3 - Introdução ao Estudo da História de Angola

Name: Helder Ponte
Location: Cranbrook, Colômbia Britânica, Canada

Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Xinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola, nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra da Canda) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) do Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1977, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. É gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas. Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.

Saturday, July 28, 2007

3.9.3 Angola, o Fim da Guerra Fria, e a Re-Africanização da África Austral


3. Angola, o Fim da Guerra Fria, e a Re-Africanização da África Austral

Amigo Leitor - Este capítulo ainda em desenvolvimento

A mais longa guerra de libertação nacional em África

O Regresso das Caravelas

Angola Lugar Quente da Guerra Fria

O Fim da Rodésia, do Sudoeste Africano e do Apartheid na África do Sul

O desmoronamento da Unuião das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o Fim da Guerra Fria

Numa época mais recente, podemos ainda relembrar o exemplo da relevância do petróleo de Angola na economia mundial do Séc. XXI.

3.9.2 O Papel de Angola na Corrida à África e no Estabelecimento de Impérios Coloniais


2. O Papel de Angola na Corrida à África e no Estabelecimento de Impérios Coloniais

Amigo Leitor - Este capítulo eastá ainda em desenvolvimento

Angola e o Colonialismo Europeu

1795 escravatura abolida na Holanda
1807 - tráfico de escravos abolido na Inglaterra
1834 - Escravatura abolida no Império Britânico
1867 - Os primeiros diamantes são descobertos na África do Sul
1869 - Completa-se a construção do Canal do Suez

2.1 A Revolução Industrial e o Imperialismo Europeu

A Revolução Industrial foi um factor decisivo no imperialismo europeu. As economias europeias precisavam não só de matérias primas e de mão-de-obra a baixo custo, como precisavam também de novos mercados para os seus produtos manufacturados. Os povos africanos ofereciam aos estados europeus a melhor oportunidade de expansão não só pela sua proximidade geográfica e massa de população, como também pelo facto de o continente africano não estar sob a hegemonia de qualquer potência.

2.2 A Abolição da Escravatura e do Tráfico de Escravos

Assim, a abolição da escravatura e do tráfico de escravos do Atlântico acontecerem tão só por razões morais mas mais por razões económicas. A Inglaterra, refeita da perda das colónias da América, passou a concentrar os seus esforços na expansão de novos mercados fornecedores de produtos tropicais essenciais ao crescimento da sua indústria, ao mesmo tempo que novos mercados consumidores eram necessários para a colocação dos seus produtos. Com efeito, consciente da concorrência que lhe podia advir dos Estados Unidos da América, nada melhor que advogar e policiar a abolição da escravatura e do tráfico, pois tal reduziria a capacidade das antigas colónias Americanas de expandir a sua economia, e deste modo desafiar a hegemonia britânica, pois o escravo era ainda a principal fonte de riqueza nas Américas. Quanto às colónias espanholas e portuguesas da América Central e do Sul, a estratégia britânica baseou-se no suporte à onda de independência política que assolou a América Latina no primeiro quartel do Século XIX e na abertura dos seus portos e economias às mercadorias produzidas em Inglaterra.

2.3 Portugal e a Colónia de Angola

Este paradigma fez-se reflectir em Portugal e nas suas colónias através da independência do Brasil em 1822 e a consequente abertura dos seus portos ao comercio internacional, e nas praças de África, na abolição do tráfico negreiro. No caso particular de Angola, pode dizer-se que a expansão do domínio português para o interior da colónia de Angola foi um dos primeiros resultados da abolição da escravatura em Portugal mercê dos esforços do Marquês de Sá da Bandeira em 1836.

Com efeito a expansão territorial do domínio português em Angola começou em 1838, com o estabelecimento do Forte do Duque de Bragança perto da quedas do mesmo nome (Calandula),perto da confluência dos rios Lucala e Quanza. Dentro dos próximos dez anos, os Portugueses estenderam o seu domínio até à margem do Rio Cuando.

Entretanto em 1840, era fundada a povoação de Moçâmedes, a sul de Benguela, e durante o mesmo período os Portugueses tentaram a conquista dos povos da costa entre Luanda e Cabinda (Ambriz, Ambrizete (Nzeto), e Santo António do Zaire (Soio), não conseguindo porém os seus objectivos devido à oposição britânica.

Como medida de estabelecer com melhor firmeza o seu domínio no reduzido território que controlavam ao longo do Rio Quanza, os Portugueses impuseram um imposto “por cabeça” que tinha de ser pago por africanos em moeda corrente ou em produtos coloniais, obrigando-os assim a participar na economia colonial, o que em breve resultou na expansão do domínio económico dos Portugueses às regiões limítrofes do interior.

2.4 As Viagens de David Livingstone e o Imperialismo Britânico

David Livingstone nas suas viagens ao interior de África que desde 1852 tinham assegurado um bom número de acordos de protecção britânica com muitos chefes locais, alguns dos quais situados no território entre Angola e Moçambique, agravou as diferenças entre Portugal e a Inglaterra que disputavam a vassalagem dos povos da região. levando e o objectivo britânico de dominar todos os territórios ao longo da faixa entre o Cabo (na África do Sul) e Cairo (no Egipto) eram desafios que os Portugueses não podiam deixar de ignorar e atender de imediato, sob pena do não reconhecimento pela comunidade internacional dos seus direitos históricos, que não eram já reconhecidos por nenhum estado europeu.

2.5 A Sociedade de Geografia de Lisboa

Em 1870 o Ministro da Marinha e do Ultramar português estabeleceu uma comissão para preparar uma expedição por terra entre Angola e Moçambique com o fim de reafirmar o domínio português sobre a longa faixa de território entre as duas colónias. Com a criação da Sociedade de Geografia de Lisboa em 1875, o esforço português em África ganhou um ímpeto muito grande, já que mobilizou um número grande de comerciantes e industriais, estudiosos, missionários e oficiais militares de carreira, e fazendo Portugal acordar para a realidade africana uma geração após a independência do Brasil.

Melhores meios financeiros e maiores recursos humanos foram postos à disposição pelo governo português para estudo, ocupação e colonização de praças em África, e um pequeno volume de emigração foi orientada para as novas colónias, em especial para Angola e Moçambique.

2.6 O Acordo Luso-Britânico de 1884 sobre a Foz do Zaire

Assim e pela mesma razão os Portugueses ocuparam o Antigo Reino do Congo em 1881 e Cabinda e Massábi em 1883, como medida de afastar ou tentar neutralizar a influência dos franceses a norte (Ponta Negra) e de Leopoldo II da Bélgica na foz do rio Zaire (Boma e Matadi), que entretanto tinham estabelecido um número de feitorias comerciais ao longo da costa.

Com o objectivo de confirmar o seu domínio sobre a região, Portugal assinou um acordo com a Inglaterra em 1884, em que a Inglaterra confirmava a pretensão portuguesa. Contudo, tanto os Franceses com Leopoldo II da Bélgica montaram uma oposição muito forte contra o acordo, não o reconhecendo de forma alguma, e até argumentando ruídos de guerra. Face à oposição internacional e ao risco da deterioração das suas relações com o resto da Europa, incluindo o risco de uma nova guerra, o Parlamento Inglês não reconheceu o acordo com Portugal.

2.7 A Conferência de Berlim

Com o objectivo de confirmar e haver reconhecidas as suas possessões em África, especialmente os seus direitos históricos sobre a foz do Rio Zaire, Portugal de iniciativa própria apelou ao Chanceler Alemão Otto von Bismark para a realização de uma conferência internacional sobre a Bacia do Congo.

O pedido de tal conferência, que tinha sido feita por Portugal já algumas vezes em anos anteriores e tinha acabado em “ouvidos de mouco”, desta vez porém capturou a atenção de Bismark, que se via preocupado com a expansão francesa e inglesa em África, e com a falta de colónias alemãs em África.

Até aquela altura, a posição oficial (embora não a de facto) do governo alemão era que a Alemanha não estava interessada em colónias; contudo, a rápida ascensão da Inglaterra como potência económica através da Revolução industrial, convenceu Bismark que esta era a melhor oportunidade para a Alemanha se lançar também na Corrida à África, com o objectivo de assegurar fontes de matérias primas para a indústria alemã e de novos mercados para a sua economia emergente, e também de despoletar uma situação internacional que se tornava gradualmente mais explosiva.

A conferência teve lugar em Berlim, entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Novembro de 1885, durando os trabalhos quase um ano. Quatorze estados fizeram-se representar - Suécia-Noruega (que estavam unidas até 1905), Dinamarca, Inglaterra, Holanda, Bélgica, França, Alemanha, o Império Austro-Húngaro, Itália, Espanha, Portugal, Turquia, Rússia, e Estados Unidos da América - dos quais a França, a Inglaterra, a Alemanha e Portugal foram os mais protagonistas.

A conferência começou por discutir o estatuto internacional advogado para o delta do Rio Níger e da foz do Rio Zaire, que passariam a ser abertas ao comércio internacional, e não sujeitas a qualquer domínio colonial. Apesar do acordo atingido no que respeita à neutralidade para a foz do Zaire, a grande bacia do Zaire, incluindo a região do Baixo Congo (imediatamente a norte e Nordeste de Angola) passou a ser colónia privada do Rei Leopoldo II da Bélgica, sob a bandeira do Estado Livre do Congo.

2.8 A Corrida à África

Até ao tempo da Conferência de Berlim, a presença europeia em África reduzia-se a um número limitado de entrepostos costeiros, que tinham servido de portos negreiros durante os 350 anos do tráfico de escravos do Atlântico, com a excepção da presença portuguesa ao longo do curso do Rio Cuanza na costa ocidental, e do Rio Zambeze na costa oriental, e da penetração Boer na colónia do Cabo, no Transval e no Estado Livre de Orange na África austral.

É certo que a descoberta de diamantes a norte do Transval em 1867 tinha atraído um grande número de colonos à região, representando no todo menos de 10% da superfície total do continente. A Conferência de Berlim foi a primeira conferência global na história, na medida em que envolveu a maioria dos estados mais desenvolvidos na época (Europa e Estados Unidos da América), se bem que não tenha incluído qualquer estado da Ásia.

A conferência adoptou ainda o princípio fundamental de ocupação efectiva do território, pela qual a soberania de um estado colonizador sobre um território colonial era somente reconhecida pela comunidade internacional, se o país colonizador demonstrasse que tivesse uma presença efectiva que pudesse proteger o comércio na colónia, tivesse uma administração colonial e uma presença militar efectiva.

O princípio da ocupação efectiva fez da África um manto de retalhos de colónias europeias e resultou na configuração territorial das colónias não corresponder às fronteiras dos estados tradicionais africanos, pela qual nações africanas ficaram divididas entre várias colónias, e uma mesma colónia incluir estados tradicionais africanos inimigo tradicionais.

2.9 Impérios e Colónias

Após a Conferência, a África ficou assim dividida: Para a Inglaterra, o eixo de colónias do Cabo ao Cairo, incluindo o Sudão, Uganda, Quénia, Rodésia e Niassalândia (Zâmbia, Malawi, e Zimbabwe), Bechuanalândia (Botsuana), e Suazilândia (Lesoto), e as colónias da Costa do Ouro (Gana) e Nigéria.

A França ficou com a maior parte da África Ocidental, da Mauritânia ao Chade, e as colónias do Gabão e do Congo Francês (Brazzaville) na África Central.

A Alemanha ficou com a colónia do Togo no Golfo da Guiné, Sudoeste Africano (Namibia), e Tanganica (Tanzânia).

O Rei Leopoldo II da Bélgica viu confirmada a sua soberania sobre of Estado Livre do Congo (Congo Kinshasa).

Portugal ficou com Angola na costa ocidental e Moçambique na costa oriental. A Itália ficou com a Somalilândia (Somália) e parte da Etiópia.

A Espanha ficou com a pequena colónia da Guiné Equatorial (Rio Muni).

Introdução - Razões históricas da Presença portuguesa em África Angola e a Conferência de Berlim.

3.9.1 Os Escravos de Congo e Angola e a Ascensão da Hegemonia Europeia


1. Os Escravos de Angola e a Ascensão da Hegemonia Europeia

Começamos por relembrar que, como resultado do Tratado de Tordesilhas firmado entre Portugal e Espanha em 1494, os dois reinos ibéricos dividiram o mundo entre si, cabendo aos Portugueses o hemisfério oriental incluindo a África com a sua riqueze em ouro e marfim, e com o seu manancial quase infinito de mão-de-obra, e a Índia com possibilidades infinitas no comércio das especiarias. Os Espanhóis, por seu lado, ficaram com o hemisfério ocidental que incluia os ricos depósitos de ouro e prata nas Américas e com o comércio do Pacífico, incluindo as Ilhas Molucas (Filipinas) no Extremo Oriente; contudo sem uma oferta abundante, rentável e segura de mão-de-obra, que podia ser fornecida somente pelos Portugueses.

Portugal foi o primeiro estado europeu a estabelecer colónias de base agrícola nas novas terras descobertas, inicialmente no Atlântico (Madeira), depois em África (São Tomé) e mais tarde na América do Sul (Brasil); contudo, com uma população relativamente escassa e tendo em atenção o sorvedouro de gente que a empresa da Índia requeria, os Portugueses depressa concluiram que a empresa da colónia agrícola de plantação era de facto muito rentável, mas que requeria outra fonte de mão-de-obra que não somente colonos portugueses, descobrindo assim o papel fundamental que o escravo africano haveria a desempenhar neste novo sistema económico mundial.

Convém aqui lembrar que em termos relativos de emigração (emigração em relação à população), emigraram mais Portugueses para a Índia, para o Brasil e para África, que todos os emigrantes Espanhois, Ingleses, e Franceses juntos para as Américas.

No que respeita à fonte (oferta) de mão-de-obra, os Portugueses usaram escravos africanos primeiro na produção de açúcar na Ilha da Madeira, e depois na Ilha de São Tomé, onde ganharam a experiência na captura, transporte e venda de escravos africanos da costa ocidental de África para regiões distantes.

O lucro do tráfico negreiro depressa convenceu os Portugueses a estabelecerem feitorias para o tráfico de escravos ao longo da costa africana. Estabeleceram assim a feitoria de Arguim na costa ocidental, e em 1481 construiram o Forte de São Jorge da Mina - um projecto de construção verdadeiramente revolucionário para a época, pois os edifícios do forte foram todos pré-fabricados em Portugal, e os componentes foram "reconstruídos" por um grande contingente de pedreiros e carpinteiros portugueses, que em ecomissão de serviço, tinham sido contratados para completar a construção do forte no local.

A Corôa portuguesa entretanto tinha aperfeiçoado o regime de venda de privilégios reais a feitores para o tráfico negreiro nas costas de África. Esta experiência mostrou-se valiosa nos primeiros "asientos" (contrato de fornecimento de escravos) que Filipe II de Espanha (I de Portugal) já no tempo da União Ibérica conferiu em 1595 a negreiros de transportarem escravos das regiões de captura em África directamente para as minas de ouro no México, estabelecendo-se assim o que mais tarde se veio a designar pelo tráfico de escravos do Atlântico, e no qual Portugal viria a desempenhar o papel mais destacado na sua primeira fase.

Com a derrota da Armada Invencível da União Ibérica no Canal da Mancha em 1588, Portugal perdeu grande parte da sua marinha de guerra e mercante e com elas o seu primeiro império colonial - a Índia. Para Portugal havia assim que reagrupar depressa e encontrar outra fonte de riqueza essencial para o sustento da sua economia, o que se veio a concretizar com a rápida expansão da cultura do açúcar (a famosa cana mélica do Levante) no Brasil. Nasceu assim o segundo império português - o Brasil - que havia de perdurar até ao Grito do Ipiranga (declaração de Independência do Brasil) em 1822.

1.1 O Escravo de Angola no Ciclo do Açúcar do Brasil no Século XVII

Como bem disse o Padre António Vieira em meados dos Séc. XVII na sua campanha de angariar suporte para a retomada pelos Portugueses das fontes de escravos na África Central (São Jorge da Mina, São Tomé, Loango, Cabinda, Malembo, Sonho, Luanda e Benguela)"Sem Negros não há Pernambuco e sem Angola não há Negros!".

A mais-valia extraída do trabalho dos escravos de Angola foi o fulcro principal que sustentou a economia açucareira do Brasil no Século XVII, a mineira no Século XVIII, e a cafeeira até aos fins do Século XIX. Durante estes três séculos o Brasil desenvolveu um papel fundamental no quadro da economia mundial, ao mesmo tempo que o trabalho do escravo Angolano era o agente principal da criação da riqueza no Brasil e da contribuição deste para a economia mundial.

Em termos estatísticos muito sumários, estima-se que durante o período do tráfico de escravos do Atlântico (entre 1519 e 1867), tenham sido levados de Angola e da Bacia do Congo mais the 5 milhões de pessoas, a uma média mensal de cerca de 1.250 (ou média diária de cerca de 40 escravos), perfazendo cerca de 44% da exportação de escravos de África. Cerca de 10.000 escravos chegava em média anualmente ao Brasil. Em termos do total para o tráfico de escravos do Atlântico, de 1519 a 1867, 11,6 milhões de homens, mulheres e crianças foram levadas do interior de África para as Américas, 3,3 milhões morreram no percurso entre a sua região de origem e o porto negreiro na costa, e 1,5 milhões morreram na Passagem do Meio (travessia do Atlântico). O número total de pessoas escravizadas e vendidas ou que morreram no tráfico do Atlântico sómente, excluindo o número de escravos exportados para o Norte de África e estados árabes e o número de escravos exportados para o Irão, Índia, e para o resto da Ásia, estima-se em mais de 15 milhões.

Ainda que em forma muito sumária, penso que é útil delinear aqui a estrutura da economia mundial dos séculos XVII e XVIII e o papel que Angola e o Brasil desempenharam na mesma.

1.2 Os Holandeses no Atlântico Sul

Vazios de homens e de capitais, de equipamento e de meios de transporte, os Portugueses tiveram que financiar a empresa do açúcar brasileiro com empréstimos concedidos por banqueiros e comerciantes Holandeses, para a compra de equipamento produzido na Holanda, ao mesmo tempo que o transporte do açúcar brasileiro para a Europa e dos escravos de África para o Brasil eram feitos também em navios holandeses.

O influxo de capitais para os Países-Baixos foi por sua vez sustentado em grande parte por Judeus (Cristãos-Novos) que tinham sido expulsos da Península Ibérica e que se haviam refugiado nos Países-Baixos. Porém, é importante relembrar que desde os primórdios da colonização das Américas os Holandeses adoptaram uma stratégia económica nacional com base no comércio ultramarino. Com a fundação das companhias de comércio ultramarino (as percursoras das actuais sociedades anónimas), os Holandeses desde a partida asseguraram o monopólio do comércio com a Ásia, a África e as Américas no Século XVII. A sua frota marítima era constituída por navios de maior tonelagem e de menor tripulação, o que rendia maiores lucros, e nos finais do Século XVII a sua frota mercante era maior que as frotas da Inglaterra, da França, da Alemanha, e de Portugal combinadas.

Pela sua oportunidade e importância, transcrevo a seguir um trecho da "Formação Económica do Brasil", páginas 10 e 11, do Professor Celso Furtado, recentemente falecido, cuja obra considero a mais importante de todos os economistas de língua portuguesa:

"A partir da metade do Século XVI a produção portuguesa de açúcar passa a ser mais e mais uma empresa em comum com os flamengos, inicialmente representados pelos interesses de Antuérpia e em seguida pelos de Amsterdã. Os flamengos recolhiam o produto em Lisboa, refinavam-no e faziam a distribuição por toda a Europa, particularmente o Báltico, a França e a Inglaterra.

A contribuição dos flamengos - particularmente dos holandeses - para a grande expansão do mercado do açúcar, na segunda metade do Século XVI, constitui um fator fundamental do êxito da colonização do Brasil. Especializados no comércio intra-europeu, grande parte do qual financiavam, os holandeses eram nessa epoca o único povo que dispunha de suficiente organização comercial para criar um mercado de grandes dimensões para um produto práticamente, como era o açúcar.

... E não sómente com a sua experiência comercial contribuíram os holandeses. Parte substancial dos capitais requeridos pela empresa açucareira viera dos Países-Baixos. Existem indícios abundantes de que os capitalistas holandeses não se limitaram a financiar a refinação e comercialização do produto. Tudo indica que os capitais flamengos participaram no financiamento das instalações produtivas no Brasil bem como no da importação da mão-de-obra escrava.

... Se se tem em conta que os holandeses controlavam o transporte (inclusive parte do transporte entre o Brasil e Portugal), a refinação e a comercialização do produto depreende-se que o negócio do açúcar era na realidade mais deles do que dos portugueses. Somente os lucros da refinação alcançavam aproximadamente a terça parte do valor do açúcar em bruto."

Animados com o êxito da Companhia das Índias Orientais na Insulíndia (Indonésia actual) e com a derrota dos Portugueses na Índia e a sua fraqueza militar e económica no Brasil e em África, os Holandeses depressa adoptaram a mesma solução para o domínio do Atlântico Sul, o que levou primeiro ao estabelecimento da Companhia Privilegiada da Índias Ocidentais em 1621 e à conquista de Salvador da Bahia em 1624 (retomada pelos Portugueses e Espanhois no ano seguinte), de Recife (na Capitania de Pernambuco) em 1630, e poucos anos depois a costa entre Sergipe e o Maranhão.

Cientes da necessidade de assegurar uma oferta abundante, segura e barata de escravos africanos, os Holandeses tomaram aos Portugueses em 1637 o Forte de São Jorge da Mina no Golfo da Guiné, e mais tarde em 1641 a Ilha de São Tomé e a colónia de Angola (Cabinda, Pinda (Soyo), Luanda e Benguela), que eram já os principais portos negreiros fornecedores de escravos na costa africana a sul do equador para a indústria do açúcar brasileira. Em 1652 os Holandeses fundaram a Colónia do Cabo (na África do Sul de hoje) como posto de reabastecimento ás suas carreiras para a Insulíndia e base militar para policiamento do Atlântico Sul.

O sucesso batavo nesta empresa foi assinalável, já que por 24 anos, os holandeses tomaram aos Portugueses as sete capitanias mais prósperas da costa brasileira, embora nunca tenham sido capazes de expulsar completamente os Portugueses do Brasil. O apogeu do domínio batavo do Brasil teve lugar durante o consulado do Príncipe João Maurício de Nassau (1637 a 1644), que em poucos anos transformou a cidade do Recife, capital de Pernambuco e sede do governo holandês, numa das cidades mais modernas e cosmopolitas do mundo de então.

1.3 El Cerro Rico de Potosi

A descoberta da América por Cristóvão Colombo em 1492 e da descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral em 1500 (em que o debate está ainda em aberto se a viagem de Pedro Álvares à costa brasileira foi acidental, se planeada, ou mesmo se Duarte Pacheco Pereira já lá tinha chegado poucos anos antes), abriram o Novo Mundo à Espanha e Portugal. Estas descobertas foram um tanto acidentais, pois os dois estados ibéricos encontraram as Américas como um corolário inesperado na procura de uma rota marítima ocidental para a Índia, e daí o termo "Índio" dado aos habitantes nativos do Novo Mundo.

Os primeiros contactos com os habitantes do Novo Mundo não levaram ao estabelecimento de qualquer comércio de monta de imediato, ao contrário da experiência dos Portugueses em África e na Índia. A única excepção de nota foi a exploração do pau brasil ao longo da costa oriental da América do Sul, mais tarde designada Brasil, termo com raíz na palavra francesa cor de braza / vermelha do pau que se passou a usar na produção de corante de tinturaria para a crescente indústria textil francesa sediada em Rouen e na Flandres.

Os Espanhois, por seu lado, procuravam em vão uma passagem por terra para o Ocidente, através do novo continente. A primeira colónia permanente no Novo Mundo foi estabelecida por Cristóvão Colombo na sua segunda viagem, na costa norte da Ilha Hispaniola, onde se fez o traçado para uma cidade, o governo municipal foi estabelecido, e terra foi dividida entre os colonos espanhois, que com a atribuição da terra, recebiam também um número de nativos para trabalhar a terra (encomienda).

A cana de açúcar foi introduzida cedo na Ilha Hispaniola (hoje República Dominicana e Haiti) em 1493, e em 1520 havia 28 engenhos activos na produção de açúcar. Em 1513 foi encontrado ouro na costa sul da Hispaniola, o que despertou o interesse da corôa espanhola.

Ainda em 1513 Juan Ponce de Leon reconheceu a costa da Florida e Vasco Nunez de Balboa atravessou o istmo do Panamá e avistou o Oceano Pacifico. Em 1516 Juan Díaz Solis explorou a foz do Rio da Prata. Em 1518 a costa da Península do Yucatan foi reconhecida por Francisco Hernandez de Córdoba e Juan de Grijalva.

Após Fernão de Magalhães ter provado em 1521 através da sua viagem de circum-navegação que as Molucas (parte do arquipélago das Ilhas Filipinas) se podia atingir pelo ocidente, a estratégia colonial espanhola mudou. Constatada que foi a duração e custo de tal viagem, a corôa espanhola concentrou os seus esforços na procura de metais preciosos no Novo Mundo, e relegou para segundo lugar a preocupação de competir com os Portugueses no comércio das especiarias da Insulíndia. Como sabemos Fernão de Magalhães não chegou a cumprir a viagem pois foi morto numa escaramuça com os nativos das Ilhas Cebú, o que não lhe tira o crédito de ter planeado e comandado a expedição mais difícil até hoje realizada na exploração do planeta.

Em 1521 Hernán Cortés conquistou o México e surpreendeu o mundo com a quantidade de ouro e prata obtida dos povos conquistados, com valor muito superior a qualquer comércio de especiarias com a Índia. A conquista do México mudou a estratégia dos Espanhois no Novo Mundo. Não importava jamais procurar e desenvolver o comércio, já que a riqueza em ouro e prata tudo suplantava. Assim, assistimos à acção dos Conquistadores em procura do El Dorado, que com colunas militares relativamente pequenas conquistaram impérios imensos no Novo Mundo.

A conquista da América Central foi completada em 1525, e por cerca de 1543, os Espanhois dominavam mais de metada do território da América do Norte, entre as Carolinas na costa atlântica e o Oregon na costa do Pacífico. Em 1531 Francisco Pizarro completou a conquista do Império Inca e surpreendeu ainda mais o mundo com a riqueza em ouro e prata do despojo da conquista de Cuzco e Machu Pichu, em valor muito mais elevado que o arrecadado por Hernán Cortés no México.

Devido à sua riqueza o Perú passou desde a sua conquista a ser o centro principal da expansão Espanhola nas Américas. Por outro lado, nas Caraíbas, a cidade de Havana, fundada em 1519 desde cedo se tornou o centro da expansão Espanhola nas Caraíbas, e Buenos Aires, fundada em 1536, tornou-se o centro da expansão do interior da América do Sul, a partir da foz do Rio da Prata. Em 1545 os Espanhois descobriram a mina de prata de Potosi, numa região remota e montanhosa do Perú (na região que mais tarde se havia de chamar Bolívia), talvez a mina mais rica do mundo. Outras descobertas de minas muito ricas se fizeram em seguida, tornando-se a América Espanhola o maior produtor de ouro e prata do mundo de então.

A riqueza em ouro e prata do Perú e do México foi decerto o elemento chave do arranque económico do império Espanhol no Novo Mundo; contudo, a agricultura e pecuária foram as actividades que possibilitarm a dominação efectiva dos Espanhois sobre um território tão vasto. A mão-de-obra nativa, utilizada inicialmente na forma de "encomiendas" provou não ser solução suficiente para a crescente procura de mão-de-obra para trabalhar as minas. Tornou-se então necessário recorrer ao trabalho escravo de africanos, que em número sempre crescente, depressa substituíu a mão-de-obra nativa (Índia).

Assim, no Novo Mundo os escravos africanos depressa não eram só essenciais à produção de açúcar do Brasil; eles tornaram-se também imprescindíveis às minas de ouro do e prata do México, e às minas de prata do Perú e da Bolívia (a serra de prata de Potosi). Em termos muito sumários as minas da América Espanhola absorveram durante o período do tráfico de escravos do Atlântico mais de 2,6 milhões de africanos (à razão de cerca de 7.500 por ano), o que levou a União Ibérica (Espanha e Portugal) a concentrar os seus esforços na reconquista imediata da Bahia, Pernambuco e Maranhão aos Holandeses.

Assim, em 1625, coadjuvados pelos Espanhois, os Portugueses conseguiram reunir a mais poderosa esquadra naval jamais vista no Atlântico Sul (52 navios e 12.000 homens) e reconquistaram Salvador da Bahia (que era a sede do poder Português no Brasil), e com a ajuda dos Portugueses do Rio de Janeiro, reconquistaram Luanda, Benguela e São Tomé em 1648.

Contudo, os Holandeses mantiveram o controle sobre os dois portos negreiros estratégicos do Forte de São Jorge da Mina e de Loango, que dominavam o comércio negreiro no Golfo da Guiné. Este esforço veio a materializar-se com a expulsão definitiva dos Holandeses de Angola e São Tomé em 1648 e do Brasil (Recife, Pernambuco) em 1654, e a consequente restauração do domínio português (mais própriamente, o domínio brasileiro) do Atlântico Sul.

1.4 Salvador Correia de Sá e a Restauração do Domínio Português no Atlântico Sul

XXXXX - Ainda em desenvolvimento

1.5 A Ascensão da Economia de Plantação nas Antilhas

Depois da sua expulsão do Brasil, mas ainda cientes do seu controle sobre a economia açucareira, os Holandeses deixaram o Brasil mas não sem levarem consigo a tecnologia, o capital, o equipamento, e as fontes de escravos africanos, e mudaram-se para as Antilhas, onde depressa estabeleceram plantações que em poucos anos suplantaram o volume de produção do açúcar brasileiro, o que veio a resultar numa baixa mundial de preços do açúcar muito longa que se traduziu numa crise económica muito longa e profunda da economia açúcareira brasileira da qual jamais se haveria de recuperar.

De facto, com fontes de capital e mão-de-obra asseguradas, com maquinaria e equipamento novo e mais moderno, e com custos de transporte mais baixos do açúcar para a Europa e as Colónias Americanas devido à maior proximidade entre as regiões produtoras (Antilhas) e as de consumo (Europa), os Holandeses depressa retomaram o comando da produção e comércio mundial de açúcar, e com isto despertaram o interesse da Inglaterra e da França para fazerem o mesmo, deixando os Portugueses no Brasil na difícil posição de terem de competir num mercado em que os preços estavam numa baixa de longa duração, enquanto os seus custos de produção continuavam a cresecer, e a distância de mercados obrigava a custos de transporte mais elevados.

Seguindo o exemplo dos Holandeses, em breve os Ingleses e Franceses tomaram aos Espanhois as ilhas mais importantes nas Antilhas, com a excepção das ilhas de Cuba e Porto Rico, estabelecendo promissoras colónias de plantação de açúcar no Haiti (França), na Jamaica e em Barbados (Inglaterra). Com um excedente de população relativamente grande, a Inglaterra depressa copiou e expandiu o modelo de plantação de açúcar levado pelos Holandeses para as Antilhas, que passou a incluir também plantações de tabaco e anil nas ilhas, e de algodão nas Colónias Americanas mais meridionais (Virginia, as Carolinas e a Geórgia) no continente americano.

Antes de recorrerem ao tráfico de escravos africanos através do Atlântico, os Ingleses usaram primeiro o excedente da sua própria população nas suas Ilhas Britânicas com fonte principal de mão-de-obra para as suas novas colónias nas Antilhas e na América. Como resultado das profundas transformações económicas na agricultura inglesa (o regime de propriedade cercada (enclosures) para a criação de grandes rebanhos de carneiros para a produção industrial de lã nas cidades), grande número de trabalhadores da terra viram-se sem possibilidades de sobrevivência nos campos, não tendo outro recurso senão tentarem melhor sorte nas cidades, para onde emigravam em grande número, e oferecerem a sua força de trabalho no Novo Mundo através de contratos de regime de servidão temporária de cinco a sete anos (indenture), a troco do pagamento da passagem, comida e dormida durante o termo do contrato, e no final deste, um pedaço de terra no Novo Mundo, ou um pequeno montante em dinheiro, que podiam investir eles próprios em pequenas fazendas ou comércio.

É importante salientar aqui que as condições de trabalho para os trabalhadores ingleses em regime de servidão temporária nas Antilhas e nas Colónias Americanas não eram melhores que as do escravo africano, na medida em que o trabalhador em regime de servidão temporária era mais barato que o escravo de África, e a sua oferta em número era muito maior que a procura. A estes factores devemos adicionar o facto que os donos das plantações de açúcar viam os trabalhadores em regime de servidão temporária como possível concorrência à sua posição de poder no quadro económico local e regional, de forma que nunca fizeram o tempo do contrato um período aprazível ou atraente ao trabalhador emigrante.

Porém, devido à concorrência militar entre a Inglaterra e a França no Novo Mundo, e ao estado mais ou menos constante de guerra entre elas, este excesso de população passou a ser usado também na guarnição de fortes espalhados pelo mundo e no número crescente de navios de guerra necessários para manter a sua hegemonia, em vez de continuar a ser canalizada para a economia de plantação nas Antilhas. Esta redução crescente da oferta de mão-de-obra para as plantações nas Antilhas e na América levou a Inglaterra e a França a embarcar também no negócio do tráfico de escravos africanos em grande escala, e que em breve haviam de desafiar a supremacia histórica portuguesa no tráfico negreiro.

1.6 O Desenvolvimento das Colónias Inglesas na América

Com o rápido desenvolvimento económico e populacional das Antilhas, os Ingleses encontraram nas colónias da Nova Inglaterra (New England - Maine, New Hampshire, Massachussets, Rhode Island, New York, Pennsylvania, Delaware e Maryland), a região ideal para a produção de artigos de consumo e de capital (cereais, batata, madeira, vestuário, ferramentas, equipamento, e navios) para venda nas Antilhas, a um preço mais baixo que os produtos produzidos na Europa, já que os custos de mão-de-obra eram mais baixos na América e o custo do frete marítimo era muito menor, devido a maior proximidade da América em relação às Antilhas, do que a distância longa e perigosa entre as Antilhas e a Europa.

Da interacção de todos estes factores resultou o rápido desenvolvimento económico e populacional das Colónias Americanas, que cedo se estabeleceram com o mercado fornecedor da maioria dos bens necessários (bens de consumo e de capitais) às economias de plantação nas Antilhas e as colónias emergentes no centro e sul do continente norte-americano. Do mesmo modo, as colónias do Sul (Virgínia, Carolinas e Geórgia) cedo se especializaram na produção de tabaco, arroz, e, principalmente, algodão, que em breves anos se tornaram a principal região produtora de algodão e abastecedora das economias emergentes no Novo Mundo, em África, e principalmente na Europa.

1.7 O Ciclo do Ouro no Brasil

A descoberta de ouro no Rio das Velhas (Ouro Preto) e em Vila Rica nos últimos anos do Século XVII e de diamantes em 1723 em Cerro do Frio, na Capitania de Minas Gerais, no Brasil, anos mais tarde salvou a independência política de Portugal por mais de um século, ao mesmo tempo que, irónicamente, relegou a economia lusitana para um estado de subdesenvolvimento crónico que havia de perdurar quase três séculos.

Isto porque os rendimentos do "quinto" arrecadado do ouro do Brasil pela corôa portuguesa foram suficientemente abundantes para Portugal poder continuar como estado independente, ao mesmo tempo que enfeudaram a economia portuguesa ao domínio da inglesa, através dos tratados de 1654 e de Methuen em 1703, pelos quais o suporte militar inglês era garantido a custo da ausência completa de qualquer indústria agrícola ou transformadora de relevo em Portugal e sujeição absoluta à indústria inglesa.

Assim, o ouro do Brasil não parava sequer em Lisboa; era imediatamente re-exportado como pagamento para as importações inglesas, ao passo que o papel de Portugal na economia europeia era reduzido à produção de vinho do Porto para exportação, cuja indústria e comércio eram por sua vez controlados por mercadores ingleses.

1.8 O Escravo Angolano na Economia Mineira do Brasil

YYYY - Ainda em desenvolvimento

"O Brasil era o paraíso para o Mulato, Purgatório para o Branco, e Inferno para o Negro"

Eduardo Bueno "Terá sido o pior lugar do mundo, o ventre da besta e o bojo da fera, embora para aqueles que eram responsáveis por ele, não estavam lá, fosse o mais lucrativo dos depósitos e o mais vendável dos estoques. No porão dos navios negreiros que por mais de trezentos anos cruzaram o Atlântico, desed a costa oeste de África até à costa nordeste do Brasil, mais de três milhões de africanos fizeram uma viagem sem volta, cujos horrores geraram fortunas fabulosas, ergueram impérios familiares e construíram uma nação. O bojo dos navios da danação e da morte eram o ventre da besta mercantilista: uma máquina de moer carne humana, funcionando incessantemente para alimentar as plantações e os engenhos, as minas e as mesas,a casa e a cama dos senhores - e, mais do que tudo, os cofres dos traficantes de homens.

... um único exemplo. Em 1841, a belonave inglesa Fawn, capturou na costa brasileira, o navio Dois de Fevereiro. Desde 7 de Dezembro de 1831, o tráfico era ilegal no Brasil e navios de guerra britânicos patrulhavam o litoral. Após a apreensão do tumbeiro, o capitão do Fawn anotou, no diário de bordo a cena com o qual se deparou nos porões da embarcação: "Os vivos, os moribundos e os mortos amontoados numa única massa. Alguns desafortunados no mais lamentável estado de varíola, doentes com oftalmia, alguns completamente cegos; outros esqueletos vivos, arrastando-se com dificuldade, incapazes de suportarem o peso dos seus corpos miseráveis. Mães com crianças pequenas penduradas em seus peitos, incapazes de darem a ela uma gota de alimento. Como os tinham trazido até aquele ponto era surpreendente: todos estavam completamente nús. Seus membros tinham escoriações por terem estado deitados sobre o assoalho durante tanto tempo. No compartimento inferior o mau-cheiro era insuportável. Parecia inacreditável que seres humanos sobrevivessem naquela atmosfera".

1.9 Portugal, a Inglaterra e o Tratado de Methuen

Por outro lado, o que restava da riqueza do ouro foi aplicada em Portugal em investimentos supéfluos e retrógrados como o Convento de Mafra, em vez de serem canalizados para investimentos na agricultura, na indústria ou na renovação da frota marítima, que haveriam de valorizar a economia. Para a Inglaterra, os lucros imensos das exportações para Portugal foram um factor chave para a rápida industrialização inglesa, pois permitiram uma acumulação de capital muito rápida e extensa, o que constituiu o impulso inicial para a Revolução Industrial Inglesa já nos princípios do Século XIX.

O Marquês de Pombal caracterizou bem esta relação económica quando disse "que a Inglaterra havia reduzido Portugal a uma situação de dependência, conquistando o reino sem os incovenientes de uma conquista militar, em que Portugal tinha de importar tudo", relembrando até que "os escravos que trabalhavam nas minas do Brasil tinham que ser vestidos pelos Ingleses"(citado por Celso Furtado).

Por outro lado e ainda citado por Celso Furtado, o historiador inglês W. Cunningham na sua obra "The Growth of Modern Industry and Commerce, Modern Times", Cambridge, 1921, caracterizou melhor os benefícios deste acordo económico para a Inglaterra quando disse: "To extent to which Portugal took off our manufacturers, and thus encouraged industry in this country, appeared to be measured by the vast amount of Brazilian bullion which was annually imported from Portugal. This was estimated at 50,000 Pounds per week... We cannot wonder that, according to the ideas of the time, Methuen's achievement was rated very high: he had opened up a large foreign demand for our goods, and had stimulated the employment of labour at home; while much of the returns from Portugal came to us in the form which was most necessary for restoring the currency, and most convenient for carrying on the great European War", e Alan Manchester na sua obra "British Preeminence in Brazil, Its Rise and Decline", publicada em 1933, afirmou que o comércio português era "at the present time the most advantageous that we drove anywhere, the very best branch of all our European commerce".

Como resultado do afluxo ao mercado de quantidades imensas de ouro do Brasil à Inglaterra (via Portugal), Londres substituiu Amsterdão como o maior centro financeiro do mundo, lugar cimeiro que havia de ocupar por mais de duzentos anos.


Referência Bibliográfica

Se quiseres aprofundar o estudo desta época tão importante para a hegemonia europeia da economia mundial, sugiro a consulta dos textos do Professor Celso Furtado "Teoria e Política do Desenvolvimento Económico", edição portuguesa das Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1971, o clássico "Formação Económica do Brasil" 17a. edição da Editora Nacional, São Paulo, 1980, e "A Economia Colonial no Brasil dos Séculos XVI e XVII", publicado pela Editora Hucitec, São Paulo, 2000;

Recomendo ainda a consulta da obra extensa do Professor Charles Ralph Boxer, também recentemente falecido, da qual realço o clássico "The Portuguese Seaborn Empire 1415 - 1825" originalmente publicado em 1969, e recentemente publicado pela editora Carcanet em cooperação com a Fundação Calouste Gulbenkian e a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Esta obra é talvez a melhor análise da expansão portuguesa no mundo, e está traduzida em Português, tendo sido publicada no Brasil e em Portugal;

a obra "Salvador de Sá and the Struggle for Brazil and Angola 1602 - 1686", publicada pela University of London e a Athlon Press, London, 1952; e a obra "The Golden Age of Brazil - Growing Pains of a Colonial Society 1695 - 1750", publicada pela St. Martin's Press, New York, 1995.

Sugiro ainda a consulta de dois estudos muito bons de história económica: a obra clássica de J. Lúcio de Azevedo "Épocas de Portugal Económico", 3a. edição da Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1973; a obra fundamental do Professor Vitorino Magalhães Godinho "Os Descobrimentos Portugueses e a Economia Mundial", 2a edição publicada pela Editorial Presença, em Lisboa, 1983;

E, finalmente, a obra de Caio Prado Júnior "Histórica Económica do Brasil", publicado pela Editora Brasiliense, 46a. reimpressão, São Paulo, 2004.

Recomendo sobretudo a leitura da obra magnífica de divulgação histórica de Eduardo Bueno "Brasil: uma história - a Incrível Saga de um País", 6a. impressão da Editora Ática, São Paulo, 2005, pois além do seu excelente conteúdo, nos presenteia com uma colecção impressionante the gravuras e imagens da história do país irmão.

Saturday, June 02, 2007

3.10 Linguagem, Estilo, Ortografia e Toponímia




Longe que estou do convívio quotidiano falado e escrito da língua portuguesa, foi por vezes difícil encontrar soluções para um grande número de questões de linguagem, estilo, ortografia e toponímia. O que a seguir descrevo são apenas as soluções um tanto arbitrárias e nem sempre consistentes que optei para algumas questões de língua e de escrita. Espero assim que a sua explicação aqui ajude o leitor a deliciar mais e compreender melhor este tópico tão extenso e complexo.


1. Obra Solitária

O relatar desta Viagem Pela História de Angola foi uma tarefa solitária. Há mais de trinta anos removido que estive da língua portuguesa, das novas regras de ortografia, dos novos nomes para lugares, da linguagem corrente em Angola e Portugal, ao que se acrescentou a dificuldade de escolher qual o estilo mais próprio para melhor trasmitir ideias ou processos diferentes, não foi sem desafios que a obra prosseguiu.

Não tive o benefício de ter um editor para rever o que escrevia, nem sequer para discutir ideias antes de as incluir no texto. Embora ajudado um pouco pelo processador de texto (WordPerfect e Microsoft Word), às vezes perdi o acesso ao teclado em português, tive que recorrer a soluções que tornaram mais difícil o manuseamento de texto.

A fim de ultrapassar a maioria destes desafios, optei por uma estratégia de revisão contínua de texto, sempre que encontrava um êrro ou recebia a dica de alguém a apontar uma correcção. Assim, este é um trabalho que está em construção perpétua, que depende necessariamente dos comentários e sugestões dos leitores pacientes que embarcam comigo nesta Viagem.

As restrições na escolha e colocação de imagens nos blogs limitaram em certa medida o recurso à imagem visual, que teve que ser substituída pelo texto descritivo ou conceptual. Contudo, esforcei-me sempre por encontrar um balanco entre o texto e a imagem, de forma a tornar a leitura mais simples e "arejada" (menos densa).


2. Língua Portuguesa

Talvez mais do que o francês e o espanhol, mas certamente menos que o inglês, o português é hoje uma língua internacional, "personalizado" fortemente em cada país em que é falado. Assim, o português falado em Angola é muito diferente do português falado no Brasil, em Moçambique , ou mesmo em Portugal. Em cada um desses países, fala-se um português diferente, não só recorrendo extensivamente termos locais, mas até na construção de frases ou do discurso.

Esta variedade de sotaques reflectiu-se necessariamente no texto que é apresentado ao leitor. Contudo, achei por em basear o texto num portguês mais estabelecido, pelo que escolhi o português falado em Portugal, que é mais antigo, mais estruturado, e mais universal, em detrimento do português falado em Angola, que é mais local e que está atravessando correntemente transformações profundas, e que do qual tinha muito menos fontes de referência.

Assim, a língua que usei neste trabalho é a portuguesa (de Portugal, e não de Angola ou do Brasil), se bem que usei alguns termos caracteristicamente angolanos nalgumas passagens. Evitei assim o uso do "k", do "w", e do "y", letras que não fazem parte do alfabeto português, embora de uso muito corrente no português falado e escrito actualmente em Angola. Em certas passagens transcrevi trechos de texto original num português mais arcaico que já não se encontra em uso.


3. Toponímia

No que respeita à toponímia, usei tanto quanto possível os nomes de vilas, cidades e regiões de uso corrente em Angola, com os nomes correspondentes da idade colonial normalmente em parentesis, ou vice-versa. Contudo, em muitas situações, como é o caso do nome dos rios, usei os nomes escritos ainda à maneira do tempo colonial, com "C", em vez de "K", como Cuanza (em vez de Kuanza), e a segunda letra com "u" em vez de "w", como em Cuanza em vez de Kwanza.

A divisão administrativa de Angola alterou-se pouco depois da Independência, o que facilitou muito a referência a distritos e regiões que mantiveram o mesmo nome. Contudo, numa perspectiva mais local, embora tenha acesso à divisão dos concelhos em "postos" (mais ou menos equivalentes a "freguesias" em Portugal), foi para mim muito difícil encontrar os nomes actuais para povoados, sanzalas, e "postos", pois alguns já não existem, e outros mudaram de nome que não consegui encontrar.

Por falta de tradução própria de certos nomes internacionais para português, usei a terminologia internacional corrente. Em alguns casos porém, continueir fiel à terminologia portuguesa; usando o termo "Congo" em vez de "Kongo" e de "Cuíto" em vez de Kuíto.

Ainda como limitações muito importantes na preparação desta Viagem Pela História de Angola, não tive acesso a nenhum atlas corrente de Angola, bem como não tive disponível um prontuário ortográfico português para consulta, nem tive o benefício de usar um editor profissional, pelo que o leitor encontrará decerto algumas faltas que me perdoará.


4. Estilo

Devido à natureza breve e ligeira deste trabalho, usei um estilo descritivo e não analítico, se bem que sucinto. Na maioria das situações o leitor encontrará os factos, e por vezes não encontrará as razões, se bem que me preocupei em as avançar sempre que possível.

Contudo, devido à sua própria natureza, especialmente no estudo de "Angola" nos diversos aspectos multidisciplinares, e no estudo de "história" como ciência e conhecimento, usei um enfoque analítico, muito mais útil à compreensão mais fácil das ideias e conceitos que me proponho a avançar.


5. Cronologia

Em termos da sequência dos tópicos abordados, segui de uma maneira geral um encadeamento cronológico dos tópicos na apresentação do trabalho; embora, para melhor exposição de ideias e relações, tenha também tratado a maioria dos tópicos em grupos, sem maior obediência ao rigor cronológico. Esta aglomeração de tópicos em "grupo" (clusters em inglês) facilita grandemente a explicação e a compreensão dos tópicos expostos.

Assim, na cobertura de certos tópicos, "saltamos" às vezes no tempo, não cobrindo o continuum do tempo por completo. A cobertura da História de Angola não se reduz só à descrição de acontecimentos isolados ao longo dos tempos; com efeito, ela acontece no espaço (geografia), no tempo (cronologia), e no processo de pensamento (teoria) usado na sua explicação.

Monday, May 29, 2006

3.9 Angola na História do Mundo



Mencionei já nesta Viagem que o estudo da História de Angola não ocorre num vácuo, ou numa proveta de laboratório, nem se limita ao que aconteceu em Angola sómente. O seu estudo tem que ter em atenção o que se passou ou passava nos estados ou povos mais chegados a Angola ao longo dos tempos. Precisamos assim de relacionar Angola com o resto do mundo, e investigar as influências que recebeu do exterior e a influência que exerceu nos povos da África Central, no Atlântico Sul, nas Américas, na Europa, e mesmo no mundo; em poucas palavras, é necessário enquadrar a História de Angola na História Universal.

Assim é importante relacionar a História de Angola com a história dos povos Bantos que cedo se estabeleceram no que hoje chamamos território de Angola; com a história de Portugal como potência colonial de cinco séculos; com a história do Brasil, nação irmã e cliente mais importante na parceria do tráfico de escravos - onde hoje há mais descendentes de africanos do que africanos em Angola; e com a própria história geral de África - seja de povos próximo como os do Congo ou de São Tomé, ou de sociedades ou culturas mais distantes no espaço e no tempo, como o a civilização Suahili na costa oriental de África ou mesmo da República da África do Sul nos tempos mais recentes.

É ainda necessário relacionar a História de Angola com a história atlântica e de todos os seus povos ribeirinhos, como a América Latina (antigas colónias de Espanha e Portugal), as Antilhas, a Holanda, a Inglaterra, a França, e até os Estados Unidos da América; de realçar o papel do tráfico de escravos angolanos na economia mundial do século XVI ao século XIX.

É bom lembrar que desde a sua imersão na economia e história mundiais nos finais do Século XV, os povos de Angola, embora hoje um pouco arredados dos centros de decisão mundial, estiveram no cerne de três grandes desenvolvimentos da história da humanidade nos últimos quinhentos anos. A saber,

a) Os escravos levados de Angola e da bacia do Congo aguentaram durante mais de 350 anos a carga mais difícil na construção do Novo Mundo (Brasil, Antilhas e Estados Unidos) e alimentaram a riqueza económica e preponderância política da Europa durante o mesmo período;

b) As disputas territoriais em Angola entre Portugal (Lunda, Foz do Zaire, costa da região do Ambriz, e bacia dos rios Lungué Bungo e Zambeze no Moxico) e Leopoldo II da Bélgica (Lunda e Katanga, Estado Livre do Congo) foram o pomo de discórdia que levou à realização da Conferência de Berlim onde a consequente partilha de África teve lugar e onde nasceram os impérios coloniais europeus que haviam de perdurar cerca de um século; e,

c) Foi nas chanas das Terras do Fim-do-Mundo em Angola (Cuito Cuanavale) que se travaram as batalhas finais mais decisivas da Guerra Fria , o que eventualmente resultou no desmoronar dos bastiões brancos em África (Rodésia, Sudoeste Africano e o regime de apartheid na República da África do Sul), e na queda final da experência marxista-leninista de 70 anos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) na Europa Oriental e Ásia Central.

Assim, vamos rever em mais detalhe nos próximos três capítulos cada um destes três i,portantes desenvolvimentos históricos de forma a podermos compreender melhor o papel de Angola na história da humanidade.



Nota ao Leitor:

Encontrarás nesta Viagem algumas vinhetas cujos temas não aparentam uma ligação directa ou imediata com a História de Angola; contudo elas são importantes para uma melhor compreensão do que pretendo expôr. Estas vinhetas expõem o contexto regional, global e temporal em que a História de Angola se desenrolou, ajudando assim a enriquecer a nossa compreensão dos factores externos mais relevantes que a moldaram.

3.8 Tanta História Ainda por Contar...



1. Muito Ainda Está por Estudar e Escrever

Apesar do grande esforço de um bom número de investigadores de história, o conhecimento da História de Angola é ainda hoje muito incompleto. Com efeito, podemos dizer que a história completa de Angola está ainda por escrever, pois existem muitas lacunas muito extensas no seu corpo de conhecimento. Há períodos completos ou grupos étnicos inteiros sobre os quais pouco ou nada se sabe da sua história. Como exemplos citamos apenas a história de alguns povos bantos que vieram ocupar Angola, e ainda menos o que se sabe sobre a história pré-Banta de Angola.

No caso específico desta Viagem Pela História de Angola, menciono o exemplo das migrações dos povos Bantos e o seu impacto nas populações que até aí ocupavam o território de Angola, que desconhecemos quase completamente. De facto, com a excepção do corpo magro de conhecimento arqueológico muito escasso de estudos sobre o Antigo Reino do Congo e de alguns povos do planalto e da savana, e da pesquisa sobre o tráfico de escravos e sobre as Campanhas Militares de Ocupação, pouco mais se sabe, pois não existe ainda um corpo de conhecimento histórico organizado estabelecido para os outros povos de Angola.

Para o Português dos Séculos XVI ou XVII interessado na história dos Antigo Reino do Congo e do Reino de Ndongo (Angola), o estudo da história (ou melhor, da pré-história) destes povos e os seus percursores na região representava um desafio considerável, já que o modelo de criação com base na Bíblia Judeo-Cristã que explicava a história dos povos da Europa e do Próximo-Oriente do seu tempo, o não podia acomodar e muito menos explicar, e a ausência de fontes escritas revelavam-se como uma parede intransponível para o estudo efectivo da sua história. Desde cedo ele reconheceu a utilidade e limitações da história oral, e a dificuldade (quase impossibilidade) em estudar os povos que habitaram a região antes da chegada dos povos de língua Banta.

Em termos de cobertura historiográfica para todos os povos de Angola, os Antigos Reinos do Congo e de Ndongo são decerto os que receberam mais atenção dos historiadores. De facto, as fontes de história para estes reinos desde o início do contacto com os Portugueses até ao final do Século XVII são relativamente abundantes, comparando com outras regiões e povos de África a sul do Sahara. Após a abolição da escravatura e do tráfico houve um ressurgimento de estudos e fontes para as regiões de Luanda, Ambaca, Congo, Cabinda, Benguela, Lundas e Moçâmedes, e após a Conferência de Berlim as fontes são melhores na cobertura das Campanhas Militares de Ocupação, embora essas fontes realcem a perspetiva portuguesa e não cubram a angolana.

Contudo, quase não existem fontes primárias para a história dos povos Ovimbundo, Nganguela, Nhaneca-Humbe, Ambó, Herero, Xindonga e os povos pré-Bantos (Khoisan, Cuepes e Cuíssis) desde a sua chegada ao que é hoje o território de Angola até a um passado muito recente (meados do Século XX).

Na verdade, para a maioria dos povos de Angola, não sabemos exactamente quem eram, como e quando chegaram, como se formaram, e quanto mudaram desde o tempo do seu relacionamento inicial com outros povos que já lá viviam.

Para colmatar algumas destas lacunas é importante que estudemos a extensa documentação existente nos arquivos históricos em Angola, em Portugal e no Brasil.


2. Trabalhos de Estudiosos Estrangeiros

É também necessário traduzir e divulgar em língua portuguesa algumas obras de importância extraordinária para o estudo da História de Angola publicadas no estrangeiro, como os trabalhos de E. G. Ravenstein, Heli Chatelain, Monsenhor Cuvelier e Louis Jadin, Edgar Prestage, C.R. Boxer, J.D.Fage, R.A. Oliver, Jan Vansina, Desmond Clark, Georges Balandier, James Duffy, Merlin Ennis, Basil Davidson, David Birmingham, Gerald Bender, John Thornton, Phyllis Martin, Joseph Miller, Lawrence Henderson, Gladwin Childs, Philip Curtin, Eugene Genovese, Herbert Klein, Patrick Manning, Paul Lovejoy, Gervase Clarence-Smith, René Pelissier, David Eltis, Franz-Wilheim Heimer, Beatrix Heintz, Linda Heywood, Robert Blackburn, A.J. Russell Wood, Marc Ferro, Susan Broadhead, Anne Hilton, John Reader, Marq de Villiers, e José Curto, e outros estudiosos tornando-as assim mais disponíveis ao estudioso lusófono da História de Angola.


3. Trabalhos de Historiadores Brasileiros

É ainda essencial a divulgação das obras de estudiosos brasileiros como Gilberto Freire, Celso Furtado, Caio Prado Júnior, Josué de Castro, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque da Holanda, Luís Pereira, Henrique Fernando Cardoso, Maria Beatriz Nizza da Silva, Kátia de Queiroz Mattoso, Décio Freitas, Jaime Rodrigues, Luis Felipe Alencastro, e Eduardo Bueno, que apesar de incidirem sobre o estudo da história do Brasil, abriram novos caminhos para uma compreensão mais completa da História de Angola.


4. História da África Central

Angola está inserida a África Central, pelo que se torna importante ao estudioso da sua História saber relacionar acontecimentos e tendências em Angola com os ocorridos na África Central e vice-versa, relacionar acontecimentos e desenvolvimentos na África Central e como estes influenciaram a História de Angola.

Assim, penso que é útil referir a obra de alguns estudiosos que se salientam neste campo especial da História. Em primeiro lugar cabe-me citar o nome de Jan Vansina que desde a década de cinquenta do século passado produziu talvez a obra mais abundante e fecunda sobre a África Central. Eu penso que a leitura da sua obra é imprescindível não só ao estudo da África Central, como também ao estudo da História de Angola. Torna-se assim obrigatória a leitura da sua obra "Kingdoms of the Savanna" para quem quiser aprofundar conhecimentos sobre a pré-história dos antigos estados do Congo, Luba, Lunda, Cazembe, e Lozi. Se quisermos aprofundar o conhecimento sobre a história do Antigo Imério Kuba, a leste do Rio Cuango e vizinho de Angola, sugiro a leitura da sua obra "The Children of the Woot". A sua obra "Paths in the Rainforest" é por muitos considerada o melhor estudo de pré-história dos povos antigos que habitavam o território hoje designado com África Equatorial, que compreende os territórios do sul dos Camarões, Gabão, Guiné Equatorial, Congo (Brazzaville), Burkina Fasso (República Centro Africana), Zaire, e até Cabinda. De capital importância para o estudo da pré-história do Antigo Reino do Congo e dos povos ao longo do Quanza é a obra (já clássica) de Vansina "How Societies Are Born - Governance in West Central Africa Before 1600", em que Vansina combina evidência arqueológica com linguística histórica para explicar a evolução de pequenos núcleos de população espalhados pelo território, em sociedades que partilhando a mesma raíz linguística, deram origem aos estados organizados que os Portugueses lá encontraram no Séc. XVI. Assim, em termos do estudo da História de Angola, a sua obra "How Societies Are Born" é essencial, pois nesta obra Jan Vansina oferece o melhor estudo sobre a pré-história dos povos que viveram na região a que hoje chamamos Angola.

A obra de Jan Vansina não é só importante no estudos dos povos da África Central, pois a sua obra é também por muitos considerada como a que abriu caminho ao estudo da etno-história, às relações entre a linguística e a história, e à aceitação da história oral como um instrumento efectivo e válido no método do estudo da história.

Duas obras de grande relevo para uma melhor compreensão da História de Angola, especialmente da sua paleo-história e proto-história, são as obras de Desmond Clark "The Pre-History of Africa" e "The Pre-History of Southern Africa".

Outras obras importantes que se torna necessário consultar incluem a "General History of Africa" publicada pela UNESCO, a "History of Central Africa" editada por David Birmingham e Phillys Martin, a obra "A History of Africa" da autoria de J.D. Fage, a "A History of South and Central Africa" de Derek Wilson, e a obra de A.J. Wills "An introduction to the History of Central Africa - Zambia, Malawi and Zimbabwe", e a obra de Robert Collins e James Burns "A History of Sub-Saharan Africa".

No campo do tráfico de escravos e o papel que os povos da região ao que chamamos hoje Angola, bem como o impacto do tráfico nesses povos, é essencial a leitura da obra de Joseph Miller "Way of Death", e de toda a obra de Basil Davidson, um pioneiro do estudo da influência do tráfico de escravos do Atlântico nas sociedades africanas entre os se´culos XVI e XIX.


5. Estudos Sobre a História do Atlântico Sul


Mais numa perspectiva mais global da história e economia do Atlântico Sul e do sistema económico mundial, é essencial o estudo dos trabalhos de João Lúcio de Azevedo, Fernand Braudel, Vitorino Magalhães Godinho e Armando de Castro no domínio da história económica, as obras extensas de Jaime Cortesão e de Damião Peres no domínio da expansão portuguesa, a obra de Luís de Albuquerque nos domínios dos Descobrimentos Portugueses e da cartografia antiga. É ainda importante estudar a obra de Frantz Fanon para melhor enquadramento do colonialismo como sistema económico e político e o seu impacto na psicologia dos povos colonizados.


6. Cronistas e Historiadores Portugueses

Mais próximo de Angola, sugiro uma "re-leitura" dos textos históricos de Gomes Eannes de Azurara, Rui de Pina, Garcia de Resende, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Damião de Gois, Duarte Lopez e Felippo Pigafetta, Domingos de Abreu e Brito, António de Oliveira Cadornega, Alexandre Elias da Silva Corrêa, Joaquim Lopes de Lima, Oliveira Martins, Luciano Cordeiro, João de Mattos e Silva à luz de um estudo mais crítico e profundo dos seus testemunhos.


7. Trabalhos Importantes Sobre a História de Angola


Outros estudiosos da História de Angola mais recentes que são leitura obrigatória para uma melhor compreensão incluem Alfredo Trony, Visconde Paiva Manso, Alberto de Almeida Teixeira, Monsenhor Alves da Cunha, Alfredo de Albuquerque Felner, Padre Ruela Pombo, Francisco Castelbranco, Gastão Sousa Dias, Alberto Ferreira de Lemos, Henrique Galvão, Ralph Delgado, Marcello Caetano, António Brásio, Fernando Batalha, António da Silva Rego, José Gonçalo Santa-Rita, Hélio Felgas, Walter Marques, Manuel da Silva Cunha, Eduardo dos Santos, Martins dos Santos, Júlio de Castro Lopo, Carlos Alberto Garcia, Carlos Couto, José de Almeida Santos, Manuel da Costa Lobo, Norberto Gonzaga, Mário António Fernades de Oliveira, Manuel Nunes Gabriel, Ilídio Amaral, Cerviño Padrão, Roberto Correia, e Maria Emília Madeira dos Santos, alguns dos quais requerendo um esforço de tradução mais acentuado para balançar a perspectiva um tanto euro-cêntrica e colonial das suas obras.


8. Estudos de Etno-História

Na área da etno-história é essencial o estudo das obras de Henrique de Carvalho, Padre Carlos Estermann, Óscar Ribas, José Redinha, João Vicente Martins, Mário Milheiros, Mesquitela Lima, Manuel Alfredo de Morais Martins, Jorge e Jill Dias, Abílio Lima de Carvalho, Manuel Guerreiro, José Pereira Neto, Padre José Martins Vaz, Padre Joaquim Martins, Ilídio do Amaral (mais no domínio da geografia humana do que etnografia ou história), Herman Possinger e Ramiro Ladeiro Monteiro mais na área de sociologia.


9. Estudos Sobre Angola e Tráfico de Escravos


Com mais foco no tráfico de escravos, é essencial a leitura das obras de Alfredo Diogo Júnior, António Carreira, e Adriano Parreira, que primeiro estudaram o papel de Angola no tráfico de escravos do Atlântico, pois elas revelam um sem-fim de matéria-prima para uma melhor compreensão dos povos de Angola e da sua história.


Cabe-me aqui declarar agora a minha relativa ignorância quanto aos esforços de estudar e publicar história que com certo vigor se publicaram já depois da independência. Longe da acção, tem sido difícil para mim encontrar bibliografia tão recente. Contudo, cumpre-me citar o trabalho fecundo de Henrique Abranches que decerto necessita de alcançar um público muito mais vasto, e da grande obra de difusão do romance histórico angolano levada a cabo pela excelente pena de Pepetela.

Finalmente, tomo aqui a oportunidade de guiar o leitor para as minhas notas sobre a bibliografia da História de Angola que apresento no fim deste trabalho. Elas não são decerto completas, pois incluem apenas algumas notas pessoais sobre textos que conheço, organizadas de acordo com temas e épocas; apenas um achego simples a tão importante veículo do estudo da História de Angola.

3.7 Fontes da História de Angola



De uma forma geral, as fontes de estudo da História de Angola são muito escassas e de frágil objectividade. Mas antes de discutir as fontes da história de Angola é útil cobrir dois conceitos-chave de fontes escritas de história. As fontes de história classificam-se em geral em dois tipos: fontes primárias e fontes secundárias.

1. Fontes Primárias

Fontes primárias referem-se a qualquer trabalho que tenha sido escrito durante a época (ou pouco tempo depois) em que o objecto de estudo aconteceu. As fontes primárias são a matéria prima básica para o estudo da história. Um exemplo de uma fonte primária no estudo da história de Angola é a Relatione del Reame di Congo et delle Circuonvicine Contrade Tratta dalli Scritti & Ragionamenti di Odoardo Lopez Portoghese per Filippo Pigafetta com disiegni vari di Geografia, di piante, d'abiti, d'animali, & altro - Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas - Tirada dos escritos e discursos de Duarte Lopez, Português - Por Filippo Pigafetta - Com Desenhos vários de Geografia, de Plantas, de trajos, de animais, etc., publicado em Roma em 1591 e traduzido em português por Rosa Capeans, publicado pela Agência Geral do Ultramar, em Lisboa em 1951. Nesta importante fonte da história de Angola encontramos uma descrição em primeira mão do Antigo Reino do Congo durante a época logo a seguir à chegada dos Portugueses e da sua consequente expansão para o Antigo Reino de Ndongo.

2. Fontes Secundárias

Por outro lado, fontes secundárias são aquelas que estudam as fontes primárias de um tópico em história depois do tempo do tópico a que o estudo se refere. Fontes secundárias são em geral estudos posteriores que cobrem a descrição, análise e explicação de fontes primárias. A obra do Professor Joseph Miller "Way of Death - Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade 1730 - 1830", publicada em 1988 pela University of Wisconsin Press é um exemplo de uma fonte secundária pois é um estudo extenso e profundo de fontes primárias sobre a prática do tráfico de escravos da região de Angola durante o século que vai de 1730 a 1830, escrita no último quartel do Séc. XX.

Em termos de documentação escrita, no estudo da História de Angola só temos acesso a documentos escritos depois da chegada dos Portugueses à foz do Zaire em 1481. Estas fontes escritas se bem que escassas são valiosas, pois dão-nos uma descrição em primeira mão de como ocorreu o processo de contacto entre duas culturas; contudo, devemos sempre notar que os escritos dos Portugueses e dos missionários reflectem necessáriamente as perspectivas portuguesa e cristã ao longo dos tempos, e não necessáriamente a objectividade dos factos históricos.

A bibliografia colonial portuguesa sobre Angola é de certa forma extensa, comparada com a bibliografia de outras regiões africanas a sul do Sahara. Contudo, esta precisa de ser "traduzida" antes que se possa usar com propriedade na formulação da História de Angola. É assim difícil discernir nas diferentes "Histórias de Angola" publicadas ao longo dos tempos, as diferentes interpretações que os seus autores lhes deram.

De particular importância para o estudo da História de Angola é ainda o estudo das descrições e memórias, autobiografias, relatos de viagens, diários e correspondência privada existentes. Contudo, apenas podemos usar estas fontes depois de as despir-mos de opiniões pessoais e juízos de valor que as acompanham, enquadradas no espaço e no tempo. É de facto muito interessante ler, por exemplo, as opiniões e comentários do Padre João António Cavazzi de Montecúccolo, na sua Descrição Histórica dos Três Reinos do Congo, Matamba e Angola, onde a evidência da sua formação europeia e cristã do seu tempo está sempre tão presente.

3. Tradição Oral

Não temos também acesso a informantes, entrevistas e narrativas de tradição oral, pois escasso é o trabalho neste campo de investigação histórica, e mais escassas ainda são as suas fontes para uma melhor compreensão da História de Angola.

Cabe ainda referir o papel importante que a mitologia, as lendas, contos, advinhas, canções, danças, festejos e jogos podem desempenhar na interpretação de factos ou personagens históricas passadas. A cultura popular e o folclore dão uma visão não oficial dos factos, personagens e acontecimentos importantes, muitas vezes mais ricas e mais verdadeiras, e pouco mencionados nas fontes mais convencionais. Por exemplo, a obra de Óscar Ribas, pelo seu esforço em transcrever um grande número de elementos de cultura popular luandense, é hoje uma fonte imprescindível, na verdade um tesouro valioso, para se compreender o quotidiano de Luanda antiga.

4. Evidência Arqueológica

A evidência arqueológica é também muito escassa e ainda não está organizada numa forma sistemática. Apesar dos trabalhos de Desmond Clark, Camarate França, Santos Júnior, Carlos Ervedosa, e outros, na segunda metade do Séc. XX, muito ainda está por estudar no que diz respeito à cobertura arqueológica de Angola.

5. Antropologia e Etno-História

Cabe aqui realçar o papel especial da antropologia (por alguns estudiosos designada por etnologia ou etnografia) e da etno-história no estudo e compreensão das sociedades angolanas tradicionais, e a contribuição que estas podem dar a uma formulação mais correcta e abrangente da História de Angola. Sabemos assim das contribuições valiosas que um número restrito de etnólogos (ou antropólogos, a saber, Henrique de Carvalho, José Redinha, Carlos Estermann, João Vicente Martins, Mário Milheiros, Manuel Alfredo Morais Martins, e Mesquitela Lima) deram para o conhecimento mais profundo da história de alguns povos de Angola.

É ainda importante referir que para esta Viagem Pela História de Angola recorri somente a fontes secundárias (bibliografia) e que não conduzi qualquer investigação original baseada em fontes primárias. Assim, filtrei e extrapolei a informação que tive disponível e recorri sempre que necessário à economia política, à sociologia, à antropologia, à demografia e a outras disciplinas sociais para tentar colmatar as lacunas da desejada evidência histórica.

Foi pois difícil para mim escrever sobre um tópico em que as fontes sejam tão limitadas e esparsas. Contudo, e apesar das grandes lacunas que reconheço, é importante que o faça com o maior rigor e objectividade possível. Recorri assim a numerosas obras em inglês, francês e espanhol, em que alguns autores tentaram com alguma frequência denegrir o esforço português e a sua obra, o que me senti obrigado de vez em quando a abrandar ou corrigir.

No meu caso pessoal, não tive o benefício do diálogo ou da troca de ideias com outros amantes da História de Angola, pois estou longe de qualquer grupo que se interessa por este tópico tão exótico. Esta foi assim uma empresa solitária, e por isso mesmo mais sujeita ainda a maior risco de subjectividade.

3.6 Porquê Estudar a História de Angola?


O passado condiciona necessáriamente não só o que somos hoje, mas também o que fomos ontem, e mesmo o que seremos amanhã. Assim, o estudo da História de Angola ajuda-nos a compreender melhor o processo de mudança ao longo do tempo e assim entender melhor o que é hoje Angola.


1. Ir à Raíz das Questões

Com frequência, o estudo de acontecimentos recentes não é suficiente para explicar uma determinada realidade social ou política, havendo necessidade de se "voltar mais atrás no tempo" a fim de podermos entender melhor as raízes e os agentes-chaves de mudança e a sua evolução, prestando não só atenção a factores conjunturais mas também aos estruturais. Por outro lado, sabemos também que o conhecimento do momento presente ajuda-nos a melhor compreender o passado. O estudo da história é quem nos ajuda a aprender as relações causais entre os factos históricos e a ordená-los de acordo com um padrão ou lógica.

Só através do estudo da História de Angola podemos compreender não só o que mudou como também o "porquê" que as "coisas" mudaram, e quais os agentes da dinâmica social angolana que persistiram ao longo dos tempos, não obstante mudanças radicais noutros campos, pois como Leibnitz disse, "a melhor maneira de compreender uma realidade é conhecer-lhe as suas causas".


2. Melhor Entendimento Social

A história é a memória comum de uma sociedade. A História de Angola relembra-nos não somente os seus heróis e grandes feitos do passado, ou o sincretismo do contacto entre vários mundos, mas também nos revela a crueldade e violência do tráfico de escravos, a exploração colonial e a destruição da Guerra Civil; o seu conhecimento é essencial para uma melhor cidadania, ajudando assim na promoção e realização de uma identidade nacional mais sã e mais completa. O estudo da História de Angola ajuda também o melhor entendimento entre os homens, contribui para a construção de uma sociedade democrática mais esclarecida e actuante dos seus cidadãos.


3. Padrões de Evolução

O conhecimento da História de Angola mostra-nos como indivíduos, grupos, instituições, classes, povos e sociedades evoluiram ao longo do tempo, enquanto contribuiram para a coesão do todo a que hoje chamamos Angola. O seu estudo dá-nos uma preciosa lição acerca da evolução e tendências a longo prazo das relações económicas, estruturas políticas e religiosas, instituições sociais nacionais, e desafios e valores, ao mesmo tempo que nos mostra como é que os agentes se articulavam entre si, e como é que Angola se relacionava com o resto do mundo. É certo que o passado não se pode mudar, pois os factos históricos em si não se repetem, mas o nosso conhecimento deles é um processo que evolui e se aperfeiçoa continuamente ao longo dos tempos.


4. Pedagogia da História de Angola

Quanto aos erros e tragédias do passado, a sabedoria popular diz-nos que quando um povo esquece a sua história, esse povo está condenado a repetir os mesmos erros e tragédias do passado. É assim importante para uma sociedade estar bem informada acerca das grandes tragédias da humanidade ocorridas no passado, de forma a cedo poder detectar, perceber e resolver os primeiros indícios ou tendências que possam levar a novas tragédias. O conhecimento e a divulgação da história facilitam a vigilância e o activismo político, pois todos aprendemos com os erros do passado, e como o historiador Marc Bloch bem notou, sabemos que "a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado". Por outro lado, é também importante saber quais os sucessos do passado para os compreender e adaptar ao presente.


5. Métodos de Pensamento e Pesquisa


Num plano mais pessoal, a aprendizagem da História de Angola, como laboratório infinito do seu passado, ajuda-nos a identificar melhor o continuum da sua evolução e avaliar os conflitos ao longo dos tempos, ajudando-nos assim pessoalmente a discernir melhor quais os agentes principais de mudança em situações complexas, cuja compreensão nos ajuda a enfrentar alguns problemas e dilemas que, como pessoas comuns enfrentamos no nosso dia-a-dia.

O estudo da história facilita ainda a aquisição de melhores hábitos pessoais de pesquisa, de avaliação de conhecimentos e de escolha, e o despertar da mente para compreender com mais rigor a realidade social e política que nos rodeia. O estudo da história ajuda-nos ainda a desenvolver bons hábitos de pensar e agir, predicado essencial para um melhor desempenho social e político, seja para uma classe política, comunidade, grupo, ou simplesmente para um eleitorado mais educado e eficaz.


6. Identidade Angolana


A História de Angola é a memória social e cultural dos povos que cimentaram a sua formação. A Nação Angolana é formada por grupos étnicos e culturais variados que partilham o mesmo passado comum, e é a história que ajuda a identificar a Nação Angolana como tal. Porém, a história não só ajuda na formação da Nação Angolana, como também é ela que fornece os elementos que leva os seus cidadãos a identificarem-se como "nacionais" com base na experiência dos seus antepassados.

Assim, é a História de Angola que nos mostra como povos originalmente distintos e independentes entraram em contacto uns com os outros e se transformaram ou se juntaram a outras sociedades ao longo dos tempos, e como essa aglutinação criou e alimentou a identidade política e social que é a Angola de hoje Podemos assim dizer que é a História de Angola nos ajuda a definir como Angolanos.


7. Prazer e Delícia

Por fim, o estudo da história não só informa, mas também inspira e delicia. É, como sabemos, um profundo prazer, pois pouco há de mais belo do que a leitura da descrição ou análise do passado emanado da mente e pena de um bom mestre em história. Com referência ao prazer que a leitura ou o estudo que uma boa obra de história nos pode dar, transcrevo as palavras do Padre José Matias Delgado no seu Prólogo do Anotador à História Geral das Guerras Angolas, escrita por António de Oliveira Cadornega e publicado em Lisboa em 1680, e editado pela Agência Geral do Ultramar, Lisboa, em 1972, com anotações do Padre José Matias Delgado:

"Cadornega era dotado de um grande espírito de observação e conta os factos de tal modo que se torna agradável e de interesse a leitura da sua história, posto que à primeira vista nos amedronta pela enormidade dos seus compactos capítulos. A sua maneira de escrever é tão natural, tão fluente e simples que nos encanta, nos deleita e sobretudo nos comove, fazendo-nos passear diante dos olhos os factos admiráveis de grande heroismo e verdadeiras epopeias."

3.5 Tempos Diferentes ao Mesmo Tempo...



O universo político a que chamamos Angola não é um todo homogéneo em que todas as suas partes estiveram sempre em sincronia. Pelo contrário, Angola evoluiu a cadências diferentes não só no tempo mas também no espaço, pois o "todo" a que chamamos Angola, só se formou assim nos últimos cem anos. Angola é assim, como a maioria das actuais nações africanas, uma sociedade compósita, uma nação em construção, e não um país "acabado".

No estudo dinâmico da História de Angola encontramos a qualquer momento nos tempos mais recentes, a coexistência de povos com modos de produção e cultura muito diferentes, variando num continuum muito amplo que vai do modo de produção neolítico para os Khoisan, passa por sociedades pré-capitalistas para a maioria das sociedades tradicionais bantas, e termina numa economia tipicamente capitalista e moderna nas regiões mais industriais e urbanas.

A unidade política e o território da então colónia portuguesa de Angola foram-se formando a ritmo diferentes, à medida que mais povos passavam a fazer parte do todo a que chamamos Angola, trazendo cada um as suas dinâmicas histórica, social, económica, política, religiosa e artística, e misturando-as com o todo que era Angola ao tempo da sua fusão.

Assim, não podemos com inteira propriedade dizer que a Idade Pré-Colonial terminou em Angola com a chegada de Diogo Cão à foz do Zaire em 1481, ou com a fundação de Luanda em 1576, ou com a batalha de Ambuíla em 1665, ou mesmo ainda com a campanha do Bailundo em 1902. O fim da Idade Pré-Colonial para povos diferentes que hoje fazem parte do todo Angola aconteceu em tempos diferentes e a ritmos diferentes, quando esses povos passaram a fazer parte do todo a que chamamos Angola. Assim, por exemplo, temos que a Idade Pré-Colonial para o povo Bacongo terminou vários séculos antes do que a mesma para os povos Nganguela ou Ambó.

Temos ainda a considerar o facto que certos povos de Angola, como o povo Bakongo, "entraram e saíram" mais de uma vez da suzerania dos Portugueses, assim "entrando e saindo" da História de Angola. De facto, o Antigo Reino do Congo manteve a sua unidade e independência até às Invasões Jagas de 1568, renasceu das suas cinzas com a ajuda dos Portugueses até 1665, ano em que foi dizimado na Batalha de Ambuíla, saíndo assim da órbita da colónia portuguesa de Angola até 1881, quando foi trazido de volta para a Colónia de Angola através da acção do Padre D. António Barroso.

Para completar este panorama, já por si um pouco confuso, devemos ainda considerar o facto que o quantum de integração dos povos nativos no todo "Angola" durante a maior parte da Idade Colonial, variava muito a qualquer momento da história, desde completa independência até completa integração na colónia, passando por estágios intermédios de trocas comerciais marginais e esporádicas, presença comercial mais regular e efectiva, vassalagem à soberania portuguesa, presença portuguesa simbólica, até completa integração nos aparelhos político, militar, administrative e económico da colónia.

Sem dúvida que estas "arritmias" não fazem da História de Angola um tópico mais simples de se compreender; contudo, o processo histórico foi muito semelhante para a maioria dos povos que formam hoje a nação angolana, passando a maioria deles por processos, padrões e marcos muito semelhantes, o que de certo modo facilita um pouco a leitura e compreensão da História de Angola.

3.4 Os Grandes Períodos da História de Angola


1. A Divisão da História em Períodos

A descrição e o estudo da evolução humana ao longo dos tempos é mais fácil de se compreender quando a dividimos em idades ou épocas distintas, pelas quais agrupamos um ou mais elementos fundamentais comuns.

Por outro lado, a passagem de uma época histórica para a próxima é em geral marcada por um salto qualitativo (uma revolução), geralmente com origem em melhoramentos significativos nas técnicas de produção de alimentos ou na técnica de fazer guerra, ou ainda na organização comercial ou político-militar.

É em geral fácil de reconhecer as mudanças no sistema económico (modo de produção) e nas mudanças das instituições sociais e políticas que demarcam um período do próximo que lhe segue.

Devido à condição específica e única da história de cada grupo humano a ser estudado, não é possível ter uma regra de periodização universal que se aplique às histórias individuais de todos os grupos humanos. Cada grupo humano ou região tem uma evolução única, diferente das histórias de todos os outros grupos humanos; de facto não há duas sociedades humanas com a mesma história.

Assim, a periodização da história de cada grupo humano a ser estudado tem sempre que atender às condições específicas da evolução desse grupo ao longo dos tempos. Assim, a periodização da História de Angola é necessariamente diferente da periodização da História do Brasil, por exemplo, em que ambas partilham a existência de um período colonial, mas encontramos no Brasil o Período do Império sem contraparte na História de Angola.

Contudo, à medida que resumimos e comparamos a história de dois ou mais grupos humanos distintos, podemos notar que certos padrões de evolução são relativamente constantes, o que nos permite agregar a história desses grupos humanos em grupos mais gerais, em que se torna mais fácil identificar essa história em períodos mais gerais. Assim, à medida que passamos de unidades históricas mais pequenas (tribos e povos) para maiores (reinos, impérios ou civilizações) notamos uma agregação dos períodos dessas sociedades em períodos mais gerais e mais globais.

Como exemplo, podemos dizer que apesar das condições específicas de cada povo a entrar na História de Angola, em tempos e processos diferentes, podemos identificar em geral um período antigo, um período pré-colonial, um período de contacto, e finalmente um período de absorção no todo angolano. Assim, o povo original deixou de o ser quando passou a fazer parte da unidade histórica a que chamamos Angola, como é o exemplo do Antigo Reino do Ndongo.


2. A Transição de um Período para o Próximo

É importante notar que a transição de um período histórico para o próximo não acontece numa data exacta ou de um dia para o outro; de facto, o processo de transição pode durar séculos e ser tão vagaroso que nem se nota qualquer transição.

Por vezes os historiadores adoptam um acontecimento extraordinário e marcável como o "momento" de transição de um período para o próximo, como é por exemplo a chegada da esquadra de Diogo Cão à foz do Zaire em 1483, como momento que define o começo do período colonial.

Contudo, no caso da História de Angola é difícil marcar com exactidão a data em que termina o período pre-colonial e quando começa o período colonial. Como marco do início do período colonial aponta-se em regra como acontecimento significativo a chegada da esquadra de Diogo Cão à foz do Zaire em 1483; mas se nos debruçarmos mais atentamente sobre esse acontecimento verificamos que os Portugueses não tinham inicialmente a intenção de colonizar Angola, mas sim encontrar riqueza mineral (as minas de prata de Cambambe e as minas de cobre do Sumbe Ambela), e só com o estabelecimento de Luanda e Massangano por Paulo Dias de Novais em 1576 e 1583, é que, formalmente, se estabeleceu a "colónia" portuguesa de Angola.

Por outro lado, temos ainda que considerar o facto de que a "absorção" de povos e estados africanos no todo angolano durou séculos a se realizar, pois apesar da conquista do Antigo Reino do Ndongo nos fins do Século XVI, a integração do estado Ambó não teve lugar até aos princípios do Século XX.


3. Periodização Eurocêntrica

Habituados que estamos com a periodização eurocêntrica da história universal de acordo com a evolução linear Pré-História - Antiguidade Clássica - Idade Média - Idade Moderna e Idade Contemporânea, é talvez com certa relutância que aceitamos que o mesmo modelo de periodização não se aplique à história da humanidade em África.

Porém, quando nos debruçamos sobre o seu estudo, torna-se imediatamente evidente que a história dos povos africanos seguiu por dezenas de séculos os seus próprios caminhos até se cruzar com os caminhos da Europa desde a época dos Descobrimentos Portugueses.

Mesmo depois do contacto e cruzamento hstórico com os Europeus a História de África seguiu um padrão único e distinto da História da Europa. Assim, como resultado da interacção entre os povos e estados da Europa e da África, encontramos na História de África um período colonial, que não encontramos na história dos povos ou estados da Europa.


4. O Factor Diversidade na História de África

É importante lembrar que a África não é uma unidade geográfica, cultural e histórica homogénea e coesa (decerto um mito eurocêntrico); muito pelo contrário, a África é talvez o continente no mundo com a maior diversidadeecológica e cultural, pois constatamos que existem diversas "Áfricas" muito distintas umas da outras e em que cada uma tem uma identidade muito própria.

Em África não só encontramos o maior deserto do mundo (o Sahara), como encontramos a extensa floresta equatorial, as praias quentes do seu litoral, como as neves eternas do Kilimanjaro; Em África não só encontramos os povos de compleição mais pequena (os pigmeus Mbuti da África Equatorial), como encontramos os homens mais altos do planeta (os Watutsi do Ruanda), os Bérberes do Sahara como também os Fang da floresta equatorial, ou o povo Malgache e os Khoisan da África Meridional.

Assim as grandes regiões africanas como o Magrebe, o Sudão, a África Ocidental (Sahel), a África Equatorial, a África Oriental, a África Central, a África do Sul e Madagáscar são regiões tão diferentes entre si, como a Índia o é da China, ou como Portugal o é da Suécia.

No caso particular da África Central, de que Angola faz parte, a periodização da sua história tem que ter em atenção a sua evolução humana específica na região ao longo de milénios, o que requer uma periodização própria.


5. Os Grandes Períodos da História de Angola

Assim organizei esta Viagem Pela História de Angola em grandes períodos ou épocas, na esperança de que a extensão dos tópicos se torne mais fácil de se compreender. Esta periodização é um pouco arbitrária e opaca, contudo é talvez a mais aceite pela maioria dos estudiosos da História de Angola. Assim sugiro que na História de Angola encontramos quatro grandes épocas distintas, a saber:


5.1 A Pré-História de Angola

A Pré-História de Angola, começa com a Idade da Pedra acaba com o fim do Período Neolítico - em geral de há quarenta mil anos até cerca do ano 1.000 depois de Cristo; cobrindo a proto-história dos povos pré-Bantos - Khoisan, Pigmeus, Cuissis, e Cuepes, que desde longa data habitam o actual território de Angola, até à chegada dos primeiros povos Bantos.

Por sua vez, o Período Pré-Histórico é geralmente dividido em épocas que incluem a Idade da Pedra, o Período Neolítico, e o povoamento do território pelos povos pré-Bantos Pigmeus, Khoisan, até à chegada dos primeiros povos Bantos à região no Séc.XIII, precursores do Antigo Reino do Congo.

Por norma, os Povos Cuíssis e Cuepes são classificados como pré-bantos, o que não quer dizer que existiam como povos diferenciados antes da chegada dos povos Bantos à região. Um número crescente de estudiosos partilha a opinião de que esses povos são de facto o resultado do cruzamento ou absorção de antigos grupos Khoisan pelos recém-chegados povos Bantos à região.


5.2 O Período Pré-Colonial

O Período Pré-Colonial, que começa com a Idade do Ferro, as grandes migrações dos povos Bantos, os reinos da savana, até termina na data da chegada dos Portugueses ao Antigo Reino do Congo em 1481 - desde cerca do ano 1.000 depois de Cristo até aos fins do Séc. XV, que inclui a época desde a chegada dos povos Bantos à região que hoje compreende o território de Angola no Séc. XIII e a chegada dos Portugueses nos fins do Séc. XV.

Foi durante o período Pré-Colonial que se formaram os primeiros estados Bantos na região pelos povos Ambundos e Bakongo
. Este período na história de África inclui a Idade do Ferro, a origem dos povos Bantos e as suas grandes migrações para a África Central e Meridional, os antigos impérios sudânicos, os potentados do Golfo da Guiné, e os antigos estados Bantos que se estabeleceram nas bacias dos rios Zaire, Cuanza, Queve (ou Cuvo), Zambeze, Cunene, Cubango, Cuíto e Cuando, e os reinos Bantos dos Grandes Lagos e da África Oriental e Meridional.


5.3 O Período Colonial


O Período Colonial, é definido pelos tempos de Angola colónia portuguesa - de 1483 a 1975; O
Período Colonial, começa com a chegada dos Portugueses ao Zaire em 1481 e termina com a Independência de Angola em 1975. O Período Colonial pode ser dividido em três épocas distintas:

a) Primeiro Período - A Época da Conquista Portuguesa - Desde os primeiros contactos com os Portugueses que chegaram ao Antigo Reino do Congo em 1481 e a eventual conquista do Antigo Reino do Ndongo e a fundação de Luanda em 1576 e o estabelecimento dos fortes portugueses de Massangano em 1583 e Muxima em 1594 ao longo do curso do Rio Cuanza. Durante este período, a presença portuguesa era dominada pela procura das famosas minas de prata de Cambambe e do Sumbe Ambela, e em menor grau, pelo crescente tráfico de escravos para São Tomé, Europa e Brasil.

b) Segundo Período - A Época do Tráfico de Escravos, inicialmente orientada para os engenhos de açúcar de São Tomé, ainda nos fins do Séc. XVI, e depois para os engenhos de açúcar do litoral brasileiro (Maranhão, Pernambuco e Bahia) até aos finais do Sec. XVII, e mais tarde para as minas de ouro e diamantes de Minas Gerais e São Paulo. Depois da independência do Brasil em 1822 a exportação de escravos de Angola foi em parte orientada para os Estados Unidos e para Cuba, embora a maioria dos escravos continuasse a ser absorvido pelo Brasil (Rio de Janeiro), já depois da abolição da escravatura em 1836 em Angola e até 1888, ano da proclamação da Lei Áurea no Brasil.

c) Terceiro Período - A Época de Exploração de Produtos Coloniais (produtos tropicais e minérios - mel, borracha, açúcar, café, algodão, tabaco, milho, diamantes, ferro, e petróleo) que começou em 1845 com o consulado do Governador Pedro Alexandrino da Cunha em 1845 e terminou com a independência de Angola em 1975.

Foi durante este período que a ocupação efectiva do território pelos Portugueses se completou através das Campanhas Militares de Ocupação entre 1851 e 1925 (no contexto do imperialismo europeu e da Corrida à África), e a colonização branca do território se realizou, com a exploração mais intensa dos recursos agrícolas e mineiros.


5.4 Angola Estado Independente

Angola como estado soberano, depois da Independência, depois de 1975 até aos dias de hoje (2008). Angola Estado Soberano, começa com a descolonização de África, passando pela luta de libertação nacional, descolonização portuguesa, Independência, breve experiência marxista-leninista, Guerra Civil, petróleo bruto e diamantes e cleptocracia e corrupção, e por fim Angola em paz e em desenvolvimento.

3.3 Diversidade Étnica


1. Angola Nação Jovem

Angola como nação é ainda uma realidade jovem na comunidade das nações
. A Nação Angolana é de facto um todo que é feito por dez povos, ou grupos étnicos, como também são designados, e que no partilhar do que têm em comum estão ainda cimentando a construção da Nação Angolana. Alguns destes povos estão mais (ou menos) empenhados neste processo que outros, embora todos façam parte da mesma.

A coesão destes povos numa só nação começou nos últimos tempos do período colonial, e tomou forma na resistência comum (se bem que não centralizada) à soberania portuguesa. A luta de libertação ajudou a catalizar esta unidade nacional, que por sua vez tornou possível uma Angola una e independente.

Se bem que a Guerra Civil Angolana, que assolou o país entre 1975 e 2002, tenha maiores raízes na Guerra Fria, que os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (USSR) travaram durante 40 anos pelo controle do mundo, podemos dizer que o conflito angolano tinha também raízes tribais. Só com a paz alcançada em 2002 é que a nação Angolana pôde finalmente retomar livremente a orientação de unidade nacional.


2. Estados, Nações e Território em África

Como a maioria das nações africanas, a Angola de hoje é um produto do colonialismo europeu, que depois da Conferência de Berlim em 1885, não conhecendo as fronteiras dos territórios dos povos africanos, dividiu a África em colónias sem obedecer a qualquer geohistória dos povos subjugados.

Esta repartição cega de África teve lugar nas chancelarias europeias, sem qualquer consideração pela história e soberania dos povos africanos no terreno. Assim, as fronterias das colónias africanas atravessam territórios antes unidos sob a soberania de vários estados nativos, resultando na geopolítica actual africana, onde encontramos o território tradicional dos antigos estados africanos repartido entre vários estados actuais, como são os exemplos do Império Lunda e do Povo Bakongo, que se repartem entre Angola e o Congo (Kinshasa), ou dos povos Herero e Ambó, que agora está repartido entre Angola e a Namíbia, ou ainda dos Khoisan que se repartem por um território tradicional ainda maior que inclui partes de Angola, Namíbia e Botswana; ou ainda dos territórios actuais que incluem vários estados antigos, como ainda é o exemplo do território actual de Angola, que inclui parte dos territórios de dez povos que anteriormente ao colonialismo europeu faziam parte de estados independentes com soberania própria e efectiva sobre o seu território tradicional.


3. Homem e Tempo em História

No estudo da história encontramos duas unidades fundamentais: "homem" e "tempo". Quando nos referimos a "homem" queremos dizer grupo, sociedade, povo, nação, civilização ou humanidade, e quando nos referimos a "tempo" queremos dizer evolução, época ou período. Assim nesta Viagem Pela História de Angola, usarei muito a perspectiva de "povo", e tentarei sempre enquadrar a História de Angola de acordo com "períodos" claramente agrupados e definidos. Voltaremos mais tarde a estes tópicos quando aprofundarmos algumas noções fundamentais de história no próximo troço desta Viagem (Um Pouco de Historiografia). Contudo, acho oportuno investigarmos neste momento o conceito de "povo" no contexto da História de Angola, pois penso que nos vai ajudar um pouco nesta nossa Viagem.


4. O que é um Povo?

O que é que define um povo? De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, Edição de 2004, da Porto Editora, um "povo é um grupo de indivíduos que tem a mesma origem, a mesma língua, e partilham de instituições, tradições e costumes e um passado económico e histórico comum". A esta definição podemos adicionar mais identidades como o tipo genético, cultura, a religião, o modo de produção, e o território, que decerto nos ajudam muito a classificar grupos humanos de acordo com as suas características mais importantes.

Contudo, o conceito de "povo" é ainda fluido e nunca inteiramente homogéneo, pois está sempre em constante evolução e mutação, nunca "cristalizando" numa determinada forma; assim, ao longo do tempo, certos povos e nações deram origem a outros povos e nações, como é o exemplo da maioria dos povos da Europa de hoje.

Sob o risco de ser erroneamente compreendido como advogando uma perspectiva tribal (e não nacional), que de forma alguma é a minha intenção, usarei o termo "povo" e não "grupo étnico" ou mesmo "grupo etnolinguístico", para designar os grupos que partilham um território nacional específico, praticam a mesma economia, falam uma língua específica, e vivem uma identidade cultural diferente de todos os outros, pois, com a excepção de governo próprio independente e soberania territorial, reúnem todos os predicados para que sejam designados como povos e não somente como grupos étnicos.


5. Povos na História de Angola

Contudo, na formulação da História de Angola é importante que nos debrucemos sobre o estudo da histórias destes povos antes, durante, e depois da sua inclusão no universo histórico a que chamamos Angola. Assim, e a tom de introdução sobre o capítulo "Os Povos de Angola", apresento uma resenha muito geral de cada povo, indicando o seu percurso histórico de migração, território que ocupavam, economia que praticavam, língua que usavam, e alguns dos aspectos mais significativos da sua economia, estrutura social e cultura, bem como uma breve referência aos seus heróis e acontecimentos mais notáveis da sua história.

Este esboço inclui os povos pré-Bantos Khoisan, Cuepes e Cuíssis e os povos Bantos que num movimento migratório que durou mais de seis séculos vieram estabelecer-se no actual território de Angola, que inclui os povos Bakongo, Ambundo, Lunda-Quioco, Ovimbundo, Nganguela, Nhaneca-Humbe, Ambó, Herero e Xindonga, bem como o grupo híbrido dos Quimbares na região de Namibe (Moçamedes) que resultou da misceginação de indivíduos oriundos de grupos étnicos diferentes que foram atraídos para trabalhar na indústria da pesca, e as sociedades crioulas composta de mestiços que resultaram do cruzamento genético e sincretismo social e cultural entre os povos tradicionais africanos e os Portugueses ao longo de quase cinco séculos.

Sunday, May 28, 2006

3.2 Que Angola?



1. Que Angola é que vamos estudar?

Quais os grupos humanos que nos debruçamos a estudar? Perguntas fáceis de propôr, mas de não tão fácil e imediata resposta.

Para efeitos deste estudo, por Angola entendo todos os grupos humanos locais que de qualquer forma tiveram influência relevante na evolução histórica do país a que hoje chamamos Angola, e o estudo das relações entre esses povos ao longo da história.

Assim incluo na História de Angola, o estudo de todos os povos tradicionais africanos cujos movimentos migratórios passaram ou terminaram no actual território de Angola, dos povos vizinhos que condicionaram a sua existência e expansão, dos Portugueses que a colonizaram por quase cinco séculos, do Brasil de quem Angola foi uma colónia por mais de três séculos, e do Atlântico que foi palco da maior diáspora na história humana.

Para além do estudo dos povos e dos factos históricos, é também essencial estudar os diferentes modos de produção que foram factores determinantes na História de Angola. Assim, devemos estudar mais em pormenor a instituição social da escravatura nas sociedades tradicionais africanas e o sistema económico do tráfico de escravos do Atlântico imposto pelos europeus, não só para melhor conhecer o seu impacto na História de Angola, como também para melhor avaliar o papel de Angola no contexto da História Universal.

Para melhor se compreender a História de Angola é necessário um bom conhecimento da sua geografia. A morfologia do território angolano, com a costa atlântica relativamente estreita, a sua imensa savana no planalto interior, a floresta de galeria nas Lundas, a floresta tropical a norte do Rio Cuanza, o deserto do Namibe, o tecto do Planalto (da Huíla ao Munhango), e as bacias hidrográficas dos rios Zaire, Cuanza, Zambeze, Cuando e Cubango, e Cunene, todos influenciaram sobremaneira o padrão de povoamento humano ao longo dos milénios. Por seu lado, o regime de chuvas, indo de elevada pluviosidade a norte e no Planalto Central até quase a sua ausência no Namibe, determinou a enorme variedade e riqueza da fauna e da flora.

A configuração e extensão do actual território de Angola foi o resultado da acção dos Portugueses ao longo de quase cinco séculos de influência sobre os povos da região. Contudo, apesar deste contacto tão longo, a presença efectiva dos Portugueses nas terras de Angola, foi durante mais de trezentos anos limitada a uma pequena porção do litoral perto da foz do Cuanza, de menos que 10% da área total do território actual. Somente depois da Corrida à África nos fins do Século XIX é que os Portugueses expandiram o seu domínio para o interior, e somente em 1926 é que o território ficou com a sua configuração actual sob o controle total dos Portugueses.


2. Identidade Histórica de Angola

Antes propriamente de cobrir o tópico "Angola", acho por bem cobrir a questão "Que Angola?" Isto porque antes da chegada dos Portugueses, o território foi ocupado por um número de povos diferentes ao longo dos séculos, não sendo considerado nunca como uma unidade histórica única (Angola), mas uma região em que havia vários povos independentes uns dos outros vivendo em territórios vizinhos. A questão da unificação destes povos numa entidade histórica única só se pôs com o começo da ocupação portuguesa da região

De facto, para os Portugueses, Angola não começou como "Angola", mas sim como "Congo", mais propriamente, o território do Antigo Reino do Congo, geralmente definido pelos rios Zaire a Norte, Cuango a Leste, e Dande a Sul, e pela costa atlântica a Oeste, desde o tempo da chegada de Diogo Cão em 1483 até à Batalha de Ambuíla em 1665.

Só com a carta de doação da capitania de Angola a Paulo Dias de Novais em 1571 e a sua chegada à região em 1575 (na sua segunda estadia) e com a fundação da povoação de S. Paulo de Loanda, é que Angola começou a existir como possessão negreira portuguesa, e como entidade política, económica e militar no quadro geoplítico da África Central e Austral desse tempo.

Por seu lado, o Antigo Reino do Congo entrou em decadência em 1568 como resultado das invasões dos Jagas (Imbangala) vindos de Além Cuango, e perdeu a sua hegemonia regional com a derrota da Batalha de Ambuíla em 1665. A Partir desta data o Reino do Congo manteve-se como reino independente dos Portugueses mas sem qualquer soberania ou significância regional até ser definitivamente conquistado pelos Portugueses através das Campanhas Militares de Ocupação levadas a cabo nos fins do Século XIX e princípios do Século XX.

Cabe ainda aqui recordar que Angola não foi a única possessão portuguesa na região. Se bem que efémera, Benguela existiu como possessão directamente dependente de Lisboa por alguns anos, e não de Luanda, sendo uma possessão com o mesmo status político (mas não militar) que Angola. Contudo, a independência de Benguela foi efémera, pois começou em Maio de 1617 com a chegada de Manuel Cerveira Pereira à Baía das Vacas, então nomeado designado por Filipe III como "Conquistador e Povoador do Reino de Benguella", e acabou na realidade em 1621 por sugestão do próprio Manuel Cerveira Pereira ao rei Português.

É curioso ainda notar aqui que a conquista portuguesa de Angola foi ditada pelo interesse nas minas de prata de Cambambe, e a conquista de Benguela foi também ditada pela suposta riqueza mineral das Minas de cobre do Sumbe Ambela, junto à foz do Rio Cuvo (Queve), e que foram ambos substituídos em breve pelo tráfico de escravos para o Brasil.

Com a independência de Angola em 1975, a questão da unidade territorial e política de Angola foi por alguns posta em questão com respeito a Cabinda. É certo que o domínio português sobre o território de Cabinda só se formalizou com a assinatura dos Tratados de Chinfuma em Lândana em 1883, Chicambo na margem esquerda do Rio Luema, no Massabi, em 1884, e Simulambuco em 1885, com os potentados nativos locais. É certo ainda que estes tratados foram entre os povos locais e a Corôa Portuguesa, sem qualquer referência a Angola nestes tratados, ou mesmo sem a interferência do Governo Geral de Angola, mas os Portugueses, desde o início, consideravam de facto Cabinda como uma "dependência" de Angola, apesar de uma breve referência específica como território distinto na Constituição da Repúplica Portuguesa. Hoje, na data que escrevo este capítulo, a questão da autonomia de Cabinda em relação a Angola está ainda por resolver a contento de ambas as partes (Cabinda e Angola).


3. Evidência Arqueológica da Ocupação Humana

O actual território de Angola foi ocupado desde a Idade da Pedra, conforme atesta a evidência arqueológica de pontas, machadinhas, raspadores, picos, bifaces, choppers e tranchets espalhada pelo território.

A julgar pela abundância da evidência arqueológica, a orla costeira angolana foi neste período muito favorável à ocupação humana, devido ao aumento de pluviosidade e ao abaixamento de temperatura, o que resultou em condições ideais ao habitat dos caçadores Acheulenses.

Do Período Paleolítico encontramos evidência das culturas Olduvense e Acheulense no canto leste das Lundas, no Calumbo, nas Palmeirinhas e em Luanda, no Uíge, e na orla costeira, em Benguela, Baía Farta, Limagens, Ponta do Giraúl, Namibe (Moçâmedes) e Tombwa (Porto Alexandre). Foram encontrados ainda materias no Planalto da Huíla (Leba, Lubango e Matala) e no planalto do Huambo.

A evidência da ocupação humana no Período Mesolítico está atestada por inúmeras estações de culturas Sangoense (de ±46.000 AC a ±37.000 AC), Lupembense (de ±36.000 AC a ±14.000 AC), Lupembo-Tshitolense (de ±15.000 AC a ±9.000 AC) encontradas nas Lundas, em Luanda, no Galangue e em Menongue, sendo deste período as pinturas rupestres do Tchitulo-hulo Mulume, no deserto do Namibe. Encontramos ainda evidência abundante de cultura Tshitolense que ocupou partes do território entre ±13.000 AC e ±4.500 AC.

Durante o Período Neolítico (entre ±8.000 AC e ±2.000 AC) mudanças de clima forçaram o recuo dos Mbuti (Pigmeus) mais para norte, para as terras mais baixas da extensa bacia do Zaire, e novos métodos de cultivo e da produção de ferramentas atraíram mais tarde os povos Bantos à região, forçando os Khoisan a retirar-se para as áreas mais inóspitas dos quandrantes sudeste e sudoeste do actual território de Angola.

É ainda durante o Período Neolítico que encontramos os primeiros sinais de cultivo de plantas e de animais domesticados que devem ter atingido a bacia do Zaire durante o terceiro milénio AC. Instrumentos de pedra polida, como machados e enxadas, foram encontrados na região de Mbanza Congo (São Salvador), nas margens do rio Cuanza, e na estação do Feti, no Galangue, a cerca de 100 km a sul da actual cidade do Huambo (Nova Lisboa), atestando a ocupação contínua do território por culturas pré-Bantas.


4. Os povos Pigmeus (Mbuti) e Khoisan

Os habitantes originais da África Central foram os povos caçadores e colectores de quem os povos Mbuti (Pigmeus) e Khoisan (Bosquímanos) descendem, que viveram na região desde há cerca de pelo menos 12.000 anos. No que respeita mais propriamente ao actual território de Angola, os Pigmeus ocupavam as florestas galerias na metade norte do território (províncias de Zaire, Uíge, Cuanza-Norte e Lundas) e os Khoisan ocupavam o extenso planalto interior das províncias de Benguela, Huambo, Bié, Moxico, Cuando-Cubango, Cunene, Huíla e Namibe.

Acredita-se ainda que os Pigmeus tenham chegado primeiro que os Khoisan, mas que se foram retirando para Norte à medida que a floresta equatorial ficava mais circunscrita à bacia do Rio Zaire.

Evidência arqueológica confirma a ocupação do território angolano pelos Khoisan desde há 12 mil anos. Devido ao seu modo de produção paleolítico, o padrão de povoamento Khoisan foi escasso e concentrou-se nas terras do planalto. Sem bem que se não saiba a data aproximada da expansão Khoisan em Angola, acredita-se que ele tenha tido lugar entre doze mil a dez mil anos atrás.


5. As Grandes Migrações dos Povos Bantos

As migrações bantas para o actual território de Angola estenderam-so ao longo de 1.400 anos, desde cerca do Séc. VI até ao Séc. XIX. A classificação de "Banto" é uma classificação linguística e não política; assim, por "povos Bantos" entendemos os diferentes povos que se espalharam na África Central e Austral (em que se inclui Angola), cuja língua tinha a mesmo origem comum da cultura Nok do Nordeste dos Camarões e Sudoeste da Nigéria. O avanço dos povos de língua Banta foi um movimento secular e vagaroso, e não uma expansão brusca. Neste processo lento e secular de contacto entre os povos Bantos e os Pigmeus e mais tarde os Khoisan, os povos Bantos detentores da tecnologia de fabricação de ferro impuseram a sua economia e cultura, ao mesmo tempo que assimilaram os povos Pigmeus e Khoisan que há muito viviam nessas regiões, resultando em culturas cruzadas como as dos povos Cuissis e Cuepes, no quadrante sudoeste de Angola, ou empurrando-os para regiões mais marginais (floresta equatorial para os Pigmeus) e inóspitas (chanas (estepes) do leste de Angola para os Khoisan).

Com a excepção dos Bakongos e possivelmente dos Ambundos, que seguiram a rota meridional a oeste da floresta equatorial, a maioria dos povos Bantos que vieram habitar Angola eram originários da região dos Grandes Lagos a leste da floresta equatorial (bacia do Zaire) e entraram em Angola através da rota oriental entrando pela Baixa do Cassange (Rio Cuango), Lundas e anharas do leste (Moxico e Cuando-Cubango).

Ainda sujeito a confirmação através de estudos mais apurados, acredita-se que os primeiros povos de língua banta a chegarem ao actual território de Angola tenham sido os Bakongo nos Séculos XII ou XIII, vindos do Norte, tomando o curso entre a floresta equatorial e o Oceano Atlântico (a Rota Sul), e que se viriam a estabelecer nas margens do rio Zaire, primeiro a norte e mais tarde atravessaram o mesmo e se espalharam pelo território até á margem do Rio Dande. O povoamento Banto da região foi lento, e na forma inicial de povoações independentes sem poder político centralizado até aos finais do Século XIV, quando se formou o que mais tarde viria a ser o Antigo Reino do Congo.

Os Ambundos vindos através da margem leste do rio Cuango expandiram-se pelas bacias dos rios Lucala e Cuanza até à sua foz, estabelecendo um número de sobados independentes que se consolidaram no que viria a ser o Reino de Angola.

O povo Herero, de modo de produção pastoril, se bem que oriundo dos Grandes Lagos, chegou à região Sudoeste de Angola (a sul de Benguela) através da rota ao longo da costa atlântica, mas vindos do sul (Namíbia). As populações de raíz Banta acabaram eventualmente por dominar a maior parte do território, estimando-se actualmente em cerca de 12 milhões de pessoas em Angola.


6. Terras de Sebaste: Reinos de Congo, Angola e Benguela

A carta de donataria de Paulo Dias de Novais de 1571 continha o esboço do território original do Reino de Angola, que incluia então a região entre a Barra do Dande (a norte de Luanda) e a Barra do Quanza, na actual região da Quissama. De facto, a donataria de Paulo Dias de Novais previa dois tipos de territórios, a saber:

1) - A região compreendida entre os rios Dande e Cuanza que se estendia para o interior até onde a conquista chegasse, doada somente em vida e revertendo para a corôa após a sua morte; e,

2) - A faixa costeira de 35 léguas a sul da Barra do Cuanza e terra a dentro, como património hereditário indivisível e inalienável de Paulo Dias de Novais e seus descendentes.

É bom relembrar aqui que em termos de cronologia, os Portugueses concentraram a sua actividade primeiro no Antigo Reino do Congo, depois no Reino de Angola, e mais tarde (já nos princípios do Século XVII), no Reino de Benguela. Os objectivos principais dos Portugueses foram inicialmente o comércio com os povos locais, o tráfico de escravos, e a exploração de minas de prata (que nunca foram encontradas); contudo o tráfico de escravos veio a prevalecer como actividade económica única, confirmando a região como uma das principais fornecedoras de escravos para o Novo Mundo, nos próximos 350 anos.

O Reino de Benguela foi uma criação dos Portugueses, pois de facto tal reino nunca existiu, e referia-se à região costeira a sul dos reinos da Quissama (na margem Sul da Barra do Cuanza)e do Libolo, passando pela baía do Quicombo, até à foz do Rio Caporolo, a sul da actual cidade de Benguela. Para o interior, o Reino de Benguela cobria as regiões do Amboím e do Seles, e para Sul até às fraldas dos planaltos do Huambo, Caconda e Quilengues, que na altura estavam sob o domínio dos Jagados Ovimbundos.

O Reino de Benguela era assim constituído por um grupo de potentados africanos independentes que os Portugueses tentaram dominar no intuito de expandir a captura e troca de escravos para além dos reinos do Congo e de Angola, que rapidamente perdiam população, e que assim não podiam garantir um oferta sustentável de escravos para os engenhos de açúcar do Brasil.

Alguns estudiosos da História de Angola defendem o argumento que a criação de uma possessão autónoma na região era necessária como alternativa a Luanda, tendo em vista o desafio holandês na região. De acordo com este ponto de vista, os Portugueses criaram a possessão autónoma de Benguela como "válvula de escape", com receio da perda de Luanda, e com ela todo o acesso ao comércio negreiro no Atlântico Sul.

Durante um breve interregno de sete anos (1617-24), e graças ao esforço de Manuel Cerveira Pereira, que fundou a Cidade de São Filipe de Benguela em 1617, na Baía das Vacas, o Reino de Benguela esteve separado do Reino de Angola, como capitania-geral e governador próprios e directamente ligada a Lisboa; contudo, a sua existência foi efémera, pois em 1624 foi incorporado permanentemente e subordinada à autoridade do Governador e Capitão-General da Colónia de Angola.

Já no Século XVIII, e durante o consulado do governador pombalino Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho Benguela serviu de base para a conquista das terras do Libolo, do Jaga Huambo, do Jaga Caconda, e das terras do Nano (Quilengues), e das terras altas da Huíla, sem contudo os Portugueses assegurarem uma permanência duradoura nos Planaltos do Huambo e da Huíla.

3.1 Donde Vem o Nome "Angola"?



1. Os N'Golas

O nome "Angola" tem raíz no termo "Ngola" que era título de um dos potentados Ambundos que existia no Antigo Reino do Ndongo, entre o Anzele, Ambaca e Pungo Andongo (nas actuais províncias do Bengo, Kwanza Norte, Kwanza Sul e Malange) no tempo do início da expansão da influência dos portugueses sobre o Antigo Reino de Ndongo, na segunda metade do Século XVI.

O termo "Ngola" tem por sua vez raíz no termo "Ngolo", o que em quimbundo (língua do povo Ambundo) significa "força", de acordo com o "Ensaio de Diccionário Kinbundu-Portuguez", preparado por Joaquim Dias Cordeiro da Matta, impresso na Typographia e Stereotypia Moderna da Casa Editora António Maria Pereira, e publicado em Lisboa no ano de 1893. O mesmo termo em quicongo significa "rigor, força, fortaleza, ou robustez". Os Portugueses depreenderam assim que o Ngola era aquele que tinha força, aquele que era poderoso.

Apesar de inicialmente o nome e título de Ngola se aplicar sómente aos potentados e região ao longo do curso superior dos rios Lucala e Cuanza, o uso do termo passou a aplicar-se a outras regiões e chefes vizinhos que viriam formar eventualmente o núcleo do domínio português na região. Aos chefes Ngola os Portugueses chamavam-nos "Ngola" e à região chamavam as "Terras do Ngola".

Desde então, as terras vizinhas ao longo dos rios Lucala e Cuanza, sob a tutela dos Ngola e mais tarde conquistadas pelos portugueses, passaram a ser chamadas e reconhecidas nos mapas e documentos oficiais da época como "Terras do Ngola", depois como "Terras d'Angola", e desde então a colónia portuguesa passou a chamar-se simplesmente "Angola".

Da mesma forma, e conforme Ferreira Diniz (Populações Indígenas de Angola, Imprensa da Universidade, Coimbra, 1918), o nome Ngola acabou por aplicar-se também a alguns grupos do povo Ambundo que ocupavam o mesmo território, incluindo os Ambaquistas, Golungos, Cabires e Dondos, que habitavam a região entre os rios Cuanza, Lifune e Zenza, e que se estendia até aos rios Cuiji (afluente do Cuango) e Gola Luige (afluente do Lucala).


2. Paulo Dias de Novais e o Reyno de Angola

Paulo Dias de Novais passou cinco anos de cativeiro na corte do legendário Rei de Ndongo Ngola Kiluanji, entre 1560 e 1565, após os quais foi libertado com o auxílio "de uma princesa filha daquele rei" sob a promessa de ir a Portugal arranjar socorro militar contra a campanha iniciada por Kiloango-Kiacongo, um poderoso rival de Ngola Kiluanji. Paulo Dias de Novais saíu de Lisboa em 23 de Outubro de 1574 e chegou à Ilha das Cabras (Ilha de Luanda) a 20 de Fevereiro de 1575, onde 3xistiam cerca de sete povoados e onde encontrou sete barcos e cerca de 40 portugueses ricos do negócio negreiro, que se haviam refugiado dos Jagas e se encontravam lá vivendo; Os Portugueses já deviam de habitar na Ilha das Cabras já há alguns anos, pois nesta também encontrou uma igreja e um cura.

Paulo Dias de Novais manteve-se na Ilha de Luanda, onde recebeu uma embaixada do Rei Ngola Kiluanji Kiassamba a 29 de Junho de 1576, quando recebeu permissão deste para se mudar para terra firme, mais exactamente para o morro que chamou de São Paulo, onde fundou a povoação de São Paulo de Loanda, como porto negreiro e baluarte militar português próximo da foz do Rio Cuanza.

Era nas areias das praias da Ilha das Cabras, berço do povo Muxiluanda, que os oficiais do Manicongo (o Rei do Congo) recolhiam os Zimbos (conchas de búzios pequenos), que serviam de moeda corrente para transacções comerciais nas feiras muito activas nas feiras no interior das províncias do Antigo Reino do Congo.

Durante séculos, Luanda foi o porto negreiro mais importante da costa atlântica de África. Os escravos eram guardados em áreas cercadas (currais) situadas na área actual das Ingombotas, durante a espera de embarque para o Novo Mundo. O primeiro cemitério foi situado na área imediatamente a montante (acima) das Ingombotas, onde as campas razas eram assinaladas com cruzes. Os corpos dos escravos que morriam nos currais durante esta espera de embarque para a Passagem do Meio, que podia demorar muitos meses, eram levados para a área do Maculusso (área das cruzes - de "cruces"/ ""klusses"), imediatamente a montante das Ingombotas, onde eram sepultados ou, em muitos casos, simplesmente deixados como alimento às hienas, leões e outros animais selvagens que por aí rondavam em procura de alimento.

No seu regresso às terras de Ngola Kiluanji, Paulo Dias de Novais vinha munido de uma Carta de Donataria conferida em 1571 por El-Rei D. Sebastião de Portugal, em que era reconhecido como "Governador e Capitão-Mor, conquistador e povoador do Reyno de Sebaste na Conquista da Etiópia ou Guiné Inferior.", sendo até essa data a região conhecida como "Terras do Sebaste", em honra de El-Rei D. Sebastião. A carta de doação era baseada no modelo das cartas de doação das capitanias brasileiras, que tinham sido usadas sem grande sucesso na colonização do Brasil, algumas décadas antes. A carta de donataria requeria a expansão do território para norte até às margens do Rio Dande (Bengo) e para sul e para o interior ao longo do curso do Rio Cuanza.

Este foi o primeiro documento oficial em que os Portugueses fazem referência e designam a região por Reyno de Angola, quando de facto tal termo se referisse mais a um conjunto de potentados locais e regionais e não a um só potentado em particular, relativamente independentes uns dos outros, mas todos sujeitos a certa forma de vassalagem para com os Portugueses. Só mais tarde é que Paulo Dias de Novais é oficialmente reconhecido pela primeira vez como Capitão-General e Governador do Reyno de Angola.

Em breve Paulo Dias de Novais rumou com destino às terras do Ndongo, em procura das legendárias minas de prata de Cambambe, ao longo do vale do Rio Quanza até à confluência do Rio Lucala, no lugar da Vila de Nossa Senhora da Vitória de Massangano, que viria a fundar em 1583. Paulo Dias de Novais faleceu a 9 de Maio de 1589 em Massangano, depois de ter vivido os últimos 14 anos da sua vida nas insalúbres terras de Angola, e foi sepultado em frente à Igreja de Nossa Senhora da Vitória, em Massangano, em túmulo de pedra, e as suas cinzas foram mais tarde transladadas para a Igreja dos Jesuítas em Luanda, pelo Governador Bento Banha Cardoso em 1609.


3. A Povoação de S. Paulo de Loanda

A escolha do local para a povoação de S.Paulo foi influenciada sobremaneira pela existência de um porto natural magnífico situado dentro de uma baía protegida por uma ilha, ideal para a navegação, de uma fonte de água potável (as águas do Poço da Maianga na (então) Lagoa dos Elefantes), e do morro de São Paulo (o morro onde mais tarde se passou a designar como Morro de S. Miguel , onde se construiu a Fortaleza de S. Miguel) com meios excelentes de defesa militar, junto ao mar e ligado ao plateau que se expandia para o interior. Foi no morro de São Paulo onde a primeira sede do governo e instalações militares portuguesas foram construídas, já que o morro oferecia meios de defesa superiores aos do local da foz do Cuanza, situado a cerca de dez léguas mais a Sul. A povoação de São Paulo de Loanda expandiu-se depois para a "Cidade Alta", onde se construiram as instalações para a administração civil e religiosa, como a camara municipal, a junta de fazenda, o tribunal, várias igrejas e conventos, e o Colégio dos Jesuítas. Os soldados e mercadores de escravos viviam na "Cidade Baixa", na área actual dos Coqueiros. O foral de cidade foi concedido em 1605, quando se constituiu a primeira vereação municipal.

O nome da povoação original era de Vila de S. Paulo, fundada por Paulo Dias de Novais em 1576. O nome de S. Paulo deriva do nome do seu fundador, o Governador e Capitão General Paulo Dias de Novais, e também do nome do soba Paulo Manicabunga, nesse tempo "a quem de direito pertencia todas estas terras que confinam com Angola". Contrariamente à tese de alguns estudiosos, o nome de S. Paulo não está relacionado com o dia de S. Paulo, que é 19 de Janeiro, já que nenhum acontecimento especial teve lugar nesse dia durante os primórdios da vida da Vila de S. Paulo.

Cedo o nome Loanda foi adicionado à vila, passando então a conhecer-se por S. Paulo de Loanda. Duarte Lopez, que esteve em Luanda entre 1578 e 1579, e relatado na sua obra por Fillipo Pigafetta "Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas" (página 33) é quem primeiro nos revela o significado do termo "Loanda", em relação à Ilha de Luanda, cordão sedimentar de cerca de léguas, a norte da foz do Rio Cuanza, e formada por este, inicialmente conhecida como Ilha das Cabras, que "quere dizer naquela língua, terra baixa, sem montes e baixa, que ela pouco se levanta sobre o Oceano e é feita de areia e vaza do mar e do Rio Cuanza".


4. O Termo "Loanda"

Porém, o termo "Loanda" serve também para designar tributo, o que levou o Dr. José Pereira do Nascimento nos princípios do Século XX a afirmar que "o nome Loanda (cidade) significa tributo que os antigos moradores pagavam ao Rei do Congo com búzio, zimbo apanhado na ila do mesmo nome."

De acordo com Carlos Alberto Lopes Cardoso na sua obra "Os Axiluanda", publicado em Luanda pela Editorial Culturang, sem data certa (1971 ou 1972), "Os Luanda (tributários), como parece terem sido conhecidos os primitivos naturais da Ilha de Luanda, além da recolha do njimbu praticavam a pesca com redes rudimentares e daí lhes provém o nome Axiluanda (lançadores de rede), senão vejamos: «com o decorrer dos tempos, e pela lei de analogia, que a filosofia admite no estudo de qualquer língua, o nome Luanda estendeu-se às redes de pesca, e depois a toda a espécie de redes, tal como aconteceu com o termo mundele que, significando primitivamente homem branco, passou mais tarde a designar também, sobretudo fora de Luanda, todo e qualquer indivíduo, sem distinção de cor ou raça, que pelos seus usos e costumes se assemelha aos europeus» (Lourenço Marques da Conceição - "Porque se escreve Luanda com "U", Tipografia da Missão Católica de Luanda, Luanda, 1943, página 45."

Com a reconquista de de Angola e a expulsão dos Holandeses de Angola em 1648 pela esquadra luso-brasileira sob o comando de Salvador Correia de Sá e Benevides, o nome da cidade foi mudado para "S. Paulo da Assumpção de Loanda", porque o antigo nome de Loanda tinha muita parecença com "Holanda", e em memória de Nossa Senhora da Assunção, em cujo dia (15 de Agosto de 1648) se restaurou o domínio Português sobre a colónia de Angola, e hoje feriado municipal.

Ainda de acordo com Carlos Alberto Lopes Cardoso, só em Abril de 1927 é que "Loanda" passou a "Luanda", e graças ao esforço do Padre Ruela Pombo, grande estudioso da História de Angola, quando o Governo Geral assim o determinou como uso oficial e obrigatório, o que vinha sendo advogado pela elite intelectual angolense desde os princípios do Século.


5. Loanda Escrita com "O"

Pelo seu interesse, passo a transcrever aqui as notas de Manuel da Costa Lobo, na sua obra "Subsídios para a História de Luanda", edição do autor, Lisboa, 1967, páginas 207 e 208:

"Durante centenas de anos Luanda, limitada, por assim dizer, a meia dúzia de ruas, não tinha, por isso,necessidade de lhes dar designação oficial, sendo os seus vários pontos mais conhecidos pelos nomes dos bairros em que se situavam.

Assim, pelas relações antigas que se referem ao assunto, verifica-se que de Norte para Sul a esses bairros eram dadas as seguintes designações:

Quipacas - Onde está situada a estação da cidade baixa
Nazaré - Onde está a Igreja de Nª. Sª. da Nazaré
Bungo - Desde a Nazaré até à Caponta
Katomba - Onde foi o Largo António de Oliveira Cadornea
Mutamba - Actual Largo do Almirante Baptista de Andrade
Mazuika - Ficava nas traseiras da Igreja do Carmo
Kafaco - Onde hoje, a meio da Rua Luis de Camões, vem desembocar a rua que passava em frente ao Colégio das Irmãs de S. José de Cluny.
Maculusso - Situado no bairro deste nome. Maculusso é um termo do quimbundo que significa cruzes. Era o lugar onde noutros tempos se enterravam os indígenas e se punham as cruzes sepulcrais.
Ingombotas - Localizado no bairro deste nome.
Sangandombe - Onde hoje é o bairro "Ferreiras", por detrás do edifício das Obras Públicas e onde, antigamente, viviam os indígenas oleiros que fabricavam bilhas debarro preto.
Quibando - Local onde estão edificadas as instalações do Nacional Cine Teatro.
Katari - Onde actualmente é o Largo do Pelourinho. Katari em quimbundo quer dizer lugar de suplício.
Remédios - Nas imediações da actual Sé Episcopal.
Quitanda - Lugar em que se situava a «Quitanda-Grande» defronte do actual Largo Luís Lopes de Sequeira.
Coqueiros - Localizado no bairro deste nome.
Terreiro - Onde fica hoje o Largo Infante D. Henrique.
S. Miguel - Nas proximidades da Fortaleza de S. Miguel.
Misericórdia - Nas imediações da actual Igreja de Nª. Sª. da Conceição.
Maianga - Localizado no bairro deste nome, atrás do Hospital."


6. O Reyno do Congo e a Ligação Terrestre Para o Preste João

É importante notar aqui que desde a sua chegada ao Congo em 1481 até à criação da colónia de Angola em 1575, os Portugueses estavam de facto mais preocupados em encontrar uma ligação directa e rápida entre a costa atlântica e as terras do Reino do Preste João (rei Cristão da Etiópia), de forma a encurtar a viagem de navegação à volta de África, que tanto risco e perda de vida causava aos Portugueses no seu comércio com a Índia. Assim, a incursão de Diogo Cão através do Rio Poderoso (Zaire) até às Quedas do Ielala, perto de Matadi, obedecia de facto a instruções secretas de procurar uma ligação pelo interior de África (através do Rio Zaire) até às famosas terras do Preste João. De facto, a toda esta região de África, os Portugueses chamaram inicialmente "Etiópia Inferior".

Em 1521 o Rei D. Manuel de Portugal conferiu ao explorador Gregório de Quadra o comando de uma expedição que tinha por objectivo a travessia para a outra costa, através do Rio Zaire até ao Grande Lago Central de África, de onde era fácil atingir as Terras do Preste João. Contudo, por razões de vária ordem, tal expedição nunca deixou o Zaire.

Em 1575, quase oitenta anos depois, o objectivo de ligar o Congo à Etiópia, ainda se manifestava oficialmente através do título oficial dado a Paulo Dias de Novais, como Governador e Capitão-Mor, conquistador e povoador do Reyno de Sebaste, na Conquista da Etiópia ou Guiné Inferior.

Ainda em 1591, Duarte Lopez, através da pena de Filippo Pigafetta, dizia na sua "Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas" quando descrevia o Reino dos Anzicos: "O dito lado, portanto, fecha, [apartando-o] para a banda do Ponente, mais para o Oriente 150 milhas, corre o Nilo, encerrando uma região que abunda das cousas sobreditas, possuídas de vários Senhores, uns obedientes ao Preste João, [nosso sublinhado] e outros ao mui grande Rei Moenhemuge; em que afirmava não haver outra cousa mais que notar senão: do Nilo para Ocidente os povos comerciarem no Reino do Congo e nas ribeiras do seu mar; e os da banda de além, no Oriente, irem pelos reinos de Moenhumuge até ao pélago de Mombaça e de Moçambique.", em confirmação da tese do possível acesso directo às terras do Preste João a partir da foz do Zaire. (*Ver nota no fim deste post)


7. Manuel Cerveira Pereira e o Reyno de Benguella

A região de Benguela, antes da chegada dos Portugueses, era habitada por povos bantos criadores de gado, que tudo indica serem de ascendência Herero, vindos do Sul. De facto, a baía de Benguela foi durante muito tempo conhecida como Baía das Vacas, por lá os Portugueses terem avistado (e roubado) muito gado aos povovos da região. A região era ainda habitada por grupos nómadas de Khoisan, que há muito se tinham adaptado à secura da região.

O primeiro contacto dos Portugueses com a baía de Benguela teve lugar na segunda viagem de Diogo Cão, em 1493, que aí ancorou a 5 de Agosto e à qual deu o nome de Angra de Santa Maria. Ao Rio Catumbela, Diogo Cão deu o nome de Rio do Paúl.

De acordo com Gastão Sousa Dias na sua obra "Os Portugueses em Angola", edição da Agência Geral do Ultramar, Lisboa, 1959, p.p. 99 e 100, lembra-nos que em 1615 o Rei Filipe II de Portugal (e III de Espanha) separou o Reino de Benguela do governo de Angola "De meu poder real e absoluto, me praz e hei por bem,por esta presente provisão, a capitania, conquista e governo das províncias do dito Reino de Benguela [...] e por ela as erijo e ao dito reino em novo governo, para que de hoje em diante tenham separada a jurisdição e governador", nomeando como Governador, Conquistador e Povoador de Benguela ao mesmo tempo governador de Angola Manuel Cerveira Pereira.

O objectivo principal da criação da nova colónia era a procura e exploração eventual das minas de cobre do Sumbe Ambela, a norte da foz do Rio Cuvo (ou Queve), e a sul de Benguela-Velha, a primeira povoação portuguesa na região, mais tarde extinta, perto da actual cidade de Porto Amboím.

Manuel Cerveira Pereira deixou Luanda a 11 de Abril de 1617 à frente de uma expedição de 130 homens e rumou sul sempre ao longo da costa até que chegou à Baía das Vacas a 17 de Maio. Aí Manuel Cerveira Pereira fundou a povoação de S. Filipe de Benguela, que havia de ser a capital do novo domínio português a sul de Angola.


8. Adopção da Nomenclatura Dinástica e Nobiliárquica Portuguesa

Desde cedo os Portugueses chamaram "reis" aos chefes africanos, e desde cedo as nomenclaturas dinástica e nobiliárquica portuguesas foram adoptadas pelos potentados africanos, tornando-se comum o título de rei e de certos títulos nobiliárquicos como duque, marquês, conde e barão. A exemplo de Portugal, em que o Rei D. Manuel era "Rei de Portugal e dos Algarves, Senhor d'Aquém e d'Além Mar em África, etc. ...", o Rei D. Afonso I do Antigo Reino do Congo, intitulava-se "Por graça de Deus, Rey do Congo, e Ibundo, Cacongo e Ngoio, daquém e de além Zaire, Senhor dos Ambundos e de Angola, d'Aquissama e Musuaru, de Matamba e de Muílo, do Mussuco e dos Anzicos, da conquista de Pango Alumbo, etc..."

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9. Extracto do Artigo "N'Gola" da Autoria do Dr. José Redinha

Numa tentativa de encontrar a raíz e o percurso histórico do termo "Ngola", o Dr. José Redinha investigou a origem do termo e concluiu que o termo teria origem além Cuango. Pelo seu interesse, a seguir transcrevo vários trechos do seu artigo "Ngola", inserido no Boletim Cultural da Câmara Municipal de Luanda, Nº 23, Abril - Junho, 1969, páginas 25-31:

"Ngola é um nome, foi um título, e alastrou à designação de uma etnia: os Ngolas ou Angolas. Mais ainda, este nome expandiu às dimensões da Província, pois o seu nome Angola dele deriva.

No entanto, deste nome famoso não se sabe muito quanto ao esquema histórico. Sabe-se muito pouco quanto às suas origens que, com certeza, transbordam para além dos limites do território português.

Deste aspecto estamos certos, porque nós próprios pesquisámos e percorremos longos trechos dum caminho designado de Ngola, neste caso Ngola Tchiloanje tcha Samba, que penetrava na Província pela fronteira do Cassai. Por essa via marchou, com aguerrido bando, em épocas que parecem situar-se no Século XVI, aquele famoso chefe gentílico, saído da região de Samba, na Catanga Ocidental, com rumo à região e Malange. Até ao Cuango, pesquisámos-lhe o rasto, e um regime de tradição bastante coerente. Do Cuango para lá, para Oeste, não conseguimos nem obtivemos informes suficientemente explícitos, tudo se limitando à versão de que este chefe migrante se fixara a sul do actual Duque de Bragança (Calandula), numa área chamada Quinzama.

Temos assim algumas razões averiguadas em abono da afrimativa de que os Ngolas procedem de além fronteiras. É particularmente na região que decorre entre Pungo-Andongo e o Duque, que o complexo histórico dos Ngolas toma proporção, quer pelas suas relações com os sobas do Cuanza, quer pelas alianças com a Jinga.

Certo é que, Ngolas aureloados de prestígio e reputação guerreira desceram para o litoral, particularmente para o Cuanza, facto que levou os cronistas à repetida expressão de que «o Cuanza é o rio dos Muene Ngolas».

A guerra, a técnica e a política social seriam os grandes predicados destes Ngolas, entre os quais, pelo menos um deles terá atingido a posição de herói civilizador, em especial pelo seu conhecimento e divulgação das artes siderúrgicas, na zona litoral.

...

O nome Ngola encontra-se confusamente envolvido com o dos Jagas, chefes guerreiros, que assolaram Angola com temíveis hostes, a partir do Século XVI, apavorando com as suas correrias grande parte das populações da Província. Certo é que alguns antigos Ngolas usaram o título de Jaga, embora não esteja esclarecido em que medida o título correspondia a alguma entidade étnica ou grupal, ou constituía designação honorífica, e algumas vezes com solenidade, como aconteceu com Tchinguri em 1606 ou 1609, no Palácio dos Governadores, em Luanda.

Entre os Africanos, o nome de Ngola assumiu uma popularidade lendária e folclórica verdadeiramente notável. Desde dos arredores de Luanda, a Matamba (Duque de Bragança) a terra está assinalada por contos, anedotas, peripécias e aventuras relativas ao Ngola, e em Pungo-Andongo, o nome de alguns grandes monólitos evocam o remoto chefe gentílico, como por exemplo «Ngola Nganzo», que nos traduziram por «espelho do Ngola».

Este renome de Ngola, tanto se encontra na tradição oral, como nas páginas históricas: ao Ngola Inene, reinante em 1557, apontou Felner (**) como «o mais importante Soba dos Ambundos», acrescentando que a sorte o favoreceu tornando-o dia-a-dia mais poderoso.

Nas muitas lendas que envolvem o nome de Ngola, uma delas refere-se a uma espécie de caixa forte ou reduto, excepcionalmente resistente, e de tal sorte, que nunca ninguém o consegiu demolir. Conta-se também que, o facto do mar ser salgado é a consequência de uma vingança do Ngola, pois, tendo sido preso pelos Portugueses em Pungo-Andongo, para os acompanhar a Luanda, amarrou na ponta de um manto um punhado de sal gema das minas do Cuango, lançando-o à água logo que se aproximou da beira-mar.

...

Conforme ficou dito anteriormente, o nome de Ngola difunde-se aos povos que constituíram os mais lídimos grupos da sua jurisdição. Seriam grupos de povos litorânios e do próximo interior, entre eles, e talvez os mais numerosos, os Ambundos, que se alistaram no grupo de Ngola e se submeteram ao seu poder, passando a usar a designação de Ngolas, significado gente do Ngola. Trata-se de certo modo de uma designação aristocrática, distinguindo-se por ela dos restantes grupos avulsos de chefia fraca ou mesmo difusa.

Por outro lado, é de admtir que ao Ngola muito conviesse esta reorganização dos Ambundos em sua volta, e para engrossamento das suas hostes, contra os reis Congueses, com os quais se havia de bater fortemente na linha do Dande em 1556. Neles encontraria também bons aliados, ressentidos da sua expulsão do Congo, onde seriam ainda numerosos nos finais do Século XV.

...

A história de Ngola, nome de homen e título de chefe que usamos em síntese dos diversos Ngolas, é uma história cheia de interesse. É de crer que na figura de Ngola Inene, que em 1557 enviara embaixadores a D. João III de Portugal, se possa resumir o clã dos Ngolas.

Neste ou em outro a averiguar, deveríamos sintetizar o soberano do velho reino de Angola, e perpetuá-lo num monumento, talvez a par com Novais, recordando os seus encontros, a sua amizade, as suas alianças, até os seus desentendimentos. Além de tudo, e acima das circunstâncias variadas que caracterizaram as suas relações, são duas figuras interessantes de fundadores, na base da História de Angola.

A Câmara Municipal de Luanda, nos seus programas de obras de arte, bem podia incluir, para momento oportuno, a estátua do afamado rei dos Ngolas."


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10. Notas Importantes

(*)
A tese da ligação por rio e terra entre o Congo e as Terras do Preste João através do Zaire pelo interior de África como um dos objectivos da estratégia da expansão Portuguesa na Bacia do Congo aqui desenvolvida, foi baseada num manuscrito não publicado de António Caldeira Lobato Torres, gentilmente cedido recentemente por sua filha Celeste Torres (a Letinha, da nossa SanzalAngola).

(**) ANGOLA - Apontamentos Sôbre a Ocupação e Início dos Estabelecimento dos Portugueses no Congo, Angola e Benguela
(História Colonial dos Portugueses) extraídos de documentos históricos, coligidos por Alfredo de Albuquerque Felner, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933.

3.0 Sumário do Capítulo


O Objectivo deste capítulo é introduzir o leitor ao estudo da História de Angola.

Cubro primeiro a origem do nome "Angola" e o que entendo por Angola em termos da sua evolução ao longo dos últimos cinco séculos, e depois ofereço uma análize sobre o impacto da diversidade dos povos de Angola na sua história.

Descrevo e explico em seguida os grandes períodos em que se pode dividir a História de Angola, para o seu melhor estudo. Cubro depois alguns porquês do estudo da História de Angola nos planos social e individual, histórico e presente, e em como o seu estudo pode contribuir para uma cidadania e vivência mais esclarecidas.

Ofereço depois uma análise crítica (muito sucinta) das fontes da História de Angola, incluindo a investigação arqueológica, história oral, histórias de criação, lendas e mitos, documentação escrita e bibliografia.

Cubro depois o estudo da "arritmia" ("Tempos Diferentes ao Mesmo Tempo...") característica na cadência da evolução histórica de Angola e dos seus povos.

Faço ainda uma breve referência às lacunas de conhecimento em vastas áreas da História de Angola ("Tanta História Ainda por Contar..."), e ao esforço necessário para as colmatar, em especial de se traduzir para português o número crescente de obras importantes de autores estrangeiros, e a maior difusão de obras importantes de historiadores brasileiros, ambos contribuindo para um melhor conhecimento da História de Angola.

Por fim, cubro ainda algumas questões relacionadas com a linguagem, estilo, ortografia e toponímia que usei no texto, e de algumas limitações nas fontes de referência.