3 - Introdução ao Estudo da História de Angola

Name:
Location: Cranbrook, Colômbia Britânica, Canada

Helder Fernando de Pinto Correia Ponte, também conhecido por Chinguila nos seus anos de juventude em Luanda, Angola. Nasceu em Maquela do Zombo, Uíge, Angola, em 1950. Viveu a sua meninice na Roça Novo Fratel (Serra do Cusso) e na Vila da Damba (Uíge), e a sua juventude em Luanda e Cabinda. Frequentou os liceus Paulo Dias de Novais e Salvador Correia, e o Curso Superior de Economia da antiga Universidade de Luanda. Cumpriu serviço militar como oficial miliciano do Serviço de Intendência (logística) no Exército Português em Luanda e Cabinda. Deixou Angola em Novembro de 1975 e emigrou para o Canadá em 1979, onde vive com a sua esposa Estela (Princesa do Huambo) e filho Marco Alexandre. Foi gestor de um grupo de empresas de propriedade dos Índios Kootenay, na Colômbia Britânica, no sopé oeste das Montanhas Rochosas Canadianas.Gosta da leitura e do estudo, e adora escrever sobre a História de Angola, de África e do Atlântico Sul, com ênfase na Escravatura, sobre os quais tem uma biblioteca pessoal extensa.

Monday, May 29, 2006

3.9 Angola na História do Mundo

 

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Mencionei já nesta Viagem que o estudo da História de Angola não ocorre num vácuo, ou numa proveta de laboratório, nem se limita ao que aconteceu em Angola somente. O seu estudo tem que ter em atenção o que se passou ou passava nos estados ou povos mais chegados a Angola ao longo dos tempos. Precisamos assim de relacionar Angola com o resto do mundo, e investigar as influências que recebeu do exterior e a influência que exerceu nos povos da África Central, no Atlântico Sul, nas Américas, na Europa, e mesmo no mundo; em poucas palavras, é necessário enquadrar a História de Angola na História Universal.

Assim é importante relacionar a História de Angola com a história dos povos Bantos que cedo se estabeleceram no que hoje chamamos território de Angola; com a história de Portugal como potência colonial de cinco séculos; com a história do Brasil, nação irmã e cliente mais importante na parceria do tráfico de escravos - onde hoje há mais descendentes de africanos do que africanos em Angola; e com a própria história geral de África - seja de povos próximo como os do Congo ou de São Tomé, ou de sociedades ou culturas mais distantes no espaço e no tempo, como o a civilização Suahili na costa oriental de África ou mesmo da República da África do Sul nos tempos mais recentes.

É ainda necessário relacionar a História de Angola com a história atlântica e de todos os seus povos ribeirinhos, como a América Latina (antigas colónias de Espanha e Portugal), as Antilhas, a Holanda, a Inglaterra, a França, e até os Estados Unidos da América; de realçar o papel do tráfico de escravos angolanos na economia mundial do século XVI ao século XIX.

É bom lembrar que desde a sua imersão na economia e história mundiais nos finais do Século XV, os povos de Angola, embora hoje um pouco arredados dos centros de decisão mundial, estiveram no cerne de três grandes desenvolvimentos da história da humanidade nos últimos quinhentos anos. A saber,

a) Os escravos levados de Angola e da bacia do Congo aguentaram durante mais de 350 anos a carga mais difícil na construção do Novo Mundo (Brasil, Antilhas e Estados Unidos) e alimentaram a riqueza económica e preponderância política da Europa durante o mesmo período;

b) As disputas territoriais em Angola entre Portugal (Lunda, Foz do Zaire, costa da região do Ambriz, e bacia dos rios Lungué Bungo e Zambeze no Moxico) e Leopoldo II da Bélgica (Lunda e Katanga, Estado Livre do Congo) foram o pomo de discórdia que levou à realização da Conferência de Berlim onde a consequente partilha de África teve lugar e onde nasceram os impérios coloniais europeus que haviam de perdurar cerca de um século; e,

c) Foi nas chanas das Terras do Fim-do-Mundo em Angola (Cuito Cuanavale) que se travaram as batalhas finais mais decisivas da Guerra Fria , o que eventualmente resultou no desmoronar dos bastiões brancos em África (Rodésia, Sudoeste Africano e o regime de apartheid na República da África do Sul), e na queda final da experência marxista-leninista de 70 anos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) na Europa Oriental e Ásia Central.

Assim, vamos rever em mais detalhe nos próximos três capítulos cada um destes três i,portantes desenvolvimentos históricos de forma a podermos compreender melhor o papel de Angola na história da humanidade.



Nota ao Leitor:

Encontrarás nesta Viagem algumas vinhetas cujos temas não aparentam uma ligação directa ou imediata com a História de Angola; contudo elas são importantes para uma melhor compreensão do que pretendo expôr. Estas vinhetas expõem o contexto regional, global e temporal em que a História de Angola se desenrolou, ajudando assim a enriquecer a nossa compreensão dos factores externos mais relevantes que a moldaram.

3.8 Tanta História Ainda por Contar...


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1. Muito Ainda Está por Estudar e Escrever

Apesar dos povos antigos que habitavam o que hoje chamamos o território de Angola serem pobres em documentos escritos, a sua história é muito rica, e apesar do grande esforço de um bom número de investigadores de história, o conhecimento da História de Angola é ainda hoje muito incompleto. 
 
Com efeito, podemos dizer que a história completa de Angola está ainda por escrever, pois existem muitas lacunas muito extensas no seu corpo de conhecimento. Há períodos completos ou grupos étnicos inteiros sobre os quais pouco ou nada se sabe da sua história. O que se lê nos livros de histórias são ainda apenas conjecturas. Como exemplos citamos apenas a história de alguns povos bantos que vieram ocupar Angola, e ainda menos o que se sabe sobre a história dos povos que viveram no território a que hoje chamamos Angola antes da chegada dos povos Banto, como os povos Mbuti e San, e mesmo ainda sobre os povos que resultaram dessa misceginação ao longo dos séculos, como os Cuíssis e os Cuepes. Menos ainda sabemos sobre povos hoje extintos, como os Ovakuanbundo do Namibe.

No caso específico desta Viagem Pela História de Angola, menciono o exemplo das migrações dos povos Bantos e o seu impacto nas populações que até aí ocupavam o território de Angola, que desconhecemos quase completamente. De facto, com a excepção do corpo magro de conhecimento arqueológico muito escasso de estudos sobre o Antigo Reino do Congo e de alguns povos do planalto e da savana, e da pesquisa sobre o tráfico de escravos e sobre as Campanhas Militares de Ocupação, pouco mais se sabe, pois não existe ainda um corpo de conhecimento histórico organizado estabelecido para os outros povos de Angola. Vêmos mapas com setas indicando a rota  provavel das migrações desses povos, mas de facto pouco ou nada sabemos sobre o seu passado e evolução histórica. 

Para os portuguêses dos Séculos XVI ou XVII interessados na história dos Antigo Reino do Congo e do Reino de Ndongo (Angola), o estudo da história (ou melhor, da pré-história) destes povos e os seus percursores na região representava um desafio considerável, já que o modelo de criação com base na Bíblia Judeo-Cristã que explicava a história dos povos da Europa e do Próximo-Oriente do seu tempo, o não podia acomodar e muito menos explicar, e a ausência de fontes escritas revelavam-se como uma parede intransponível para o estudo efectivo da sua história. Desde cedo eles reconheceram a utilidade e limitações da história oral, e a dificuldade (quase impossibilidade) em estudar os povos que habitaram a região antes da chegada dos povos de língua Banto.

Em termos de cobertura historiográfica de todos os povos de Angola, os Antigos Reinos do Congo e de Ndongo são decerto os que receberam mais atenção dos historiadores, pelo contacto que eles tiveram com os portugueses. De facto, as fontes de história para estes reinos desde o início do contacto com os Portugueses até ao final do Século XVII são relativamente abundantes, comparando com outras regiões e povos de África a sul do Sahara. Após a abolição da escravatura e do tráfico houve um ressurgimento de estudos e fontes para as regiões de Luanda, Ambaca, Congo, Cabinda, Malembo, Cacongo, Lunda, Benguela, e Moçâmedes, e após a Conferência de Berlim as fontes são melhores na cobertura das campanhas militares de ocupação, embora essas fontes realcem a perspetiva portuguesa e não cubram a perspectiva dos povos ancestrais angolanos.

Sabemos ainda que para além da tradição oral, as fontes primárias para o estudo da história dos povos Ovimbundo, Nganguela, Nhaneca-Humbe, Ambó, Herero, Xindonga e os povos pré-Bantos (San, Cuepes e Cuíssis) desde a sua chegada ao que é hoje o território de Angola até a um passado muito recente (meados do Século XX), são na verdade extremamente limitadas. Por exemplo, eu acredito que o estudo dos fortes muralhados no planalto do Huambo haviam de trazer muitos benefícios à  compreensão da história dos povos e comunidades que os construiram, mas, mais uma vez pouco se tem estudado os mesmos fortes muralhados. 

Na verdade, para a maioria dos povos de Angola, não sabemos exactamente quem eram, como se formaram, como e quando chegaram, e quanto mudaram em termos do seu território desde o tempo do seu relacionamento inicial com outros povos que já viviam nas áreas por onde as suas migrações tiveram lugar. 

Para colmatar algumas destas lacunas é importante que estudemos a extensa documentação existente nos arquivos históricos em Angola, em Portugal e no Brasil.


1. Cronistas e Historiadores Portugueses

Mais próximo de Angola, sugiro uma "re-leitura" dos textos históricos dos cronistas portugueses  Gomes Eannes de Azurara, Rui de Pina, Garcia de Resende, João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Damião de Gois, Duarte Lopez e Filippo Pigafetta (Relação do Reino do Congo e das Terras Circumvizinhas, 1591), Domingos de Abreu e Brito (Um Inquérito À Vida Administrativa e Económica de Angola e do Brasil, 1591, António de Oliveira Cadornega (História Geral das Guerras Angolanas, 1680), Alexandre Elias da Silva Corrêa (História de Angola,1799), João Carlos de Feo Cardoso de Castello Branco e Torres (Memórias Contendo a Biografia do Vice Almirante Luis da Motta Feo e Torres: "A História dos Governadores e Capitaens Generaes de Angola, Desde 1575 até 1825, e a Descripção Geographica e Politica dos Reinos de Angola e de Benguella", 1825), Joaquim Lopes de Lima (Ensaio Sobre a Statística d'Angola e Benguella e Suas Dependências na Costa Occidental d'Africa ao Sul do Equador, 1846), Oliveira Martins (O Brasil e as Colónias Portuguesas), Luciano Cordeiro, João de Mattos e Silva (Contribuição para o Estudo da Região de Cabinda, 1904) à luz de um estudo mais crítico e profundo dos seus testemunhos directos.

 
2. Trabalhos Importantes Sobre a História de Angola

Outros estudiosos da História de Angola mais recentes que são leitura obrigatória para uma melhor compreensão incluem Alfredo Trony, Visconde Paiva Manso, Alberto de Almeida Teixeira, Monsenhor Alves da Cunha, Alfredo de Albuquerque Felner, Padre Ruela Pombo, Francisco Castelbranco, Gastão Sousa Dias, Alberto Ferreira de Lemos, Henrique Galvão, Ralph Delgado, Marcello Caetano, António Brásio, Fernando Batalha, António da Silva Rego, José Gonçalo Santa-Rita, Hélio Felgas, Walter Marques, Manuel da Silva Cunha, Eduardo dos Santos, Martins dos Santos, Júlio de Castro Lopo, Carlos Alberto Garcia, Carlos Couto, José de Almeida Santos, Manuel da Costa Lobo, Norberto Gonzaga, Mário António Fernandes de Oliveira, Manuel Nunes Gabriel, Ilídio Amaral, Cerviño Padrão, Roberto Correia, Jill Dias, Aida Freudenthal, Isabel Castro Henriques, Maria Emília Madeira dos Santos, e mais recentemente Alberto Oliveira Pinto.
 
Pela sua extensão e detalhe, deste grupo de estudiosos ressaltam as obras do Visconde de Paiva Manso "História do Congo, Obra Póstuma", publicada pela Typographia da Academia, em Lisboa, 1877), de
Ralph Delgado (História de Angola, em quatro volumes, edição do Banco de Angola), as obras de Alfredo de Albuquerque Felner (Angola - Apontamentos Sobre a Ocupação e Inicio do Estabelecimento dos Portugueses no Congo, Angola, e Benguela, publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra em 1933) e a sua obra póstuma compilada por Gastão de Sousa Dias em três volumes  "Angola - Apontamentos sobre a Colonização dos Planaltos e Litoral do Sul de Angola, publicada pela Agência Geral das Colónias em 1940, obra póstuma editada por Gastão Sousa Dias).
 
A "História do Congo" do Visconde de Paiva Manso (o famoso causídico Levi Maria Jordão 1831-75) é uma compilação de documentos históricos importantes coevos aos principios da conquista e ocupação portuguesa de Angola, publicada postumamente em 1877 pela Acedemia Real das Ciências de Lisboa.
 
 
O Visconde de Paiva Manso - Levi Maria Jordão (1831-75) autor da compilação de documentos históricos "História do Congo", Lisboa, Academia Real das Ciências de Lisboa, 1877.

 
Duas obras mais recentes são também leitura obrigatória - os três volumes de "Angolana - Documentação Sobre Angola 1783-1883 e 1845, anotações coligidas por Mário António, publicadaos entre 1968 e 1976 conjuntamente pelo Instituto de Investigação Científica de Angola e o Centro  de Estudos Históricos Ultramarinos; e "História de Angola - da Pré-História ao Início do Século XXI, do Prof. Alberto Oliveira Pinto, publicada pelo Mercado de Letras, Lisboa, que já vai na sua quarta edição em 2025, é hoje o marco de referência para o estudo completo da história de Angola.
 
Para quem queira aprofundar a investigação histórica (especialmente a acção dos missionários) através de documentos coevos, é imprescindível  a consulta da grande obra do Padre António Brásio, E.S. "Angola Monumenta Missionária Africana" publicada em 22 volumes ao longo de três décadas.
 
 
O Padre António Brásio (1906-85) que coligiu a extensa "Monumenta Missionária Africana" em 22 volumes ao longo de mais de três décadas.

 
Apesar destes três estudiosos (Visconde de Paiva Manso, Alfredo de Albuquerque Felner, e Ralph Delgado) focarem a sua atenção na história dos portugueses em Angola, as suas obras não deixam de ser fundamental para se aprender a história de Angola, especialmente o período inicial de conquista e colonização. A sua importância reside na extensa riqueza documental que oferecem. Com efeito, muito do que se lê hoje de investigadores nacionais e estrangeiros não são senão que traduções e interpretações originalmente avançadas por estes historiadores nas suas obras clássicas. 
 
Alfredo de Albuquerque Felner (1872-1937) foi um oficial  do exército português com experiência de administração colonial, pois ele foi governador em 1911 do antigo distrito de Huila, logo a seguir à colonização do planalto da Huíla e antes dos combates no Cunene contra as forças alemãs. A sua obra principal é sobre Congo, Angola e Benguela, mas ele também escreveu extensivamente sobre a ocupação e colonização dos distritos de Moçamedes e da Huíla. Luanda dedicou o seu nome a uma das suas ruas.
 
 
Alfredo Frederico de Albuquerque Felner (1872-1937), o grande pioneiro da pesquisa histórica do período inicial da conquista e ocupação pelos portugueses das terras de Angola.
 
 
José Ralph Corte Real Delgado, nasceu em Luanda em 1901 e faleceu em Lisboa em 1971. Filho de um administrador colonial (o primeiro administrador do concelho do Bié), ele foi um jornalista e historiador português nascido em Luanda, e viveu muitos anos em Benguela e no Lobito, conhecido principalmente pela sua extensa e detalhada obra sobre a história colonial de Angola. Ele foi funcionário público colonial, presidente da câmara Municipal de Benguela, e fundou e dirigiu o Departamento Cultural da Câmara Municipal do Lobito. Ele foi também durante muitos anos proprietário e director do antigo Jornal de Benguela. Ele esteve ainda ligado à actividade da antiga Livraria Magalhães no Lobito. Em sua memória, o município de Benguela dedicou o seu nome a uma das suas ruas principais.

A obra de Ralph Delgado é considerada referência fundamental na historiografia da presença portuguesa em Angola até à abolição da escravatura (1836). O seu trabalho é respeitado pelo rigor, extensão, e profundidade da sua pesquisa documental, sendo frequentemente citado por outros historiadores e investigadores da história africana e colonial portuguesa. Grande parte da pesquisa histórica teve lugar nos arquivos históricos em Benguela, Luanda, e Lisboa.

 

Ralph Delgado (1901-71), decano dos historiadores de Angola 

Como historiador, ele dedicou a sua carreira a pesquisar e documentar a história de Angola, utilizando uma vasta documentação de arquivo, o que tornou o seu trabalho imprescindível para o estudo da presença portuguesa e dos povos locais. Ele colaborou nas revistas Studia e Olisipo, e no jornal A Província de Angola, e foi vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, em Lisboa.

A obra principal de Ralph Delgado inclui: 

  • A Famosa e Histórica Benguela – Catálogo de Governadores de 1779 a 1940,  Edições Cosmos, Lisboa, 1940, Edição do Governo da Província de Angola)
  •  Ao Sul do Cuanza – Ocupação e aproveitamento do Antigo Reino de Benguela, em dois volumes, Imprensa Beleza, Lisboa, 1944
  • O Reino de Benguela – Do Descobrimento ao Governo Subalterno: Outra obra importante que se foca na história de Benguela. (Imprensa Beleza, Lisboa, 1945) 

A sua obra mais notável é a "História de Angola", publicada em quatro volumes ao longo de vários anos. Esta obra abrange diferentes períodos, desde o descobrimento até a abolição da escravatura (1836): 

  • História de Angola: Primeiro período e parte do segundo 1482 a 1607 (Volume 1)
  • História de Angola: Primeiro e Segundo Períodos de 1482 a 1648 (Volume 2)
  • História de Angola: Terceiro Período de 1648 a 1836  (Volume 3)
  • História de Angola: Terceiro Periíodo de 1648 a 1836  (Volume 4)
A obra em quatro volumes foi publicada em duas edições, a primeira pelo Jornal de Benguela em 1948, de que Ralph Delgado era proprietário e director, e impresso nas oficinas gráficas da Livraria Magalhães no Lobito; e a segunda foi publicada pelo Banco de Angola (sem data, mas entre 1968 e 1976) em Lisboa. 
 
É importante relembrar que a leitura do trabalho de alguns destes estudiosos, especialmente os mais recuados no tempo, requere um esforço de tradução mais acentuado para balançar a perspectiva manifestamente euro-cêntrica e colonial (ou anti-colonial) das suas obras. Algumas delas, como por exemplo a obra de Ralph Delgado, defendem abertamente uma visão ultrapassada do mundo colonial, mas ao mesmo tempo contêm uma valiosa referência a documentos históricos originais e importantes que precisam de ser lidos "despidos" da sua "vestimenta colonial".


3. Trabalhos de Estudiosos Estrangeiros

É também necessário traduzir e divulgar em língua portuguesa algumas obras de importância extraordinária para o estudo da História de Angola publicadas no estrangeiro, como os trabalhos de E. G. Ravenstein, Heli Chatelain, Monsenhor Cuvelier e Louis Jadin, Edgar Prestage, C.R. Boxer, J.D.Fage, R.A. Oliver, Jan Vansina, Desmond Clark, Douglas Wheeler, Georges Balandier, James Duffy, Merlin Ennis, Basil Davidson, David Birmingham, Gerald Bender, John Thornton, Linda Heywood, Phyllis Martin, Joseph Miller, Lawrence Henderson, Gladwin Childs, Philip Curtin, Eugene Genovese, Herbert Klein, Patrick Manning, Paul Lovejoy, Gervase Clarence-Smith, René Pelissier, David Eltis, Franz-Wilheim Heimer, Beatrix Heintz, Linda Heywood, Robert Blackburn, A.J. Russell Wood, Marc Ferro, Susan Broadhead, Anne Hilton, John Reader, Marq de Villiers, e José Curto, e outros estudiosos tornando-as assim mais disponíveis ao estudioso lusófono da História de Angola.


4. Trabalhos de Historiadores Brasileiros

É ainda essencial a divulgação das obras de estudiosos brasileiros como Capistrano de Abreu, Roberto  Simonsen, Celso Furtado, Caio Prado Júnior, Josué de Castro, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque da Holanda, Luís Pereira, Henrique Fernando Cardoso, Maria Beatriz Nizza da Silva, Kátia de Queiroz Mattoso, Décio Freitas, Jaime Rodrigues, Alberto Costa e Silva, Luis Felipe de Alencastro, Marina de Mello e Souza, Mariana Cândido, Laurentino Gomes, Eduardo Bueno, e outros, que apesar de incidirem sobre o estudo da história do Brasil, abriram novos caminhos para uma compreensão mais completa da História de Angola.
 
Com efeito, a "frente" actual mais promissora do estudo da História de Angola reside agora nas universidades brasileiras, e não nos Estados Unidos, pois é nelas que historiadores brasileiros usando a língua portuguesa continuam a desvendar de arquivos muito originais uma grande quantidade de novos factos e caminhos que nos levam a melhor difundir e compreender a História de Angola.


5. Pré-História e História da África Central

Angola está inserida a África Central, pelo que se torna importante ao estudioso da sua História saber relacionar acontecimentos e tendências em Angola com os ocorridos na África Central e vice-versa, relacionar acontecimentos e desenvolvimentos na África Central e como estes influenciaram a História de Angola. Assim, penso que é útil referir a obra de alguns estudiosos que se salientam neste campo especial da História.

Em termos de proto-história e pré-história, duas obras de grande relevo salientam-se do resto para uma melhor compreensão da História de Angola, especialmente da sua paleo-história e proto-história, são as obras de Desmond Clark "The Pre-History of Africa" e "The Pre-History of Southern Africa". 
 
 
O Professor J. Desmond Clark (1916-2012), da Universidade da Califórnia - Berkeley, que contratado pela Diamang estudou em minúcia a pré-história do noroeste de Angola 

 
Não posso de modo algum deixar de mencionar aqui a importante obra do saudoso Prof. Dr. Carlos Ervedosa "Arqueologia de Angola", que é sem dúvida a melhor introdução em português à arqueologia paleontológica (pré-humana e humana) do território a que mais tarde se veio a chamar Angola.
 
Carlos Ervedosa nasceu em Luanda em 1932 e faleceu em 1992. Ele frequentou o Liceu Salvador Correia e formou-se em Geologia pela Universidade de Lisboa. Ele foi um destacado dirigente da Casa dos Estudantes do Império em Lisboa, de que foi presidente da mesma durante os anos Cinquenta, conhecido pelas sua s raízes nacionalistas angolanas. Quando regressou a Angola, ele lecionou a cadeira de Antropologia Geral na Faculdade de Ciências da Universidade de Luanda, onde se destacou com o seu trabalho em arqueologia. 
 
Ele foi também um escritor de nota, deixando uma obra importante que inclui "Itenerário da Literatura Angolana", "Poetas Angolanos", "Roteiro da Literatura Angolana", "Saudades de Luanda", e "Era no tempo das acácias floridas". Como nacionalista, ele foi membro do grupo "Mensagem" da Associação dos Naturais de Angola.
 
Na diáspora, em Portugal, ele chefiou o departamento de arqueologia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Carlos Ervedosa publicou em 1980 a sua "Arqueologia Angolana", o trabalho mais completo sobre a evidência arquelógica no território de Angola.
 
 
O Prof. Dr. Carlos Ervedosa (1932-92), eminente arqueólogo angolano e nacionalista de nota. Ele lecionou a cadeira de Antropologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Luanda, e escreveu "Arqueologia Angolana", o compêndio mais completo sobre arqueologia de Angola escrito até hoje.

 
Em primeiro lugar cabe-me citar o nome de Jan Vansina que desde a década de cinquenta do século passado produziu talvez a obra mais abundante e fecunda sobre a África Central. Eu penso que a leitura da sua obra é imprescindível não só ao estudo da África Central, como também ao estudo da História de Angola. Torna-se assim obrigatória a leitura da sua obra "Kingdoms of the Savanna" para quem quiser aprofundar conhecimentos sobre a pré-história dos antigos estados do Congo, Luba, Lunda, Cazembe, e Lozi. Se quisermos aprofundar o conhecimento sobre a história do Antigo Imério Kuba, a leste do Rio Cuango e vizinho de Angola, sugiro a leitura da sua obra "The Children of the Woot". A sua obra "Paths in the Rainforest" é por muitos considerada o melhor estudo de pré-história dos povos antigos que habitavam o território hoje designado com África Equatorial, que compreende os territórios do sul dos Camarões, Gabão, Guiné Equatorial, Congo (Brazzaville), Burkina Fasso (República Centro Africana), Zaire, e até Cabinda. De capital importância para o estudo da pré-história do Antigo Reino do Congo e dos povos ao longo do Quanza é a obra (já clássica) de Vansina "How Societies Are Born - Governance in West Central Africa Before 1600", em que Vansina combina evidência arqueológica com linguística histórica para explicar a evolução de pequenos núcleos de população espalhados pelo território, em sociedades que partilhando a mesma raíz linguística, deram origem aos estados organizados que os Portugueses lá encontraram no Séc. XVI. Assim, em termos do estudo da História de Angola, as suas obras "Reinos da Savana", "Paths in the Rainforests", e "How Societies Are Born" são essenciais, pois nestas obras Jan Vansina oferece o melhor estudo sobre a pré-história e a história pré-colonial dos povos Lunda e Bakongo que viveram na região a que hoje chamamos Angola.
 
 
O Professor Jan Vansina (1912-2017), da Universidade de Wisconsin - Madison (EUA), pioneiro no uso da tradicão oral como fonte de história e mais distinto historiador dos povos da África Central

 
A obra de Jan Vansina não é só importante no estudos dos povos da África Central, mas também a sua obra é considerada por muitos como a que abriu caminho ao estudo da etno-história, às relações entre a linguística e a história, e à aceitação da história oral como um instrumento efectivo e válido no estudo da história pré-colonial.

O trabalho seminal do Prof. Philip De Armond Curtin (1922-2009), originalmente da Universidade de Wisconsin - Madison, Iowa, EUA, "The Atlantic Slave Trade - A Census" no campo da estatística da escravatura e tráfico de escravos africanos no Atlântico abriu caminho a uma geração de estudiosos que revolucionaram o conhecimento da escravatura como instituição social nas sociedades africanas a sul do Sahara, e dissecou analiticamente (e estatisticamente) o tráfico trans-Atlântico de escravos como base para a riqueza económica das Américas e da Europa. Ele escreveu outras obras de relevância e lecionou mais tarde na Johns Hopkins University. O Censo do Prof. Curtin está hoje ultrapassado pela "Slave Trade Database", mas o método de estudo sistemático que ele desenvolveu ainda domina este campo importante da história da humanidade.
 
Foi o Prof. Philip Curtin que recrutou em 1964 o Prof. Jan Vansina para o famoso Centro de Estudos Africanos do Departamento de História da Universidade de Wisconsin - Madison. Juntos, eles lideraram uma explosão de interesse e estudo na história de África, que hoje mobiliza milhares de estudiosos através do mundo.
 
 
O Professor Philip De Armond Curtin (1922-2009), grande impulsionador da onda de estudos sobre a escravatura em África e do tráfico trans-Atlântico de escravos, dos séculos XVI a XIX.

 
Outras obras importantes que se torna necessário consultar incluem a "General History of Africa" , em oito volumes, publicada pela UNESCO, a  obra fundamental do Prof. John K. Thornton "A History of West Central Africa to 1850" que foca na história dos povos Bakongo, Ambundo, Lunda-Tchokwe, Luba e Ovimbundo, e "The Kingdom of Kongo - Civil War and Transition 1641-1718", e a "History of Central Africa" editada por David Birmingham e Phillys Martin (The External Trade of the Loango Coast 1576-1870" a obra "A History of Africa" (História de África", em português, em colaboração com William Tordoff) da autoria de J.D. Fage, a "A History of South and Central Africa" de Derek Wilson, e a obra de A.J. Wills "An introduction to the History of Central Africa - Zambia, Malawi and Zimbabwe", e a obra de Robert Collins e James Burns "A History of Sub-Saharan Africa".
 

O Professo John K. Thornton (1949-), da Universidade de Boston, importante investigador da história pré-colonial da África Central e de estudos da Diáspora Africana. 


Para uma melhor compreensão da génese e evolução histórica dos estados Ambundos é essencial a leitura da obra "Kings and Kinsmen - Early Mbundu States in Angola" da autoria do Prof. Joseph Miller, e da obra "Trade and Conflict in Angola - The Mbundu and their Neighbours under the influence of the Portuguese 1483 - 1790" , da autoria do Prof. David Birmingham, que também editou em associação com Richard Gray "Pre-Colonial African Trade - Essays on Trade in Central and Eastern Africa before 1900" que nos oferece uma perspectiva muito boa sobre o papel do comércio na África Central e Oriental antes da chegada dos Europeus à região.
 
 
O Professor Joseph Miller (1939-2019), da Universidade de Virginia, autor de importantes estudos  sobre a História de Angola

 
Se bem que mais relacionadas com o componente "etno" do que "história" no campo da etnohistória, a leitura das obras "Custom and Government in the Lower Congo", "Religion and Society in Central Africa", e "Kongo Political Culture", do Prof. Wyatt MacGaffey ajuda a compreender melhor a história política do povo Bakongo.
 
No campo do tráfico de escravos e o papel que os povos da região ao que chamamos hoje Angola, bem como o impacto do tráfico nesses povos, também é essencial a leitura da obra de Joseph Miller "Way of Death" um pioneiro do estudo da influência do tráfico de escravos do Atlântico nas sociedades africanas entre os séculos XVI e XIX, e de toda a obra de Basil Davidson, o grande difusor do interesse pela história de África. 
 
Como introdução geral à demografia do tráfico de escravos do Atântico é fundamental a leitura da obra de Phillip Curtin "The Atlantic Slave Trade - A Census". Como obra de referência, recomendo também a consulta de "The Trans-Atlantic Slave Trade Database on CD-Rom" compilada por David Eltis, Stephen D. Behrendt, David Richardson, e Herbert Klein, que nos fornece informação sobre 27.233 viagens de navios negreiros entre 1585 e 1866. Ainda essencial é o "Atlas of the Transatlantic Slave Trade" organizado por David Eltis e David Richardson, que nos oferecea melhor série estatística sobre o movimento de escravos através do Atlântico sob as perspectivas de porto de saída em África e porto de chegada no Novo Mundo.

 
6. Estudos Sobre a História do Atlântico Sul

Não é possível estudar a História de Angola entre os Séculos XVI e XIX sem estudar também a História do Brasil, pois durante mais de 350 era de Angola de onde vinha a mão-de-obra escrava para trabalhar os engenhos de açucar, minas de ouro ou fazendas de café do Brasil. Assim, torna-se imprescindível a leitura das obras clássicas de Celso Furtado "Economia Colonial do Brasil nos Séculos XVI e XVII" e "Formação Económica do Brasil", a "História Económica do Brasil" de Caio Prado Júnior, e "The Portuguese Seaborne Empire", "The Dutch in Brazil", "Race Relations in the Portuguese Colonial Empire 1415-1825", "The Dutch Seaborn Empire", "The Golden Age of Brazil - Growing Pains of a Colonial Society 1695-1750", ""Salvador de Sá and the Struggle for Brazil and Angola 1602-1686", "Portuguese Society in the Tropics - The Municipal Councils of Goa, Macao, Bahia, and Luanda 1510-1800" todos de C.R. Boxer, bem como "Casa Grande e Senzala" ,"Sobrados e Mocambos", e de Gilberto Freyre
 
No que respeita às relações entre a costa de Angola e o Brasil é essencial a consulta da obra de Luiz Felipe de Alencastro "O Tratado dos Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul", bem como a obra de Jaime Rodrigues "De Costa a Costa - Escravos, marinheiros, e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780-1860", e a obra "A Manilha e o Libambo" de Alberto da Costa e Silva.
 
Os estudos "An African Slaving Port and the Atlantic Worls - Benguela and its Hinterland", de Mariana Candido, e "Cross-Cultural Exchange in the Atlantic World - Angola and Brazil during the era of the Slave Trade", de Roquinaldo Ferreira, ambos estudiosos brasileiros da História de Angola baseados nos Estados Unidos, são também leitura essencial. O trabalho no campo da sociologia histórica de Luanda de Selma Pantoja, da Universidade de Brasília é também muito notável pois permite-nos apreciar o quotidiano da vida em Luanda nos séculos XVIII e XIX. 

Mais numa perspectiva mais global da história e economia do Atlântico Sul e do sistema económico mundial, é essencial o estudo dos trabalhos de João Lúcio de Azevedo, Fernand Braudel, Vitorino Magalhães Godinho e Armando Castro no domínio da história económica, as obras extensas de Jaime Cortesão e de Damião Peres no domínio da expansão portuguesa, e a obra de Luís de Albuquerque nos domínios dos Descobrimentos Portugueses e da cartografia antiga.

Se bem que mais contemporânea e com focus no processo histórico da descolonização africana é ainda importante estudar as obras de Frantz Fanon "Os Condenados da Terra" e "Peles Negras, Máscaras Brancas" para melhor compreender o enquadramento do colonialismo como sistema económico e político e o seu impacto na psicologia dos povos colonizados.

Para uma melhor compreensão deste tema tão importante é útil a leitura da obra de Jaime Rodrigues "De Costa a Costa - Escravos, marinheiros e intermediários do tráfico negreiro de Angola ao Rio de Janeiro (1780 - 1860)". Ainda de muito interesse é a obra "Enslaving Connections - Changing cultures of Africa and Brazil during the era of slavery" editada pelos Profs. José Curto e Paul Lovejoy
 
Embora sob a capa de leitura mais ligeira e muito bem ilustrada, e por isso mesmo uma importante obra de divulgação, é muito útil a leitura da obra "África e o Brasil Africano" de Marina de Mello e Souza. A esta obra, devemos adicionar as colectâneas de Laurentino Gomes "Escravidão" (em três Volumes) e a trilogia da família real no Brasil "1808", "1822", e "1889", ambas escritas para um público mais largo, sem deixar de conter conhecimentos originais e preciosos.
 
 
7. Estudos de Etno-História

Nas área da etno-história e sociologia é essencial o estudo das obras de Henrique Dias de Carvalho, Padre Carlos Estermann, Óscar Ribas, José Redinha, João Vicente Martins, Mário Milheiros, Mesquitela Lima, Manuel Alfredo de Morais Martins, Jorge e Jill Dias, Abílio Lima de Carvalho, Manuel Guerreiro, José Pereira Neto, Padre José Martins Vaz, Padre Joaquim Martins, Ilídio do Amaral (mais no domínio da geografia humana do que etnografia ou história), Herman Possinger, Franz-Wilhelm Heimer e Ramiro Ladeiro Monteiro mais na área de sociologia.


8. Estudos Sobre o Tráfico de Escravos em Angola


Com mais foco no tráfico de escravos, é ainda essencial a leitura das obras de Alfredo Diogo Júnior, António Carreira, José Capela, e Adriano Parreira, que primeiro estudaram o papel de Angola no tráfico de escravos do Atlântico, pois elas revelam um sem-fim de matéria-prima para uma melhor compreensão dos povos de Angola e da sua história.

Cabe-me aqui declarar agora a minha relativa ignorância quanto aos esforços de estudar e publicar história que com certo vigor se publicaram já depois da independência. Longe da acção, tem sido difícil para mim encontrar bibliografia tão recente. Contudo, cumpre-me citar o trabalho fecundo de Henrique Abranches ("Reflexões Sobre a Cultura Nacional") que decerto necessita de alcançar um público muito mais vasto, e da grande obra de difusão do romance histórico angolano levada a cabo pela excelente pena de Pepetela (Artur Pestana). Ambos Henrique Abranches e Artur Pestana (Pepetela) trabalharam com Adolfo Maria e João Vieira Lopes durante a década de Sessenta na compilação da popular "História de Angola", editada pelo Centro de Estudos Angolanos, do MPLA, em 1974, obra de valor didáctico mas de questionável profundidade histórica.

 
9. Necessidade de se Formarem mais Historiadores Angolanos
 
Apesar da longa lista acima descrita de estudiosos da História de Angola, a grande maioria dos quais são portugueses, brasileiros, europeus, e norte-americanos, eu acredito que é essencial acelerar o interesse pela história de Angola pelos angolanos e aumentar o número de estudiosos angolanos em arqueologia, história, linguística, e genética, pois só assim se pode investigar a fundo a história de Angola em toda a sua extensão em Angola através das suas fontes que lá se encontram mas que ainda não foram reveladas.
 
A razão desta necessidade não é só "nacionalista", mas também porque ainda há muita história por investigar e revelar em Angola, e porque também a evidência de certos aspectos dessa história (os etnológicos, documentais, e culturais) só se encontram no universo da sociedade angolana, e por mais que um historiador estrangeiro se esforce, nunca vai encontrar esses elementos fora de Angola. 
 
Da mesma forma, ainda há muita riqueza a desvendar nos arquivos históricos de Angola. Alguns estudiosos angolanos, como Mário António e Ana Paula Tavares, "mergulharam" nos arquivos existentes em Angola e produziram uma obra de divulgação notável e muito util para outros investigadores. Outros estudiosos mais recentes da História de Angola (já depois da Independência), como Elikia M'Bokolo, Patricio Batsikama, Aida Freundenthal, Maria da Conceição Neto, Elizabeth Ceita Cruz, António Custódio Gonçalves, e Alberto de Oliveira Pinto que escreveram obras de maior profundidade que são hoje referência obrigatória.

Finalmente, tomo aqui a oportunidade de guiar o leitor para as minhas notas sobre a bibliografia da História de Angola que apresento no fim deste trabalho. Elas não são decerto completas, pois incluem apenas algumas notas pessoais sobre textos que conheço, organizadas de acordo com temas e épocas; apenas um achego simples a tão importante e vasto tópico do estudo da História de Angola.
 

3.7 Fontes da História de Angola

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Fontes para o Estudo da História de Angola

 

De uma forma geral, as fontes para o estudo da História de Angola são muito escassas e de frágil objectividade, consistindo a maioria de documentos relacionados com a presença portuguesa em Angola, o que variou muito ao longo dos últimos cinco séculos em termos de inclusão de estados e povos nativos e seus territórios. 

Antes de discutir as fontes da história de Angola em mais promenor é útil cobrir os cinco tipos de fontes para o estudo de história:

  •         . Fontes documentais (primárias e secundárias)
  •         . Tradição Oral
  •         . Pesquisa arqueológica (antropológica e etno-histórica)
  •         . Estudos de comparação e  evolução de línguas ancestrais, e
  •         . Estudos de evolução de diferenciação genética

Cabe aqui entretanto prestarmos atenção a dois aspectos importantes sobre o estudo das fontes da história de Angola:

 

Abordagem multifacetada

Quando o estudioso de história estuda um determinado facto histórico, um período, ou uma população, ele/ela não se limita ao uso de uma só fonte de história; com efeito ele/ela tenta usar todos os tipos de fontes disponíveis que possam ajudar, pois além de proporcionarem uma melhor confirmarmação do objecto e conclusões do estudo, na maior parte dos casos uma fonte só não é suficiente para proporcionar toda a informação que é necessária. 

Assim, o estudioso de história usa não só fontes documentais, mas tamém outras fontes ao mesmo tempo, por exemplo fontes documentais complementadas por evidência obtida através do estudo de outras fontes como o estudo da tradição oral, pesquisa antropológica e etno-histórica, evolução e comparação de línguas e dialectos, e confirmação de variações genéticas da população a ser estudada ao longo de várias gerações ou mesmo séculos. 

Este enfoque multidisciplinar, se bem que requeira um maior esforço de estudo, ajuda muito a identificar, explicar e interpretar o tópico que o historiador está a estudar.


Fontes de História e Fontes de Pré-História

È comum dividir-se a história das sociedades humans em dois períodos principais: a Pré-História e a História. A Pré-História refere-se ao periodo desde o aparecimento da espécie humana até à invenção ou aparecimento e adopção da escrita, e a História refere-se ao periodo depois do aparecimento ou adopção da escrita. Assim documentos escritos assumem um papel primordial nas fontes para a história e um papel quase nulo para a Pré-História, pois esta refere-se ao período que antecede a invenção ou aparição ou adopção da escrita. Assim, se não pudermos usar documento escritos na pesquisa pré-histórica que fontes vamos usar? 

Felizmente esta lacuna pode ser preenchida com frequência por duas outras fontes: a pesquisa arqueológica para a evidência da cultura material (utensilios, vestígios de alimentos, vestuário, habitação, arte, armas, etc.), e investigação etno-histórica (história s de criação, mitos, religião, cronologias dinásticas), evolução  linguística e comparada, e de tradição oral (lendas, estórias, canções, feitos de antepassados, linhagens, e feitos militares) para evidência da cultura não material.

Assim, para o estudo da pré-história de Angola, entendendo-se que esta abranja todo o tempo desde os povos originais (San e Pigmeus) e estados pré-coloniais até à chegada dos portugueses em 1482. Para o estudo desta fase, o valor da pesquisa histórica de fontes documentais primárias é muito limitado (quase nulo até), ao passo que o uso da tradição oral, pesquisa antropológica, e estudos de comparação e evolução linguística, e estudos de evolução de indicadores genéticos se tornam essenciais.

 

O Factor "Tempo" e Fontes de História

 Temos ainda que ter em atenção que cada fonte de história tem a sua temporalidade. Com efeito um documento escrito refere-se normalmente a um período de tempo muito específico (um dia ou um ano), ao passo que a pesquisa arquológica a um período mais longo (uma ou várias gerações), a tradição oral a várias gerações, a os estudos comparativos de linguagem a muitas gerações, e os estudos de evolução e variação genéticas a vários séculos. Um edifício, ou uma igreja, por seu lado podem durar muito mais tempo.


Variabilidade do Objecto de Estudo - o caso de Angola

Outro aspecto que é importante ter em atenção é a "variabilidade" do objecto de estudo ao longo dos tempos, pois este raramente se mantém constante. Quando estudamos a história de Angola, o que é que queremos dizer? 

Nós sabemos que Angola só atingiu a sua unidade territorial na década de 1920, quando todos os povos que mais tarde fariam parte da colónia de Angola foram "reunidos" na colónia de Angola e mais tarde em 1975 passaram a ser parte de o país soberano de Angola. Antes dessa data, o território estava dividido num mosico de chefados independentes de culturas e línguas diferentes, alguns dominados pelos portugueses e outros não.

Quando nos referimos a Angola de 1870, antes das campanhas militares de ocupação, por exemplo, estamos necessariamente a referirmo-nos à colónia de Angola desse tempo, que apenas incluia a maioria do povo Ambundo da baía de Luanda e bacia do Cuanza, uma pequena parte do povo Bakongo a sul do rio Zaire, e uma pequena parte do povo Ovimbundo próximo de Benguela, Caconda e Quilengues, e a "ilha" de Moçâmedes, na ponta sul, excluindo todos os outros povos e seus territórios que mais tarde passaram a fazer parte de Angola (a maioria do povo Ovimbundo, e a totalidade dos povos Lunda e Quioco, Nganguela, Herero, Ambó, Nhaneka, Humbe, Xindonga, e das comunidades isoladas de San (ainda não organizadas em forma de estado), distribuídas na faixa sul to território. 

Se formos um pouco mais atrás no tempo, 1648 por exemplo, a colónia portuguesa de Angola era ainda muito mais reduzida pois compreendia apenas a baía e ilha de Luanda, uma breve faixa ao longo do da foz do rio Kwanza (Massangano, Cambambe, e Muxima), apenas uma pequena parte do então reino do Ndongo. Nem sequer o antigo reino do Congo com quem os portugueses tinham relações comerciais desde os fins dos século XV era nesta altura parte da colónia de Angola.

Assim, o território de "Angola" evoluiu ao longo do tempo, desde o embrião de Luanda e dos presídios ao longo do curso do rio Cuanza, até à configuração territorial que Angola tinha em 1975.  

Como exemplo "oposto" a esta varião de povos e territórios podemos usar o caso de Portugal, que manteve a sua identidade nacional e totalidade territorial mais ou menos inalterada por quase nove séculos.

Depois destes dois pontos importantes, passamos agora ao estudo de cada uma das fontes de história:


1.    Fontes Documentais

 As fontes documentais para o estudo da história classificam-se em geral em dois tipos: fontes primárias e fontes secundárias.

 

1.1    Fontes Documentais Primárias

Fontes primárias referem-se a qualquer trabalho original (documento, carta, oficio, relatório, acordo diplomático, disposição legal, decisão ou acórdão de tribunal, notícia, memória, mapa, registo notarial, estatística, ou cadastro) que tenha sido escrito durante a época (ou pouco tempo depois) em que o objecto de estudo aconteceu. As fontes primárias são a matéria prima básica para o estudo da história. As fontes documentais primárias originais são normalmente guardadas com muito cuidado em arquivos especiais e são feitas disponíveis aos estudiosos e o público em geral em forma de cópia ou outra forma de publicação, livro, mapa, fotografia, ou imagem digital. 

Como exemplos mais marcantes de fontes primárias no estudo da história de Angola (mais concretamente sobre a história dos portugueses nos reinos do Congo e Angola) sugiro as seguintes obras importantes:

a) A Relatione del Reame di Congo et delle Circuonvicine Contrade Tratta dalli Scritti & Ragionamenti di Odoardo Lopez Portoghese per Filippo Pigafetta com disiegni vari di Geografia, di piante, d'abiti, d'animali, & altro - Relação do Reino do Congo e das Terras Circunvizinhas - Tirada dos Escritos e Discursos de Duarte Lopez, Português - Por Filippo Pigafetta - Com Desenhos vários de Geografia, de Plantas, de trajos, de animais, etc., publicado em Roma em 1591 e traduzido em português por Rosa Capeans, publicado pela Agência Geral do Ultramar, em Lisboa em 1951. Nesta importante fonte da história do Antigo Reino do Congo encontramos uma descrição em primeira mão durante o primeiro século logo a seguir à chegada dos Portugueses (1483) e antes da sua consequente expansão para o Reino de Angola na bacia do Rio Quanza, em 1575.

b) História do Reino do Congo, autor anónimo, notas de Eduardo dos Santos 

c) O manuscrito Um Inquérito à Vida Administrativa e Económica de Angola e do Brasil em Fins do Século XVI conduzido em 1591 pelo Licenciado Domingos de Abreu e Brito, e publicado pela Universidade de Coimbra em 1931 pelo Coronel Alfredo de Albuquerque Felner. Esta sindicância aos actos do governador Paulo Dias de Novais visava expor as irregularidades crónicas na administração de Angola e do Brasil desse tempo e dá-nos uma boa descriçao da organização do tráfico de escravos, da organização administrativa e militar de Angola e oferece um número de sugestões para o governo mais eficiente de Angola e do Brasil. Com efeito, ela sugere o fim do regime de capitanias hereditárias e a sua substituição pela administração directa da colónia pela corôa portuguesa, e oferece ainda as linhas gerais de ocupação militar e comercial do tráfico de escravos que se viria a realizar no século seguinte.

d) A obra The Strange Adventures of Andrew Battel of Leigh, in Angola and the Adjoining Regions, publicado por Samuel Purchas em Londres em 1625, descreve as venturas e desventuras de Andrew Battel, um corsário inglês preso na costa do Brasil que foi mais tarde enviado pelos portugueses para as  terras do Loango, Congo e Ndongo durante o periodo de 1590 a 1610, focando em particular na expansão dos Jagas (Imbangala) No Congo, Ndongo e Matamba e as guerras de Kuata! Kuata! levadas a efeito pelos portugueses nesses territórios. 

A obra de Samuel Purchas foi editada e completada com notas por E. G. Ravenstein adicionada de uma breve e concisa história do Congo e Angola, publicada pela Hakluyt Society em Londres em 1901. A obra de Ravenstein é uma boa fonte de informação (não oficiosa e relativamente independente) sobre este período conturbado da ocupação portuguesa da bacia do Quanza.

e) A obra em três tomos História Geral das Guerras Angolanas escrita e completada em 1680 pelo Capitão português António de Oliveira Cadornega. Esta importante fonte primária da história de Angola foi somente publicada em Portugal pela Agência Geral do Ultramar em 1972, sob a direcção e revisão do Padre José Matias Delgado (falecido em 1932), embora algumas porções tenham sido publicadas pelo Padre Ruela Pombo na sua revista Diogo Cão em 1933. 

A obra de António de Oliveira Cadornega é particularmente importante pois relata pelo punho de um protagonista os principais acontecimentos em Angola e Congo nos primeiros tempos do avanço da conquista portuguesa da baixa do Rio Cuanza (Cambambe, Muxima e Massangano) e da resistência a esta ocupação pelos estados nativos do Ndongo (Angola), Matamba, e Congo, com relevância especial para a vida e o papel da raínha Ginga (Nzinga Mbandi / Dona Ana de Sousa) nessa resistência até aos finais do século XVII. 

f) Em 1687 foi publicada em língua italiana  a Istorica Descrizione de' tré' Regni, Congo, Matamba et Angola Situati Nell Etiopia Interiore Occidentalle e Delle Missioni Apostliche Efercitateui da Religiosi Capuccini pelo Padre João António Cavazzi de Montecúccolo, traduzido para português pelo Padre Graciano Maria de Leguzzano (Descrição Histórica dos Três Reinos  de Congo, Matamba e Angola), e somente publicado em português pelo Agrupamento de Estudos de Cartografia Antiga da Junta de Investigações do Ultramar, em Lisboa, em 1965. 

O foco desta magnífica obra em três volumes com muitas ilustrações é a acção apostólica dos Padres Capuchinhos na África Central entre 1645 e 1670, mas oferece também uma extraodinária descrição detalhada da vida nos reinos do Congo, Ndongo, e Matamba,  desse tempo, em especial aspectos biográficos da Rainha Njinga Mbandi (Dona Ana de Sousa) até à sua morte em 1663.

 g) A História de Angola escrita por Elias Alexandre da Silva Corrêa, militar luso-brasileiro que serviu seis anos em Angola  (1782-1789), oferece no segundo volume uma boa monografia da colónia de Angola desse tempo, incluindo uma descrição da suas vilas e povoações, administração e organização militar, e em especial da sua estrutura económica como colónia fornecedora de escravos para o Brasil. 

Elias Alexandre da Silva Corrêa oferece também no primeiro volume um bom sumário dos feitos dos governadores de Angola, desde Paulo Dias de Novais até ao governador José de Almeida e Vasconcelos Soveral e Carvalho (1790). A História de Angola, de Elias Alexandre da Silva Corrêa foi publicada pela Editorial Ática em 1937,  sob direcção do Dr. Manuel Múrias, inserida na Colecção  dos Clássicos da Expansão Portuguesa no Mundo.

h) Embora de interesse mais específico, os Ensaios Sobre Algumas Enfermidades D'Angola, pelo Doutor José Pinto de Azeredo, publicado pele Regia Officina Typografica, em Lisboa, em 1799. Esta obra foi posteriormente publicada pelo Arquivo Histórico de Angola, uma agência do Instituto de Investigação Científica de Angola, em Luanda, em 1967. 

A importância destes ensaios reside na descrição promenorizada da ciência médica e farmacológica e do estado geral de saúde e doenças que afligiam os residentes de Luanda nos fins do século XVIII, oferecido por um médico, que foi também professor da primeira escola médica em Luanda, e que lá viveu nessa época.

i)  Memórias de Mota Fêo

j) O Ensaio Estatístico Sobre a Estatística DÁngola e Benguella e Suas Dependências na Costa Occidental DÁfrica ao Sul do Equador é o 3º volume da série de seis monografias preparadas por José Joaquim Lopes de Lima, sobre as possessões portuguesas na Àfrica ocidental e oriental, na Ásia ocidental, na China, e na Oceânia, publicado em Lisboa em 1844-46 e a primeira obra que oferece um excelente compêncio histórico-estatístico detalhado da vida na colónia de Angola na primeira metade do século XIX

A obra de Lopes de Lima oferece um resumo da história de Angola e um sumário do trabalho de cada um dos governadores que serviram na colónia até ao período da lutas liberais em Portugal (ca. 1830). 

k) A História do Congo é uma colecção de 211 cartas, correspondência oficial e documentos importantes relativos ao antigo Reino do Congo, datados entre 1492 e 1724, compilados pelo Visconde  de Paiva Manso, publicada a título póstumo pela Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa em Lisboa em 1877, dois anos depois do seu falecimento.

l) A obra Angola - Apontamentos Sôbre a Ocupação e Início do Estabelecimento dos Portuguesew no Congo, Angola, e Benguella Extraída de Documentos Históricos coligidos pelo Coronel Alfredo de Albuquerque Felner, publicado em 1933 pela Imprensa da Universidade de Coimbra, apesar de essencialmente ser mais uma fonte secundária do que primária, inclui no seu Apêndice a transcrição de 104 documentos históricos relevantes ao início da ocupação e conquista portuguesa dos antigos reinos do Congo, Angola (Ndongo e Matamba), e Benguela.

m) A expedição ao Muataiânvuo e Lunda de Henrique de Carvalho  

n) Depois de publicar a sua obra magna Angola - Apontamentos Sôbre a Ocupação e Início do Estabelecimento dos Portugueses no Congo, Angola, e Benguella Extraída de Documentos Históricos, Alfredo de Albuquerque Felner continupou a estudar a ocupação e expansão portuguesa a sul do rio Quanza, o que infelizmente não conseguiu completar pois veio a falecer em 1937 aos 65 anos de idade. Nos dois anos seguintes o seu amigo e prominente historiador Gastão de Sousa Dias editou e completou o trabalho de Alfredo de Albuquerque Felner que veio a ser publicado em três volumes pela Agência Geral das Colónias em 1940 sob o título Angola Apontamentos Sobre a Colonização dos Planaltos e Litoral do Sul de Angola Extraídos de Documentos Históricos por Alfredo de Albuquerque Felner (Obra Póstuma). Dos três volumes (857 páginas), mais de 700 páginas são dedicadas à transcrição de documentos de relevância histórica. Alfredo de Albuquerque Felner e Gastão de Sousa Dias eram amigos de longa data, tendo o primeiro sido governador de Moçâmedes (Namibe) e por conseguinte ter vivido em Moçamedes durante alguns anos e o segundo ter sido professor do Liceu Diogo Cão em Sá da Bandeira (Lubango), e lá ter vivido durante muitos anos.

o) Entre 1933 e 1943 a Repartição Central de Estatística de Angola e mais tarde o Museu de Angola publicaram a série Arquivos de Angola que visava a publicação fiel de documentos históricos existentes nos arquivos públicos de Angola. Sob a liderança do Monsenhor Alves da Cunha e colaboração de um grupo de professores do antigo Liceu Central de Salvador Correia em Luanda, e de Alberto (Jorge Júdice Ferreira de) Lemos, quadro superior dos antigos Serviços de Fazenda de Angola nas décadas de 1930, 1940, e 1950 nos Arquivos de Angola foram publicados um grande número de documentos oficiais originais muito úteis para o estudo da história de Angola. 

p) História(s) de Angola, de Francisco Castelbranco e de Alberto de Lemos

q) História de Angola, de Ralph Delgado

r) A Monumenta Missionária Africana, publicada em 15 volumes, compilada pelo Padre António Brásio, C.S.Sp., entre 1952 e 1988, é decerto a mais extensa compilação de documentos históricos relacionados com a presença da Igreja Católica nas antigas possessões portuguesas na costa ocidental de África (incluindo Angola), contendo milhares de documentos. Os primeiros 12 volumes desta obra monumental foram publicados pela antiga Agência Geral do Ultramar, e os últimos três pela Academia Portuguesa de História, ambas em Lisboa.

s) Na décadas de 1960 e 1970, o antigo Centro de Estudos Históricos Ultramarinos publicou duas séries de publicações de muito interesse para o estudo da história de Angola. A primeira de caracter mais geral publicada em 1962, Documentação Ultramarina Portuguesa abrangendo todas as possessões portuguesas ultramarinas, e a segunda em três volumes chamada Angolana (Documentação Sobre Angola), publicada em Lisboa em 1968, 1971, e 1976 em cooperação com o Instituto de Investigação Científica de Angola, sobre a coordenação do escritor e nacionalista Mário António Fermandes de Oliveira. As Gavetas da Torre do Tombo, também publicadas pelo Centro de Estudos Históricos Ultramarinos contêm também alguns documentos de interesse que se referem a Angola.

t) História de Angola, de Norberto Gonzaga

u) História de Angola, do MPLA

v) História das Campanhas Militares de Ocupação, de René Pélissier

x) Arqueologia Angolana, de Carlos Ervedosa 

y) História de Angola de Alberto de Oliveira Pinto


Como se pode verificar a lista de fontes de história de Angola abrange principalmente os antigos estados do Congo, Ndongo e Matamba deixando aberta uma lacuna muito grande no que respeita aos outros povos e estados que existiram dentro do território a que hoje chamamos Angola. Com efeito o número de fontes primárias documentais para todos esses povos e estados é quase nula.

Esta limitação severa das fontes documentais primárias no que respeita aos outros povos de Angola leva-nos a recorrer a outras fontes de história além das documentais primárias, com ênfase na tradição oral,e na pesquisa antropológica, etno-histórica e linguística.

  
1.2    Fontes Documentais Secundárias

Por outro lado, fontes secundárias são aquelas que estudam as fontes primárias de um tópico em história depois do tempo do tópico a que o estudo se refere. Fontes secundárias são em geral estudos posteriores que cobrem a descrição, análise e explicação de fontes primárias. A obra do Professor Joseph Miller "Way of Death - Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade 1730 - 1830", publicada em 1988 pela University of Wisconsin Press é um exemplo de uma fonte secundária pois é um estudo extenso e profundo de fontes primárias sobre a prática do tráfico de escravos da região de Angola durante o século que vai de 1730 a 1830, escrita no último quartel do Século XX.

Em termos de documentação escrita, no estudo da História de Angola só temos acesso a documentos escritos depois da chegada dos Portugueses à foz do Zaire em 1481. Estas fontes escritas se bem que escassas são valiosas, pois dão-nos uma descrição em primeira mão de como ocorreu o processo de contacto entre duas culturas; contudo, devemos sempre notar que os escritos dos Portugueses e dos missionários reflectem necessáriamente as perspectivas portuguesa e cristã ao longo dos tempos, e não necessáriamente a objectividade dos factos históricos.

A bibliografia colonial portuguesa sobre Angola é de certa forma extensa, comparada com a bibliografia de outras regiões africanas a sul do Sahara. Contudo, esta precisa de ser "traduzida" antes que se possa usar com propriedade na formulação da História de Angola mais autónoma e menos colonial. É assim importante discernir nas diferentes "Histórias de Angola" publicadas ao longo dos tempos, as diferentes interpretações que os seus autores lhes deram.

Na verdade, podemos dizer que o progresso registado nos últimos anos no estudo e investigação da História de Angola, em Angola, no Brasil, em Portugal, na Inglaterra, e nos Estados Unidos da América, tem a haver na sua grande maioria com a reintrepretação de documentos coloniais à luz de uma perspectiva mais angolana e objectiva, e menos colonial e cristã.

De particular importância para o estudo da História de Angola é ainda o estudo das descrições e memórias, autobiografias, relatos de viagens, diários e correspondência privada existentes. Contudo, apenas podemos usar estas fontes depois de as despir-mos de opiniões pessoais e juízos de valor que as acompanham, enquadradas no espaço e no tempo. É de facto muito interessante ler, por exemplo, as opiniões e comentários do Padre João António Cavazzi de Montecúccolo, na sua Descrição Histórica dos Três Reinos do Congo, Matamba e Angola, onde a evidência da sua formação europeia e cristã do seu tempo está sempre tão presente.

Em termos de bibliografia pós-colonial estrangeira pode dizer-se que os maiores polos de pesquisa história corrente são as universidades brasileiras e norte-americanas. Os trabalhos brasileiros concentram-se particularmente no tráfico de escravos e na administração portuguesa ultramarina (em Angola como "colónia" brasileira durante todo o período do tráfico de escravos), e os trabalhos americanos na re-leitura e re-interpretação de obras de história colonial portuguesa e na conversão do foco principal do "português" para o "angolano" no contexto da história de África e do Atlântico Sul. 

Cabe referir aqui uma obra de investigação histórica de extraordinário valor: O Atlas of the Atlantic Slave Trade, da autoria dos professores David Eltis e David Richardson, publicado em 2010 pela Yale University Press. A obra inclui mais de 200 mapas com estatísticas detalhadas sobre o tráfico trans-Atlântico de Escravos, delineando mais de 35.000 viagens marítimas de navios tumbeiros desde 1501 a 1867, portos de saída e de entrada, e número de escravos embarcados e desembarcados. A informação contida nesta importante fonte é baseada na Transatlantic Slave Trade Database Project composta de 228 campos numa base de dados compilada pelo Instituto W.E.B. Du Bois da Universidade de Harvard (EUA), sob a orientação técnica dos professores David Eltis, Stephen Behredt, David Richardson, e Herbert Klein, e publicado pela Cambridge University Press. Website https://www.slavevoyages.org/ .

Pela sua extrema utilidade na pesquisa de história de Angola, a obra monumental em seis volumes (1.660 páginas) de Roberto Correia Angola - Datas e Factos é uma cronologia detalhada de factos históricos importantes na evolução de Angola desde  a chegada dos portugueses em 1482 até ao fim da guerra civil em 2002. A obra foi publicada em Lisboa pelo autor entre 1998 e 2002.


2.     Tradição Oral

Não temos também acesso a informantes, entrevistas e narrativas de tradição oral, pois escasso é o trabalho neste campo de investigação histórica, e mais escassas ainda são as suas fontes para uma melhor compreensão da História de Angola.

Cabe ainda referir o papel importante que a mitologia, as lendas, contos, advinhas, canções, danças, festejos e jogos podem desempenhar na interpretação de factos ou personagens históricas passadas. A cultura popular e o folclore dão uma visão não oficial dos factos, personagens e acontecimentos importantes, muitas vezes mais ricas e mais verdadeiras, e pouco mencionados nas fontes mais convencionais. Por exemplo, a obra de Óscar Ribas, pelo seu esforço em transcrever um grande número de elementos de cultura popular luandense, é hoje uma fonte imprescindível, na verdade um tesouro valioso, para se compreender o quotidiano de Luanda indígena e crioula.

 

3.     Evidência Arqueológica

A evidência arqueológica é também muito escassa e ainda não está organizada numa forma sistemática. Apesar dos trabalhos de Desmond Clark, Camarate França, Santos Júnior, Carlos Ervedosa, e outros, na segunda metade do Séc. XX, muito ainda está por estudar no que diz respeito à cobertura arqueológica de Angola. Expand

 

4.     Antropologia e Etno-História

Cabe aqui realçar o papel especial da antropologia (por alguns estudiosos designada por etnologia ou etnografia) e da etno-história no estudo e compreensão das sociedades angolanas tradicionais, e a contribuição que estas podem dar a uma formulação mais correcta e abrangente da História de Angola. Sabemos assim das contribuições valiosas que um número restrito de etnólogos (ou antropólogos, a saber, Henrique de Carvalho, José Redinha, Carlos Estermann, João Vicente Martins, Mário Milheiros, Manuel Alfredo Morais Martins, e Mesquitela Lima) deram para o conhecimento mais profundo da etno-história de alguns povos de Angola.

É ainda importante referir que para esta Viagem Pela História de Angola recorri somente a fontes secundárias (bibliografia) e que não conduzi qualquer investigação original baseada em fontes primárias. Assim, filtrei e extrapolei a informação que tive disponível e recorri sempre que necessário à economia política, à sociologia, à antropologia, à demografia e a outras disciplinas sociais para tentar colmatar as lacunas da desejada evidência histórica.


5.     Linguistica Comparada

Trabalho em progresso

 

6.    Diferenciação Genética

Trabalho em progresso


Foi pois difícil para mim escrever sobre um tópico em que as fontes sejam tão limitadas e esparsas. Contudo, e apesar das grandes lacunas que reconheço, é importante que o faça com o maior rigor e objectividade possível. Recorri assim a numerosas obras em inglês, francês e espanhol, em que alguns autores tentaram com alguma frequência denegrir o esforço português e a sua obra, o que me senti obrigado de vez em quando a abrandar ou corrigir.

No meu caso pessoal, não tive o benefício do diálogo ou da troca de ideias com outros estudiosos da História de Angola, pois estou longe de qualquer grupo que se interessa por este tópico tão exótico. Esta foi assim uma empresa solitária, e por isso mesmo mais sujeita ainda a maior risco de subjectividade.

3.6 Porquê Estudar a História de Angola?


Companheiro(a) de viagem - Para ler os meus outros blogues visita aqui o Roteiro de Viagem e visita o blogue da tua escolha. Desde já, Obrigado pelos teus comentários.


Esta é uma tarefa sem fim em vista, pois continuo a melhorar este blogue continuamente. Assim, volta em breve, que vais encontrar algo de novo!

 

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O passado condiciona necessáriamente não só o que somos hoje, mas também o que fomos ontem, e mesmo o que seremos amanhã. Assim, o estudo da História de Angola ajuda-nos a compreender melhor o processo de mudança ao longo do tempo e assim entender melhor o que é hoje Angola.


1. Ir à Raíz das Questões

Com frequência, o estudo de acontecimentos recentes não é suficiente para explicar uma determinada realidade social ou política, havendo necessidade de se "voltar mais atrás no tempo" a fim de podermos entender melhor as raízes e os agentes-chaves de mudança e a sua evolução, prestando não só atenção a factores conjunturais mas também aos estruturais. Por outro lado, sabemos também que o conhecimento do momento presente ajuda-nos a melhor compreender o passado. O estudo da história é quem nos ajuda a aprender as relações causais entre os factos históricos e a ordená-los de acordo com um padrão ou lógica.

Só através do estudo da História de Angola podemos compreender não só o que mudou como também o "porquê" que as "coisas" mudaram, e quais os agentes da dinâmica social angolana que persistiram ao longo dos tempos, não obstante mudanças radicais noutros campos, pois como Leibnitz disse, "a melhor maneira de compreender uma realidade é conhecer-lhe as suas causas".


2. Melhor Entendimento Social

A história é a memória comum de uma sociedade. A História de Angola relembra-nos não somente os seus heróis e grandes feitos do passado, ou o sincretismo do contacto entre vários mundos, mas também nos revela a crueldade e violência do tráfico de escravos, a exploração colonial e a destruição da Guerra Civil; o seu conhecimento é essencial para uma melhor cidadania, ajudando assim na promoção e realização de uma identidade nacional mais sã e mais completa. O estudo da História de Angola ajuda também o melhor entendimento entre os homens, contribui para a construção de uma sociedade democrática mais esclarecida e actuante dos seus cidadãos.


3. Padrões de Evolução

O conhecimento da História de Angola mostra-nos como indivíduos, grupos, instituições, classes, povos e sociedades evoluiram ao longo do tempo, enquanto contribuiram para a coesão do todo a que hoje chamamos Angola. O seu estudo dá-nos uma preciosa lição acerca da evolução e tendências a longo prazo das relações económicas, estruturas políticas e religiosas, instituições sociais nacionais, e desafios e valores, ao mesmo tempo que nos mostra como é que os agentes se articulavam entre si, e como é que Angola se relacionava com o resto do mundo. É certo que o passado não se pode mudar, pois os factos históricos em si não se repetem, mas o nosso conhecimento deles é um processo que evolui e se aperfeiçoa continuamente ao longo dos tempos.


4. Pedagogia da História de Angola

Quanto aos erros e tragédias do passado, a sabedoria popular diz-nos que quando um povo esquece a sua história, esse povo está condenado a repetir os mesmos erros e tragédias do passado. É assim importante para uma sociedade estar bem informada acerca das grandes tragédias da humanidade ocorridas no passado, de forma a cedo poder detectar, perceber e resolver os primeiros indícios ou tendências que possam levar a novas tragédias. O conhecimento e a divulgação da história facilitam a vigilância e o activismo político, pois todos aprendemos com os erros do passado, e como o historiador Marc Bloch bem notou, sabemos que "a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado". Por outro lado, é também importante saber quais os sucessos do passado para os compreender e adaptar ao presente.


5. Métodos de Pensamento e Pesquisa


Num plano mais pessoal, a aprendizagem da História de Angola, como laboratório infinito do seu passado, ajuda-nos a identificar melhor o continuum da sua evolução e avaliar os conflitos ao longo dos tempos, ajudando-nos assim pessoalmente a discernir melhor quais os agentes principais de mudança em situações complexas, cuja compreensão nos ajuda a enfrentar alguns problemas e dilemas que, como pessoas comuns enfrentamos no nosso dia-a-dia.

O estudo da história facilita ainda a aquisição de melhores hábitos pessoais de pesquisa, de avaliação de conhecimentos e de escolha, e o despertar da mente para compreender com mais rigor a realidade social e política que nos rodeia. O estudo da história ajuda-nos ainda a desenvolver bons hábitos de pensar e agir, predicado essencial para um melhor desempenho social e político, seja para uma classe política, comunidade, grupo, ou simplesmente para um eleitorado mais educado e eficaz.


6. Identidade Angolana


A História de Angola é a memória social e cultural dos povos que cimentaram a sua formação. A Nação Angolana é formada por grupos étnicos e culturais variados que partilham o mesmo passado comum, e é a história que ajuda a identificar a Nação Angolana como tal. Porém, a história não só ajuda na formação da Nação Angolana, como também é ela que fornece os elementos que leva os seus cidadãos a identificarem-se como "nacionais" com base na experiência dos seus antepassados.

Assim, é a História de Angola que nos mostra como povos originalmente distintos e independentes entraram em contacto uns com os outros e se transformaram ou se juntaram a outras sociedades ao longo dos tempos, e como essa aglutinação criou e alimentou a identidade política e social que é a Angola de hoje Podemos assim dizer que é a História de Angola nos ajuda a definir como Angolanos.


7. Prazer e Delícia

Por fim, o estudo da história não só informa, mas também inspira e delicia. É, como sabemos, um profundo prazer, pois pouco há de mais belo do que a leitura da descrição ou análise do passado emanado da mente e pena de um bom mestre em história. Com referência ao prazer que a leitura ou o estudo que uma boa obra de história nos pode dar, transcrevo as palavras do Padre José Matias Delgado no seu Prólogo do Anotador à História Geral das Guerras Angolas, escrita por António de Oliveira Cadornega e publicado em Lisboa em 1680, e editado pela Agência Geral do Ultramar, Lisboa, em 1972, com anotações do Padre José Matias Delgado:

"Cadornega era dotado de um grande espírito de observação e conta os factos de tal modo que se torna agradável e de interesse a leitura da sua história, posto que à primeira vista nos amedronta pela enormidade dos seus compactos capítulos. A sua maneira de escrever é tão natural, tão fluente e simples que nos encanta, nos deleita e sobretudo nos comove, fazendo-nos passear diante dos olhos os factos admiráveis de grande heroismo e verdadeiras epopeias."