a memória social e cultural dos povos que cimentaram a sua formação. A Nação Angolana é formada por grupos étnicos e culturais variados que partilham o mesmo passado comum, e é a história que ajuda a identificar a Nação Angolana como tal. Porém, a história não só ajuda na formação da Nação Angolana, como também é ela que fornece os elementos que leva os seus cidadãos a identificarem-se como "nacionais" com base na experiência dos seus antepassados.

Assim, é a História de Angola que nos mostra como povos originalmente distintos e independentes entraram em contacto uns com os outros e se transformaram ou se juntaram a outras sociedades ao longo dos tempos, e como essa aglutinação criou e alimentou a identidade política e social que é a Angola de hoje Podemos assim dizer que é a História de Angola nos ajuda a definir como Angolanos.


7. Prazer e Delícia

Por fim, o estudo da história não só informa, mas também inspira e delicia. É, como sabemos, um profundo prazer, pois pouco há de mais belo do que a leitura da descrição ou análise do passado emanado da mente e pena de um bom mestre em história. Com referência ao prazer que a leitura ou o estudo que uma boa obra de história nos pode dar, transcrevo as palavras do Padre José Matias Delgado no seu Prólogo do Anotador à História Geral das Guerras Angolas, escrita por António de Oliveira Cadornega e publicado em Lisboa em 1680, e editado pela Agência Geral do Ultramar, Lisboa, em 1972, com anotações do Padre José Matias Delgado:

"Cadornega era dotado de um grande espírito de observação e conta os factos de tal modo que se torna agradável e de interesse a leitura da sua história, posto que à primeira vista nos amedronta pela enormidade dos seus compactos capítulos. A sua maneira de escrever é tão natural, tão fluente e simples que nos encanta, nos deleita e sobretudo nos comove, fazendo-nos passear diante dos olhos os factos admiráveis de grande heroismo e verdadeiras epopeias."

3.5 Tempos Diferentes ao Mesmo Tempo...



O universo político a que chamamos Angola não é um todo homogéneo em que todas as suas partes estiveram sempre em sincronia. Pelo contrário, Angola evoluiu a cadências diferentes não só no tempo mas também no espaço, pois o "todo" a que chamamos Angola, só se formou assim nos últimos cem anos. Angola é assim, como a maioria das actuais nações africanas, uma sociedade compósita, uma nação em construção, e não um país "acabado".

No estudo dinâmico da História de Angola encontramos a qualquer momento nos tempos mais recentes, a coexistência de povos com modos de produção e cultura muito diferentes, variando num continuum muito amplo que vai do modo de produção neolítico para os Khoisan, passa por sociedades pré-capitalistas para a maioria das sociedades tradicionais bantas, e termina numa economia tipicamente capitalista e moderna nas regiões mais industriais e urbanas.

A unidade política e o território da então colónia portuguesa de Angola foram-se formando a ritmo diferentes, à medida que mais povos passavam a fazer parte do todo a que chamamos Angola, trazendo cada um as suas dinâmicas histórica, social, económica, política, religiosa e artística, e misturando-as com o todo que era Angola ao tempo da sua fusão.

Assim, não podemos com inteira propriedade dizer que a Idade Pré-Colonial terminou em Angola com a chegada de Diogo Cão à foz do Zaire em 1481, ou com a fundação de Luanda em 1576, ou com a batalha de Ambuíla em 1665, ou mesmo ainda com a campanha do Bailundo em 1902. O fim da Idade Pré-Colonial para povos diferentes que hoje fazem parte do todo Angola aconteceu em tempos diferentes e a ritmos diferentes, quando esses povos passaram a fazer parte do todo a que chamamos Angola. Assim, por exemplo, temos que a Idade Pré-Colonial para o povo Bacongo terminou vários séculos antes do que a mesma para os povos Nganguela ou Ambó.

Temos ainda a considerar o facto que certos povos de Angola, como o povo Bakongo, "entraram e saíram" mais de uma vez da suzerania dos Portugueses, assim "entrando e saindo" da História de Angola. De facto, o Antigo Reino do Congo manteve a sua unidade e independência até às Invasões Jagas de 1568, renasceu das suas cinzas com a ajuda dos Portugueses até 1665, ano em que foi dizimado na Batalha de Ambuíla, saíndo assim da órbita da colónia portuguesa de Angola até 1881, quando foi trazido de volta para a Colónia de Angola através da acção do Padre D. António Barroso.

Para completar este panorama, já por si um pouco confuso, devemos ainda considerar o facto que o quantum de integração dos povos nativos no todo "Angola" durante a maior parte da Idade Colonial, variava muito a qualquer momento da história, desde completa independência até completa integração na colónia, passando por estágios intermédios de trocas comerciais marginais e esporádicas, presença comercial mais regular e efectiva, vassalagem à soberania portuguesa, presença portuguesa simbólica, até completa integração nos aparelhos político, militar, administrative e económico da colónia.

Sem dúvida que estas "arritmias" não fazem da História de Angola um tópico mais simples de se compreender; contudo, o processo histórico foi muito semelhante para a maioria dos povos que formam hoje a nação angolana, passando a maioria deles por processos, padrões e marcos muito semelhantes, o que de certo modo facilita um pouco a leitura e compreensão da História de Angola.

3.4 Os Grandes Períodos da História de Angola


1. A Divisão da História em Períodos

A descrição e o estudo da evolução humana ao longo dos tempos é mais fácil de se compreender quando a dividimos em idades ou épocas distintas, pelas quais agrupamos um ou mais elementos fundamentais comuns.

Por outro lado, a passagem de uma época histórica para a próxima é em geral marcada por um salto qualitativo (uma revolução), geralmente com origem em melhoramentos significativos nas técnicas de produção de alimentos ou na técnica de fazer guerra, ou ainda na organização comercial ou político-militar.

É em geral fácil de reconhecer as mudanças no sistema económico (modo de produção) e nas mudanças das instituições sociais e políticas que demarcam um período do próximo que lhe segue.

Devido à condição específica e única da história de cada grupo humano a ser estudado, não é possível ter uma regra de periodização universal que se aplique às histórias individuais de todos os grupos humanos. Cada grupo humano ou região tem uma evolução única, diferente das histórias de todos os outros grupos humanos; de facto não há duas sociedades humanas com a mesma história.

Assim, a periodização da história de cada grupo humano a ser estudado tem sempre que atender às condições específicas da evolução desse grupo ao longo dos tempos. Com efeito, a periodização da História de Angola é necessariamente diferente da periodização da História do Brasil, por exemplo, em que ambas partilham a existência de um período colonial de pouco mais de tr|es s]eculos, mas encontramos no Brasil o Período do Império sem contraparte na História de Angola.

Contudo, à medida que resumimos e comparamos a história de dois ou mais grupos humanos distintos, podemos notar que certos padrões de evolução são sempre presentes e relativamente constantes, o que nos permite agregar a história desses grupos humanos em grupos mais gerais, em que se torna mais fácil identificar essa história em períodos mais gerais. Assim, à medida que passamos de unidades históricas mais pequenas (tribos e povos) para maiores (reinos, impérios ou civilizações) notamos uma agregação dos períodos dessas sociedades em períodos mais gerais e mais globais.

Como exemplo, podemos dizer que apesar das condições específicas de cada povo a entrar na História de Angola, em tempos e processos diferentes, podemos identificar em geral um período antigo, um período pré-colonial, um período de contacto, e finalmente um período de absorção no todo angolano. Assim, o povo original deixou de o ser quando passou a fazer parte da unidade histórica a que chamamos Angola, como é o exemplo do Antigo Reino do Ndongo.


2. A Transição de um Período para o Próximo

É importante notar que a transição de um período histórico para o próximo não acontece numa data exacta ou de um dia para o outro; de facto, o processo de transição pode durar séculos e ser tão vagaroso que nem se nota qualquer transição.

Por vezes os historiadores adoptam um acontecimento extraordinário e marcável como o "momento" de transição de um período para o próximo, como é por exemplo a chegada da esquadra de Diogo Cão à foz do Zaire em 1483, como momento que define o começo do período colonial.

Contudo, no caso da História de Angola é difícil marcar com exactidão a data em que termina o período pre-colonial e quando começa o período colonial. Como marco do início do período colonial aponta-se em regra como acontecimento significativo a chegada da esquadra de Diogo Cão à foz do Zaire em 1483; mas se nos debruçarmos mais atentamente sobre esse acontecimento verificamos que os Portugueses não tinham inicialmente a intenção de colonizar Angola, mas sim encontrar riqueza mineral (as minas de prata de Cambambe e mais tarde as minas de cobre do Sumbe Ambela), e só com o estabelecimento de Luanda e Massangano por Paulo Dias de Novais em 1576 e 1583 respectivamente, é que, formalmente, se estabeleceu a "colónia" portuguesa de Angola.

Por outro lado, temos ainda que considerar o facto de que a "absorção" de povos e estados ancestrais africanos no todo angolano durouem alguns casos séculos a se realizar, pois apesar da conquista do Antigo Reino do Ndongo nos fins do Século XVI, a integração do estado Ambó não teve lugar até aos princípios do Século XX.


3. Periodização Eurocêntrica

Habituados que estamos com a periodização eurocêntrica da história universal de acordo com a evolução linear Pré-História - Antiguidade Clássica - Idade Média - Idade Moderna e Idade Contemporânea, é talvez com certa relutância que aceitamos que o mesmo modelo de periodização não se aplique à história da humanidade em África.

Porém, quando nos debruçamos sobre o seu estudo, torna-se imediatamente evidente que a história dos povos africanos seguiu por dezenas de séculos os seus próprios caminhos até se cruzar com os caminhos da Europa desde a época dos Descobrimentos Portugueses.

Mesmo depois do contacto e cruzamento hstórico com os Europeus a História de África seguiu um padrão único e distinto da História da Europa. Assim, como resultado da interacção entre os povos e estados da Europa e da África, encontramos na História de África um período colonial, que não encontramos na história dos povos ou estados da Europa.


4. O Factor Diversidade na História de África

É importante lembrar que a África não é uma unidade geográfica, cultural e histórica homogénea e coesa (decerto um mito eurocêntrico); muito pelo contrário, a África é talvez o continente no mundo com a maior diversidade ecológica e cultural, pois constatamos que existem diversas "Áfricas" muito distintas umas da outras e em que cada uma tem uma identidade muito própria.

Em África não só encontramos o maior deserto do mundo (o Sahara), como encontramos a extensa floresta equatorial, as praias quentes do seu litoral, como as neves eternas do Kilimanjaro; Em África não só encontramos os povos de compleição mais pequena (os pigmeus Mbuti da África Equatorial), como encontramos os homens mais altos do planeta (os Watutsi do Ruanda), os Bérberes do Sahara como também os Fang da floresta equatorial, ou o povo Malgache e os Khoisan da África Meridional.

Assim as grandes regiões africanas como o Magrebe, o Sudão, a África Ocidental (Sahel), a África Equatorial, a África Oriental, a África Central, a África do Sul e Madagáscar são regiões tão diferentes entre si, como a Índia o é da China, ou como Portugal o é da Suécia.

No caso particular da África Central, de que Angola faz parte, a periodização da sua história tem que ter em atenção a sua evolução humana específica na região ao longo de milénios, o que requer uma periodização própria.


5. Os Grandes Períodos da História de Angola

Assim organizei esta Viagem Pela História de Angola em grandes períodos ou épocas, na esperança de que a extensão dos tópicos se torne mais fácil de se compreender. Esta periodização é um pouco arbitrária e opaca, contudo é talvez a mais aceite pela maioria dos estudiosos da História de Angola. Assim sugiro que na História de Angola encontramos quatro grandes épocas distintas, a saber:


5.1 A Pré-História de Angola

A Pré-História de Angola, começa com a Idade da Pedra acaba com o fim do Período Neolítico - em geral de há quarenta mil anos até cerca do ano 1.000 depois de Cristo; cobrindo a proto-história dos povos pré-Bantos - Khoisan, Pigmeus, Cuissis, e Cuepes, que desde longa data habitam o actual território de Angola, até à chegada dos primeiros povos Bantos.

Por sua vez, o Período Pré-Histórico é geralmente dividido em épocas que incluem a Idade da Pedra, o Período Neolítico, e o povoamento do território pelos povos pré-Bantos Pigmeus, Khoisan, até à chegada dos primeiros povos Bantos à região no Séc.XIII, precursores do Antigo Reino do Congo.

Por norma, os Povos Cuíssis e Cuepes são classificados como pré-bantos, o que não quer dizer que existiam como povos diferenciados antes da chegada dos povos Bantos à região. Um número crescente de estudiosos partilha a opinião de que esses povos são de facto o resultado do cruzamento ou absorção de antigos grupos Khoisan pelos recém-chegados povos Bantos à região.


5.2 O Período Pré-Colonial

O Período Pré-Colonial, que começa com a Idade do Ferro, as grandes migrações dos povos Bantos, e o consequente estabelecimento dos reinos da savana, até que termina na data da chegada dos Portugueses ao Antigo Reino do Congo em 1481 - desde cerca do ano 1.000 depois de Cristo até aos fins do Séc. XV, que inclui a época que vai desde a chegada dos povos Bantos à região que hoje compreende o território de Angola no Séc. XIII e a chegada dos Portugueses nos fins do Séc. XV.

Foi durante o período Pré-Colonial que se formaram os primeiros estados Bantos na região pelos povos Ambundos e Bakongo
. Este período na história de África inclui a Idade do Ferro, a origem dos povos Bantos e as suas grandes migrações para a África Central e Meridional, os antigos impérios sudânicos, os potentados do Golfo da Guiné, e os antigos estados Bantos que se estabeleceram nas bacias dos rios Zaire, Cuanza, Queve (ou Cuvo), Zambeze, Cunene, Cubango, Cuíto e Cuando, e os reinos Bantos dos Grandes Lagos e da África Oriental e Meridional.


5.3 O Período Colonial


O Período Colonial, é definido pelos tempos de Angola colónia portuguesa - de 1483 a 1975; O
Período Colonial, começa com a chegada dos Portugueses ao Zaire em 1481 e termina com a Independência de Angola em 1975. O Período Colonial pode ser dividido em três épocas distintas:

a) Primeiro Período - A Época da Conquista Portuguesa - Desde os primeiros contactos com os Portugueses que chegaram ao Antigo Reino do Congo em 1481 e a eventual conquista do Antigo Reino do Ndongo e a fundação de Luanda em 1576 e o estabelecimento dos fortes portugueses de Massangano em 1583 e Muxima em 1594 ao longo do curso do Rio Cuanza. Durante este período, e como reflexão do mito do El Dorado resultante do achamento de enormes quantidades de ouro e prata na América Central e do Sul (civilizações Azteca, Maya e Inca) pelos Espanhois, a presença portuguesa era dominada pela procura das famosas minas de prata de Cambambe e do Sumbe Ambela, e em menor grau, pelo crescente tráfico de escravos para São Tomé, Europa e Brasil.

b) Segundo Período - A Época do Tráfico de Escravos, inicialmente orientada para os engenhos de açúcar de São Tomé, ainda nos fins do Séc. XVI, e depois para os engenhos de açúcar do litoral brasileiro (Maranhão, Pernambuco e Bahia) até aos finais do Sec. XVII, e mais tarde para as minas de ouro e diamantes de Minas Gerais e São Paulo. Depois da independência do Brasil em 1822 a exportação de escravos de Angola foi em parte orientada para os Estados Unidos e para Cuba, embora a maioria dos escravos continuasse a ser absorvido pelo Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais), já depois da abolição da escravatura em 1836 em Angola e até 1888, ano da proclamação da Lei Áurea no Brasil.

c) Terceiro Período - A Época de Exploração de Produtos Coloniais (produtos tropicais e minérios - mel, borracha, açúcar, café, algodão, tabaco, milho, diamantes, ferro, e petróleo) que começou em 1845 com o consulado do Governador Pedro Alexandrino da Cunha em 1845 e terminou com a independência de Angola em 1975. Esta época é principalmente definida pela Corrida à África pelas potências Europeias depois da Conferência de Berlim e o estabelecimento de impérios coloniais de estados europeus em África.

Foi durante este período que a ocupação efectiva do território pelos Portugueses se completou através das Campanhas Militares de Ocupação entre 1851 e 1925 (no contexto do imperialismo europeu e da Corrida à África), e a colonização branca do território se realizou, com a exploração mais intensa dos recursos agrícolas e mineiros.


5.4 Angola Estado Independente

Angola como estado soberano, depois da Independência, depois de 1975 até aos dias de hoje (2008). Angola Estado Soberano, começa com a descolonização de África, passando pela luta de libertação nacional, descolonização portuguesa, Independência, breve experiência marxista-leninista, Guerra Civil, petróleo bruto e diamantes e cleptocracia e corrupção, e por fim Angola em paz e em desenvolvimento.

3.3 Diversidade Étnica


1. Angola Nação Jovem

Angola como nação é ainda uma realidade jovem na comunidade das nações
. A Nação Angolana é de facto um todo que é feito por dez povos, ou grupos étnicos, como também são designados, e que no partilhar do que têm em comum estão ainda cimentando a construção da Nação Angolana. Alguns destes povos estão mais (ou menos) empenhados neste processo que outros, embora todos façam parte da mesma.

A coesão destes povos numa só nação começou nos últimos tempos do período colonial, e tomou forma na resistência comum (se bem que não centralizada) à soberania portuguesa. A luta de libertação ajudou a catalizar esta unidade nacional, que por sua vez tornou possível uma Angola una e independente.

Se bem que a Guerra Civil Angolana, que assolou o país entre 1975 e 2002, tenha maiores raízes na Guerra Fria, que os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (USSR) travaram durante 40 anos pelo controle do mundo, podemos dizer que o conflito angolano tinha também raízes tribais. Só com a paz alcançada em 2002 é que a nação Angolana pôde finalmente retomar livremente a orientação de unidade nacional.


2. Estados, Nações e Território em África

Como a maioria das nações africanas, a Angola de hoje é um produto do colonialismo europeu, que depois da Conferência de Berlim em 1885, não conhecendo as fronteiras dos territórios dos povos africanos, dividiu a África em colónias sem obedecer a qualquer geohistória dos povos subjugados.

Esta repartição cega de África teve lugar nas chancelarias europeias, sem qualquer consideração pela história e soberania dos povos africanos no terreno. Assim, as fronterias das colónias africanas atravessam territórios antes unidos sob a soberania de vários estados nativos, resultando na geopolítica actual africana, onde encontramos o território tradicional dos antigos estados africanos repartido entre vários estados actuais, como são os exemplos do Império Lunda e do Povo Bakongo, que se repartem entre Angola e o Congo (Kinshasa), ou dos povos Herero e Ambó, que agora está repartido entre Angola e a Namíbia, ou ainda dos Khoisan que se repartem por um território tradicional ainda maior que inclui partes de Angola, Namíbia e Botswana; ou ainda dos territórios actuais que incluem vários estados antigos, como ainda é o exemplo do território actual de Angola, que inclui parte dos territórios de dez povos que anteriormente ao colonialismo europeu faziam parte de estados independentes com soberania própria e efectiva sobre o seu território tradicional.


3. Homem e Tempo em História

No estudo da história encontramos duas unidades fundamentais: "homem" e "tempo". Quando nos referimos a "homem" queremos dizer grupo, sociedade, povo, nação, civilização ou humanidade, e quando nos referimos a "tempo" queremos dizer evolução, época ou período. Assim nesta Viagem Pela História de Angola, usarei muito a perspectiva de "povo", e tentarei sempre enquadrar a História de Angola de acordo com "períodos" claramente agrupados e definidos. Voltaremos mais tarde a estes tópicos quando aprofundarmos algumas noções fundamentais de história no próximo troço desta Viagem (Um Pouco de Historiografia). Contudo, acho oportuno investigarmos neste momento o conceito de "povo" no contexto da História de Angola, pois penso que nos vai ajudar um pouco nesta nossa Viagem.


4. O que é um Povo?

O que é que define um povo? De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, Edição de 2004, da Porto Editora, um "povo é um grupo de indivíduos que tem a mesma origem, a mesma língua, e partilham de instituições, tradições e costumes e um passado económico e histórico comum". A esta definição podemos adicionar mais identidades como o tipo genético, cultura, a religião, o modo de produção, e o território, que decerto nos ajudam muito a classificar grupos humanos de acordo com as suas características mais importantes.

Contudo, o conceito de "povo" é ainda fluido e nunca inteiramente homogéneo, pois está sempre em constante evolução e mutação, nunca "cristalizando" numa determinada forma; assim, ao longo do tempo, certos povos e nações deram origem a outros povos e nações, como é o exemplo da maioria dos povos da Europa de hoje.

Sob o risco de ser erroneamente compreendido como advogando uma perspectiva tribal (e não nacional), que de forma alguma é a minha intenção, usarei o termo "povo" e não "grupo étnico" ou mesmo "grupo etnolinguístico", para designar os grupos que partilham um território nacional específico, praticam a mesma economia, falam uma língua específica, e vivem uma identidade cultural diferente de todos os outros, pois, com a excepção de governo próprio independente e soberania territorial, reúnem todos os predicados para que sejam designados como povos e não somente como grupos étnicos.


5. Povos na História de Angola

Contudo, na formulação da História de Angola é importante que nos debrucemos sobre o estudo da histórias destes povos antes, durante, e depois da sua inclusão no universo histórico a que chamamos Angola. Assim, e a tom de introdução sobre o capítulo "Os Povos de Angola", apresento uma resenha muito geral de cada povo, indicando o seu percurso histórico de migração, território que ocupavam, economia que praticavam, língua que usavam, e alguns dos aspectos mais significativos da sua economia, estrutura social e cultura, bem como uma breve referência aos seus heróis e acontecimentos mais notáveis da sua história.

Este esboço inclui os povos pré-Bantos Khoisan, Cuepes e Cuíssis e os povos Bantos que num movimento migratório que durou mais de seis séculos vieram estabelecer-se no actual território de Angola, que inclui os povos Bakongo, Ambundo, Lunda-Quioco, Ovimbundo, Nganguela, Nhaneca-Humbe, Ambó, Herero e Xindonga, bem como o grupo híbrido dos Quimbares na região de Namibe (Moçamedes) que resultou da misceginação de indivíduos oriundos de grupos étnicos diferentes que foram atraídos para trabalhar na indústria da pesca, e as sociedades crioulas composta de mestiços que resultaram do cruzamento genético e sincretismo social e cultural entre os povos tradicionais africanos e os Portugueses ao longo de quase cinco séculos.

Sunday, May 28, 2006

3.2 Que Angola?



1. Que Angola é que vamos estudar?

Quais os grupos humanos que nos debruçamos a estudar quando queremos estudar a Historia de Angola? Perguntas fáceis de propôr, mas de não tão fácil e imediata resposta.

Para efeitos deste estudo, por Angola entendo todos os grupos humanos locais que de qualquer forma tiveram influência relevante na evolução histórica do país a que hoje chamamos Angola, e o estudo das relações entre esses povos ao longo da história.

Assim incluo na História de Angola, o estudo de todos os povos tradicionais africanos cujos movimentos migratórios passaram ou terminaram no actual território de Angola, dos povos vizinhos que condicionaram a sua existência e expansão, dos Portugueses que a colonizaram por quase cinco séculos, do Brasil de quem Angola foi uma colónia por mais de três séculos, e do Atlântico que foi palco da maior diáspora na história humana.

Para além do estudo dos povos e dos factos históricos, é também essencial estudar os diferentes modos de produção que foram factores determinantes na História de Angola. Assim, devemos estudar mais em pormenor a instituição social da escravatura nas sociedades tradicionais africanas e o sistema económico do tráfico de escravos do Atlântico imposto pelos europeus, não só para melhor conhecer o seu impacto na História de Angola, como também para melhor avaliar o papel de Angola no contexto da História Universal.

Para melhor se compreender a História de Angola é necessário um bom conhecimento da sua geografia. A morfologia do território angolano, com a costa atlântica relativamente estreita, a sua imensa savana no planalto interior, a floresta de galeria nas Lundas, a floresta tropical a norte do Rio Cuanza, o deserto do Namibe, o tecto do Planalto (da Huíla ao Munhango), e as bacias hidrográficas dos rios Zaire, Cuanza, Zambeze, Cuando e Cubango, e Cunene, todos influenciaram sobremaneira o padrão de povoamento humano ao longo dos milénios. Por seu lado, o regime de chuvas, indo de elevada pluviosidade a norte e no Planalto Central até quase a sua ausência no Namibe, determinou a enorme variedade e riqueza da fauna e da flora.

A configuração e extensão do actual território de Angola foi o resultado da acção dos Portugueses ao longo de quase cinco séculos de influência sobre os povos da região. Contudo, apesar deste contacto tão longo, a presença efectiva dos Portugueses nas terras de Angola, foi durante mais de trezentos anos limitada a uma pequena porção do litoral perto da foz do Cuanza, de menos que 10% da área total do território actual. Somente depois da Corrida à África nos fins do Século XIX é que os Portugueses expandiram o seu domínio para o interior, e somente em 1926 é que o território ficou com a sua configuração actual sob o controle total dos Portugueses.


2. Identidade Histórica de Angola

Antes propriamente de cobrir o tópico "Angola", acho por bem cobrir a questão "Que Angola?" Isto porque antes da chegada dos Portugueses, o território foi ocupado por um número de povos diferentes ao longo dos séculos, não sendo considerado nunca como uma unidade histórica única (Angola), mas uma região em que havia vários povos independentes uns dos outros vivendo em territórios vizinhos. A questão da unificação destes povos numa entidade histórica única só se pôs com o começo da ocupação portuguesa da região

De facto, para os Portugueses, Angola não começou como "Angola", mas sim como "Congo", mais propriamente, o território do Antigo Reino do Congo, geralmente definido pelos rios Zaire a Norte, Cuango a Leste, e Dande a Sul, e pela costa atlântica a Oeste, desde o tempo da chegada de Diogo Cão em 1483 até à Batalha de Ambuíla em 1665.

Só com a carta de doação da capitania de Angola a Paulo Dias de Novais em 1571 e a sua chegada à região em 1575 (na sua segunda estadia) e com a fundação da povoação de S. Paulo de Loanda, é que Angola começou a existir como possessão negreira portuguesa, e como entidade política, económica e militar no quadro geoplítico do Atlântico Sul e da África Central e Austral desse tempo.

Por seu lado, o Antigo Reino do Congo entrou em decadência em 1568 como resultado das invasões dos Jagas (Imbangala) vindos de além Cuango, e por ter perdido a sua hegemonia regional na sua derrota da Batalha de Ambuíla em 1665. A Partir desta data o Reino do Congo manteve-se como reino independente dos Portugueses mas sem qualquer soberania ou significância regional até ser definitivamente conquistado pelos Portugueses através das Campanhas Militares de Ocupação levadas a cabo nos fins do Século XIX e princípios do Século XX.

Cabe ainda aqui recordar que Angola não foi a única possessão portuguesa na região. Se bem que efémera, Benguela existiu como possessão directamente dependente de Lisboa por poucos anos, e não de Luanda, sendo uma possessão com o mesmo status político (mas não militar) que Angola. Contudo, a independência de Benguela foi efémera, pois começou em Maio de 1617 com a chegada de Manuel Cerveira Pereira à Baía das Vacas, então nomeado designado por Filipe III como "Conquistador e Povoador do Reino de Benguella", e acabou na realidade em 1621 por sugestão do próprio Manuel Cerveira Pereira ao rei Português.

É curioso ainda notar aqui que a conquista portuguesa de Angola foi inicialmente ditada pelo interesse nas minas de prata de Cambambe, e a conquista de Benguela foi também ditada pela suposta riqueza mineral das Minas de cobre do Sumbe Ambela, junto à foz do Rio Cuvo (Queve), e que foram ambos substituídos em breve pelo tráfico de escravos para o Brasil.

Com a independência de Angola em 1975, a questão da unidade territorial e política de Angola foi por alguns posta em questão com respeito a Cabinda. É certo que o domínio português sobre o território de Cabinda só se formalizou com a assinatura dos Tratados de Chinfuma em Lândana em 1883, Chicambo na margem esquerda do Rio Luema, no Massabi, em 1884, e Simulambuco em 1885, com os potentados nativos locais. É certo ainda que estes tratados foram entre os povos locais e a Corôa Portuguesa, sem qualquer referência a Angola nestes tratados, ou mesmo sem a interferência do Governo Geral de Angola, mas os Portugueses, desde o início, consideravam de facto Cabinda como uma "dependência" de Angola, apesar de uma breve referência específica como território distinto na Constituição da Repúplica Portuguesa. Hoje, na data que escrevo este capítulo, a questão da autonomia de Cabinda em relação a Angola está ainda por resolver a contento de ambas as partes (Cabinda e Angola).


3. Evidência Arqueológica da Ocupação Humana

O actual território de Angola foi ocupado desde a Idade da Pedra, conforme atesta a evidência arqueológica de pontas, machadinhas, raspadores, picos, bifaces, choppers e tranchets espalhada pelo território.

A julgar pela abundância da evidência arqueológica, a orla costeira angolana foi neste período muito favorável à ocupação humana, devido ao aumento de pluviosidade e ao abaixamento de temperatura, o que resultou em condições ideais ao habitat dos caçadores Acheulenses.

Do Período Paleolítico encontramos evidência das culturas Olduvense e Acheulense no canto leste das Lundas, no Calumbo, nas Palmeirinhas e em Luanda, no Uíge, e na orla costeira, em Benguela, Baía Farta, Limagens, Ponta do Giraúl, Namibe (Moçâmedes) e Tombwa (Porto Alexandre). Foram encontrados ainda materias no Planalto da Huíla (Leba, Lubango e Matala) e no planalto do Huambo.

A evidência da ocupação humana no Período Mesolítico está atestada por inúmeras estações de culturas Sangoense (de ±46.000 AC a ±37.000 AC), Lupembense (de ±36.000 AC a ±14.000 AC), Lupembo-Tshitolense (de ±15.000 AC a ±9.000 AC) encontradas nas Lundas, em Luanda, no Galangue e em Menongue, sendo deste período as pinturas rupestres do Tchitulo-hulo Mulume, no deserto do Namibe. Encontramos ainda evidência abundante de cultura Tshitolense que ocupou partes do território entre ±13.000 AC e ±4.500 AC.

Durante o Período Neolítico (entre ±8.000 AC e ±2.000 AC) mudanças de clima forçaram o recuo dos Mbuti (Pigmeus) mais para norte, para as terras mais baixas da extensa bacia do Zaire, e novos métodos de cultivo e da produção de ferramentas atraíram mais tarde os povos Bantos à região, forçando os Khoisan a retirar-se para as áreas mais inóspitas dos quandrantes sudeste e sudoeste do actual território de Angola.

É ainda durante o Período Neolítico que encontramos os primeiros sinais de cultivo de plantas e de animais domesticados que devem ter atingido a bacia do Zaire durante o terceiro milénio AC. Instrumentos de pedra polida, como machados e enxadas, foram encontrados na região de Mbanza Congo (São Salvador), nas margens do rio Cuanza, e na estação do Feti, no Galangue, a cerca de 100 km a sul da actual cidade do Huambo (Nova Lisboa), atestando a ocupação contínua do território por culturas pré-Bantas.


4. Os povos Pigmeus (Mbuti) e Khoisan

Os habitantes originais da África Central foram os povos caçadores e colectores de quem os povos Mbuti (Pigmeus) e Khoisan (Bosquímanos) descendem, que viveram na região desde há cerca de pelo menos 12.000 anos. No que respeita mais propriamente ao actual território de Angola, os Pigmeus ocupavam as florestas galerias na metade norte do território (províncias de Zaire, Uíge, Cuanza-Norte e Lundas) e os Khoisan ocupavam o extenso planalto interior das províncias de Benguela, Huambo, Bié, Moxico, Cuando-Cubango, Cunene, Huíla e Namibe.

Acredita-se ainda que os Pigmeus tenham chegado primeiro que os Khoisan, mas que se foram retirando para Norte à medida que a floresta equatorial ficava mais circunscrita à bacia do Rio Zaire.

Evidência arqueológica confirma a ocupação do território angolano pelos Khoisan desde há 12 mil anos. Devido ao seu modo de produção paleolítico, o padrão de povoamento Khoisan foi escasso e concentrou-se nas terras do planalto. Sem bem que se não saiba a data aproximada da expansão Khoisan em Angola, acredita-se que ele tenha tido lugar entre doze mil a dez mil anos atrás.


5. As Grandes Migrações dos Povos Bantos

As migrações bantas para o actual território de Angola estenderam-so ao longo de 1.400 anos, desde cerca do Séc. VI até ao Séc. XIX. A classificação de "Banto" é uma classificação linguística e não política ou etnica; assim, por "povos Bantos" entendemos os diferentes povos que se espalharam na África Central e Austral (em que se inclui Angola), cuja língua tinha a mesmo origem comum da cultura Nok do Nordeste dos Camarões e Sudoeste da Nigéria. O avanço dos povos de língua Banta foi um movimento secular e vagaroso, e não uma expansão brusca. Neste processo lento e secular de contacto entre os povos Bantos e os Pigmeus e mais tarde os Khoisan, os povos Bantos detentores da tecnologia de fabricação de ferro impuseram a sua economia e cultura, ao mesmo tempo que assimilaram os povos Pigmeus e Khoisan que há muito viviam nessas regiões, resultando em culturas cruzadas como as dos povos Cuissis e Cuepes, no quadrante sudoeste de Angola, ou empurrando-os para regiões mais marginais (floresta equatorial para os Pigmeus) e inóspitas (chanas (estepes) do leste de Angola para os Khoisan).

Com a excepção dos Bakongos e possivelmente dos Ambundos, que seguiram a rota meridional a oeste da floresta equatorial, a maioria dos povos Bantos que vieram habitar Angola eram originários da região dos Grandes Lagos a leste da floresta equatorial (bacia do Zaire) e entraram em Angola através da rota oriental entrando pela Baixa do Cassange (Rio Cuango), Lundas e anharas do leste (Moxico e Cuando-Cubango).

Ainda sujeito a confirmação através de estudos mais apurados, acredita-se que os primeiros povos de língua banta a chegarem ao actual território de Angola tenham sido os Bakongo nos Séculos XII ou XIII, vindos do Norte, tomando o curso entre a floresta equatorial e o Oceano Atlântico (a Rota Sul), e que se viriam a estabelecer nas margens do rio Zaire, primeiro a norte e mais tarde atravessaram o mesmo e se espalharam pelo território até á margem do Rio Dande. O povoamento Banto da região foi lento, e na forma inicial de povoações independentes sem poder político centralizado até aos finais do Século XIV, quando se formou o que mais tarde viria a ser o Antigo Reino do Congo.

Os Ambundos vindos através da margem leste do rio Cuango expandiram-se pelas bacias dos rios Lucala e Cuanza até à sua foz, estabelecendo um número de sobados independentes que se consolidaram no que viria a ser o Reino de Angola.

O povo Herero, de modo de produção pastoril, se bem que oriundo dos Grandes Lagos, chegou à região Sudoeste de Angola (a sul de Benguela) através da rota ao longo da costa atlântica, mas vindos do sul (Namíbia).

As populações de raíz linguistica Banta acabaram eventualmente por dominar a maior parte do território, estimando-se actualmente em cerca de 12 milhões de pessoas em Angola.


6. Terras de Sebaste: Reinos de Congo, Angola e Benguela

A carta de donataria de Paulo Dias de Novais de 1571 continha o esboço do território original do Reino de Angola, que incluia então a região entre a Barra do Dande (a norte de Luanda) e a Barra do Quanza, na actual região da Quissama (a sul de Luanda). De facto, a donataria de Paulo Dias de Novais previa dois tipos de territórios, a saber:

1) - A região compreendida entre os rios Dande e Cuanza que se estendia para o interior até onde a conquista chegasse, doada somente em vida e revertendo para a corôa após a morte de Paulo Dias de Novais; e,

2) - A faixa costeira de 35 léguas a sul da Barra do Cuanza e terra a dentro, como património hereditário perpétuo, indivisível e inalienável de Paulo Dias de Novais e seus descendentes.

É bom relembrar aqui que em termos de cronologia, os Portugueses concentraram a sua actividade primeiro no Antigo Reino do Congo, depois no Reino de Angola, e mais tarde (já nos princípios do Século XVII), no Reino de Benguela. Os objectivos principais dos Portugueses foram inicialmente a exploração de minas de prata (que nunca foram encontradas), o comércio com os povos locais, e o tráfico de escravos, que veio a prevalecer como actividade económica única, confirmando a região como uma das principais fornecedoras de escravos para o Novo Mundo, durante os próximos 350 anos.

O Reino de Benguela foi uma criação dos Portugueses, pois na realidade tal reino nunca existiu, e referia-se à região costeira a sul dos reinos da Quissama (na margem Sul da Barra do Cuanza)e do Libolo, passando pela baía do Quicombo, até à foz do Rio Caporolo, a sul da actual cidade de Benguela. Para o interior, o Reino de Benguela cobria as regiões do Amboím e do Seles, e para Sul até às fraldas dos planaltos do Huambo, Caconda e Quilengues, que na altura estavam sob o domínio dos Jagados Ovimbundos.

O Reino de Benguela era assim constituído por um grupo de potentados africanos independentes que os Portugueses tentaram dominar no intuito de expandir a captura e troca de escravos para além dos reinos do Congo e de Angola, que rapidamente perdiam população, e que assim não podiam garantir um oferta sustentável de escravos para os engenhos de açúcar do Brasil.

Alguns estudiosos da História de Angola defendem o argumento que a criação de uma possessão autónoma na região era necessária como alternativa a Luanda, tendo em vista o desafio holandês na região. De acordo com este ponto de vista, os Portugueses criaram a possessão autónoma de Benguela como "válvula de escape", com receio da perda de Luanda, e com ela todo o acesso ao comércio negreiro no Atlântico Sul. E no entanto curioso notar que os Portugueses consideraram durante o periodo de ocupacao Holandesa de Angola, a criacao de uma nova capital que se havia de situar na Barra do Dande, como posto negreiro alternativo a Luanda, ideia que mais tarde foi abandonada.

Durante um breve interregno de sete anos (1617-24), e graças ao esforço de Manuel Cerveira Pereira, que fundou a Cidade de São Filipe de Benguela em 1617, na Baía das Vacas, o Reino de Benguela esteve separado do Reino de Angola, como capitania-geral e governador próprios e directamente ligada a Lisboa; contudo, a sua existência foi efémera, pois em 1624 foi incorporado permanentemente e subordinada à autoridade do Governador e Capitão-General da Colónia de Angola.

Já no Século XVIII, e durante o consulado do governador pombalino Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho Benguela serviu de base para a conquista das terras
do Libolo, do Jaga Huambo, do Jaga Caconda, e das terras do Jaga Huambo, do Jaga Caconda, e das terras do Nano (Quilengues), e das Terras Altas da Huíla, sem contudo os Portugueses assegurarem nunca uma permanência duradoura nos Planaltos do Huambo e da Huíla.